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O movimento liberal no Brasil é vazio de substância e propriedade


Por André Valeriano

No último dia 05, foi revelado que o deputado federal, Jair Bolsonaro, será candidato a presidente da República pelo PSL (Partido Social Liberal). O partido aceitou a filiação de Bolsonaro após algumas negociações com o presidente da sigla, Luciano Bivar. Em decorrência desse fato, a ala minoritária do partido, o Livres, composta por liberais e libertários, decidiu sair da sigla na qual se propuseram a reformá-la, por conta de sua oposição ao deputado por considerá-lo “autoritário”. Esse fato revela um sintoma dentro do movimento liberal brasileiro: o quão ingênio, ideólogo e panfletário ele é em termos de ciência política.

O movimento liberal no Brasil teve seu início no Século XX com quatro grandes intelectuais: o economista Eugênio Gudin, o embaixador J. O. Meira Penna, o criador do Instituto Liberal, Donald Stewart Junior, e o economista Roberto Campos. Todos eles foram pessoas notáveis pelas suas defesas ao liberalismo no Brasil em uma época na qual o pensamento dominante era o positivismo e o nacional-desenvolvimentismo.

Meira Penna foi um grande intelectual que estudou a fundo as raízes da mentalidade do Brasileiro em sua obra "Psicologia do subdesenvolvimento", além de outros grandes livros de grande importância para o entendimento da política e da economia nacional. Roberto Campos idem, foi de suma importância para a divulgação do liberalismo, debateu com figuras como Carlos Prestes, e seu livro "A Laterna de Popa" é indispensável para conhecer o pensamento de Campos e o contexto político e econômico em que o economista vivenciou no Brasil e no mundo como diplomata.

Donald Stewart Jr, com o objetivo de formar um movimento liberal coeso, forte e com bagagem intelectual, fundou o Instituto Liberal e trouxe diversas obras que não eram vendidas no Brasil, livros tanto liberais quanto conservadores. O mesmo Donald Stewart traduziu o livro "Ação Humana: Um tratado de economia", de Ludwig von Mises, que agora muitos leem e saem espalhando aos confins do mundo sua teoria econômica. Já Eugênio Gudin teve importância dentro do debate econômico nacional, se opondo a ideia de planejamento central promovida pelo seu adversário Mário Henrique Simonsen, além de ajudar Meira Penna a trazer nada mais que Friedrich August von Hayek ao Brasil para palestrar no final da década de 1970.

Todos esses homens possuíam bagagem intelectual não só sobre economia ou teoria liberal, mas também sobre o Brasil, suas raízes, entendiam o país de forma que nenhum desses liberais atuais entendem. Todos eles enobreciam a causa liberal, traziam seus valores ao movimento liberal e o tornavam mais rico, apesar do pouco espaço que tinham. Contudo, eles foram substituídos por pessoas como Kim Kataguiri, Rodrigo Constantino, Hélio Beltrão, Fábio Ostermann.

Todos esses são puramente panfletários e ideólogos, não possuem uma bibliografia aprofundada de filosofia política, seus discursos são chavões sobre “liberdade”, “indivíduo”, “livre mercado”, “Menos Marx mais Mises”, vazios de substância, não possuem propriedade e muito menos embasamento qualificado. Como eu mesmo apontei no meu artigo O motivo de eu ter abandonado o Libertarianismo, o movimento liberal ou libertário mal entende seus próprios fundamentos; como vai discutir com a esquerda?

Por mais pueril e decadente que esteja hoje, por incrível que pareça, a esquerda tem um estudo muito mais aprofundado sobre o Brasil e suas raízes do que esses liberais. Os esquerdistas sabem se comunicar com a massa, sabem usar a pobreza e as mazelas do Brasil como válvula de escape, possuem trabalhos sociológicos de excelência. Um bom exemplo é Sérgio Buarque de Holanda com seu livro "As raízes do Brasil". Agora o movimento liberal composto por essas pessoas que não possuem embasamento teórico aprofundado, que são extremamente panfletários e ideólogos, querem debater com a esquerda sem saber do que ela fala, ou o caro leitor acha que Kim Kataguiri leu Escola de Frankfurt, György Lukács, Michel Foucault, Simone de Beauvoir?

Se os novos expoentes do liberalismo no Brasil são decadentes, o buraco é mais fundo quando se trata do ativismo liberal. O mais impressionante é que todos aqueles que se intitulam “liberais” não são estudiosos do liberalismo e sua tradição, muitos fazem uma mistura que diga-se de passagem é porca, de liberalismo inglês e francês, conseguem misturar John Locke com Rousseau. O movimento liberal no Brasil é em sua maioria formado por uma esquerda liberal, que promove o discurso do livre mercado, mas rejeita os valores tradicionais, rejeita a moralidade, e abraça o discurso da pós-modernidade.

O Livres é o mais perfeito exemplo disso, de pessoas que se dizem liberais, mas que se assemelham muito ao progressismo da esquerda em defender pautas ou ideias que, em sua gênese, são totalmente antagônicas ao liberalismo, seja no âmbito institucional ou na liberdade individual. Ver pessoas que se dizem defender o indivíduo e se dizer feminista é o cúmulo da decadência do movimento liberal, são filhos de Rousseau e de Stuart Mill. Abraçaram o discurso revolucionário e progressista da ala da esquerda liberal e se esqueceram da tradição anglo-saxã liberal, formada por Hume, Smith, Burke, Hayek.

Esqueceram-se que a tradição fez o homem se tornar um ser evoluído. É a tradição que está entre o instinto e a razão, e que essa nova safra panfletária, idealista e progressista decidiu ignorar, abraçando um racionalismo dogmático e adotando um total desprezo aos valores tradicionais, a moralidade, defendendo somente um pseudo-voluntarismo, um individualismo anacrônico e sem total conhecimento sobre política. No final, esses mesmos liberais são descartados como aconteceu no caso do PSL que, em suma, representa bem o quão decadente é o movimento liberal no Brasil e o fracasso que ele é em termos intelectuais e políticos.

Enquanto o movimento liberal no Brasil for pautado por pessoas que acham que ser liberal é querer um órgão genital masculino em seus respectivos ânus, enquanto acharem que a política é sobre valores e ideias e não sobre poder e autoridade, enquanto acharem que a solução pra tudo é livre mercado, “imposto é roubo” e outros jargões tão fracos e imbecis quantos os que a esquerda utiliza, a tendência é que cada vez mais o liberalismo seja usado como meio político para depois ser chutado como um cachorro abandonado sem dono, pois enquanto o fideísmo e o desprezo total pela intelectualidade imperar, como diria Lord Keynes: “A longo prazo, estaremos todos mortos”.

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