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Bolsonaro ontem e hoje: os auspícios da nova seita política e o conservadorismo de mentirinha


Por Luís Cláudio

Não é segredo para ninguém que Jair Bolsonaro desponta como segundo colocado nas pesquisas de intenção de voto. A ninguém também surpreende que seja ele o pré-candidato mais alvejado de críticas pela grande mídia entre todos os demais pretendentes que namoram a candidatura ao Planalto.

Essa marcação é injusta? Sem dúvida! Lula e Ciro Gomes, ambos pré-candidatos, estão direta e indiretamente compromissados com o Foro de São Paulo, instituição de Estado-maior dos movimentos de esquerda latino-americanos que reúne toda a corja de organizações criminosas relacionadas ao narcotráfico e ao banditismo social. Note-se, fundado em 1990. Por mais de 20 anos, a imprensa jamais mencionou esse organismo, ainda que seja forte sua marca na política de Estados latinos. Venezuela que o diga...

No entanto, essa abnegação estarrecedora empreendida pelos órgãos midiáticos não justifica a omissão de erros e do histórico de Bolsonaro, ainda que, ao colocarmos na balança, as bobagens ditas e feitas pelo ex-militar apresentem ofensa bem inferior à estabilidade política e à democracia que sinistros presentes nos históricos de outras lideranças políticas, sobretudo na esquerda.

“Ora, então você está seguindo a cartilha dos veículos de mídia?” De modo algum. Afirmo, sempre que tenho oportunidade, que colaboro num dos portais conservadores mais compromissados com a busca da verdade que existe no Brasil. Sem exagero. Aliás, quantas matérias que divulgamos, diariamente, seriam publicadas com letras garrafais nas páginas da Folha de São Paulo, ou seriam anunciadas em horário nobre por William Bonner? Justiça seja feita: se há algum veículo com moral para expor podres de Bolsonaro é este O Congressista.

Bom, falando tanto em podres, erros.... Vamos a eles, não?

Em 2000, o já deputado federal Jair Bolsonaro, à época do PPB, fez várias revelações de sua vida pessoal e de convicções sobre diversos temas, desde política aos costumes, em entrevista conduzida pela repórter Cláudia Carneiro à revista "Isto É Gente" (edição 28, 14/02/2000).

Nessa entrevista, Bolsonaro fala asneiras já conhecidas, como a de ser favorável à tortura como método de investigação policial, defender o fuzilamento do então Presidente Fernando Henrique e outras coisas sobre as quais pouco vale a pena debruçar-se. Contudo, o que, intencionalmente, pouco foi explorado nessa entrevista foram as opiniões do ex-capitão a respeito do aborto, as causas do fim de seu primeiro casamento e a influência que um notório líder comunista teve em sua formação militar.

Repórter: Seus colegas de Congresso o consideram uma pessoa truculenta. Como o senhor é em casa? 

Bolsonaro: Nunca bati na ex-mulher. Mas já tive vontade de fuzilá-la várias vezes. Também nunca dei um tapa num filho. Gosto de chamar para conversar, contar piadas.

Repórter: O que levou ao fim seu casamento de 19 anos?

Bolsonaro: Meu primeiro relacionamento despencou depois que elegi a senhora Rogéria Bolsonaro vereadora, em 1992. Ela era uma dona-de-casa. Por minha causa, teve 7 mil votos na eleição. Acertamos um compromisso. Nas questões polêmicas, ela deveria ligar para o meu celular para decidir o voto dela. Mas começou a frequentar o plenário e passou a ser influenciada pelos outros vereadores.

Repórter: Não era uma atitude impositiva de sua parte?

Bolsonaro: Foi um compromisso. Eu a elegi. Ela tinha que seguir minhas ideias. Acho que sempre fui muito paciente e ela não soube respeitar o poder e liberdade que lhe dei. Mas estou muito feliz na minha segunda relação. Vivo muito bem com a Cristina.

Repórter: O que o senhor acha da legalização do topless?

Bolsonaro: Não sou contra, não. Desde que seja com a mulher dos outros. Depois que todas as mulheres estiverem usando, aí a minha poderá usar. O fio dental foi um escândalo e hoje é normal. Tudo é evolução.

Repórter: E sobre a legalização do aborto?

Bolsonaro: Tem de ser uma decisão do casal.

Repórter: O senhor já viveu tal situação?

Bolsonaro: Já. Passei para a companheira. E a decisão dela foi manter. Está ali, ó. (Bolsonaro aponta para a foto no mural de seu filho mais novo, Jair Renan, de 1 ano e meio, com Cristina.) [...]”

Se, em nossos dias, Jair é aclamado como ícone da moralidade e do conservadorismo, o mesmo não se poderia afirmar, com segurança, naquela época. Há um contrassenso na própria ideia de eleger um representante ou guia genial do movimento conservador, como se tratasse de corrente ideológica ou partidária.

O líder direitista das massas advoga pela descriminação do aborto e que o casal tenha o direito de decidir. O próprio parlamentar confessa que deixou à esposa o arbítrio de optar por matar ou não o próprio filho. Lindo, não? Quem sabe não era tão machista quanto dizem...

No tocante ao mandato de sua ex-mulher como vereadora, Bolsonaro admite que interferia em sua atividade parlamentar ao ponto de, praticamente, ditar os discursos e votos dela, algo que, por definição, deve ser exercido livremente. Ele retruca à indagação (justa) da repórter sobre se isso seria uma atitude impositiva com a alegação de que estaria sua esposa compromissada a fazer o que lhe mandasse por ter recebido o apoio dele em campanha.

O que diria hoje o Messias mitológico quanto aos políticos listados nas relações de propina da Odebrecht ou da JBS? Ora, essas companhias abasteceram suas campanhas, logo, poderiam cuspir no prato os parlamentares eleitos mediante caixa dois? Afinal, pacta sunt servanda: os acordos devem prevalecer. Quanto à esposa? Bom, enfrentar o companheiro de cama que admite ter pensado várias vezes em fuzilá-la não seria tão prudente...

Logo em seguida, Bolsonaro é indagado sobre a razão a qual o levou a ingressar na caserna, ao que ele afirmou prontamente:

"Repórter: Por que decidiu ser militar?

Bolsonaro: Por causa do Lamarca. Eu tinha 15 anos de idade, usava cabelo com gumex, calça boca-de-sino, sapato "cavalo de aço", quando o Lamarca passou por Eldorado Paulista, em 1970. O Exército chegou lá. Eu então conheci e me apaixonei pelo Exército brasileiro."

Tudo bem, quinze anos. Convenhamos que isso não é lá idade para formar convicções políticas. Ocorre que, em 1970, Carlos Lamarca já não era aclamado como oficial militar com honras, mas já alcunhado como terrorista. O líder de honra da Vanguarda Popular Revolucionária (VPR), conhecida facção marxista de guerrilha urbana, capitaneada também por ninguém menos que Carlos Marighella, desertou oficialmente do Exército brasileiro em janeiro de 1969, no mesmo ato em que executou um assalto à reserva de armamentos do 4º Regimento de Infantaria de Quitaúna (SP).

Em 11 de dezembro de 1969, o Ministério Público Militar de São Paulo ofereceu denúncia contra Lamarca e outros seis envolvidos no ataque ao referido quartel, já atribuindo esse ato à VPR. E, já em 1969, era sabida a conexão entre o capitão desertor e Marighella, o qual, para muitos, foi o autor intelectual não somente desse, mas de outros quatro atentados terroristas nessa mesma época a prédios públicos, incluindo o quartel principal do II Exército.

Pergunto-me: de quais atributos exatamente Bolsonaro conseguia absorver inspiração em Lamarca para ingressar na carreira militar? Certamente, essa inspiração influenciou seu movimento rebelde em 1986, sobre o qual afirma, ainda hoje, ter agido com insubordinação, porém, sem deslealdade, como se a hierarquia e a disciplina fossem princípios elásticos, os quais se podem invocar somente nos momentos em que lhe convém.

Cumpre ressaltar, portanto, que, ao passo que as autoridades e a opinião pública tomavam Lamarca como criminoso em 1969, Bolsonaro o via como herói em 1970.

"Ahh, mas ele só tinha 15 anos! Ele não pensa mais assim!" Não serei irresponsável ao ponto de negar aqui a questão etária e reconhecer, sim, que os tempos eram outros. Porém, o espírito militarista não desencarnou.

É sabido que, após a insurreição do capitão Jair em 1986, ele ofereceu entrevista à revista Veja, na seção "Ponto de Vista", queixando-se dos baixos soldos e criticando a inércia do governo federal em tomar medidas para contornar essa situação. Bolsonaro não nega: foi indisciplinado. E afirma categoricamente que a punição que lhe foi aplicada, branda por sinal, foi merecida.

Em 16 de maio de 2017, portanto, a menos de um ano, o deputado concedeu uma entrevista à Folha de São Paulo, tendo-a, inclusive, disponibilizado em seu canal no YouTube. Logo no início, o repórter explora o episódio supramencionado. Bolsonaro reage com firmeza e indignação, alegando que o jornal teria classificado seu ato de indisciplina de 1987 como "deslealdade" como se o próprio parlamentar houvesse empregado esse vernáculo.

No decorrer da conversa, há um trecho fundamental (a partir de 5:31) para compreender o que pensa o Jair de hoje a respeito de sua postura militarista:

"REPÓRTER: A Folha de São Paulo está correta ao registrar...
BOLSONARO: Indisciplina sim! Deslealdade não.

R: O senhor disse que foi desleal.
B: Não vou... Não houve deslealdade.

R: O senhor afirmou...
B: Isso é indisciplina!

R:O senhor está refazendo o seu conceito.
B: Não! É indisciplina. Você quer considerar deslealdade? Que considere deslealdade! Eu "tô" assumindo que eu fui à revista Veja, sem estar autorizado, sabendo que ia ser punido e corri o risco. Em defesa dos cadetes da Academia Militar de Agulhas Negras, que vocês da mídia, de forma suja como sempre, acusavam os cadetes de estarem sendo desligados por pederastia e homossexualismo. Eles não foram desligados, eles pediram demissão da academia. Exatamente por uma questão salarial sofrível, onde não compensava ficar nas Forças Armadas porque o salário era irrisório. Sim, isso aconteceu. Agora, desconhecer a política econômica e salarial, "tá" de brincadeira, né? Quem "tá" recebendo uma porcaria de um salário sabe o que isso aí! E os militares da Forças Armadas, não falo por eles, falo por mim, nós não somos escravos de ninguém. Temos o direito de na hora que bem entender quiser sair das "Forças", sair, e se quiser cometer uma transgressão disciplinar, que cometa, como eu cometi.

R: Então, o senhor cometeria de novo?
B: Eu não sou mais capitão. Não "tô" mais no Exército.

R: O senhor fala muito de lei e ordem. Que tal o senhor romper a ordem da hierarquia do Exército... O senhor estava provocando um movimento de rebelião dentro do Exército...
B: Por que que o Sarney deu aumento pra nós? Me responda!

R: Por que foi acuado pelo senhor?
B: Como acuado? Quem é um capitão do Exército pra acuar um sistema?

R: Por que ele concedeu?
B: Concedeu porque ele achava que não tinha sido avisado por ninguém e eu servi de alerta, que ele tinha que rever nossa política salarial.

R: O senhor acha correto um capitão do Exército começar a confrontar o Presidente da República a qualquer momento?
B: Se for necessário, sim! Se for necessário, sim!"

Um singelo malabarismo com as palavras "militares" para "metalúrgicos" e teremos o discurso lulista dos anos 1980. A postura sindicalista do deputado Bolsonaro certamente encontraria muitas resistências na realidade brasileira, porquanto o próprio pré-candidato não deixa dúvidas: se oficiais militares quiserem romper a ordem, desde que seja por justo motivo, é perfeitamente aceitável.

Como um chefe de Estado com essa mentalidade contornaria as crises de segurança pública, por exemplo, que despontaram no Espírito Santo, em fevereiro de 2017, e no Rio Grande do Norte no fim do ano pretérito? Exigiria respeito e disciplina, ainda que advogue a quebra do comando em situações justificáveis? Que exemplo ofereceria na Presidência da República aos policiais militares?

Neste caso, não há que se utilizar o velho jargão de sua horda de apoiadores fanáticos: "ele pensava assim, não pensa mais". Ora, estamos falando de declarações de 2017! Aqui, isso não cola.

Em 1999, como foi divulgado recentemente na imprensa, Bolsonaro era entusiasta de Hugo Chávez, que, já em 1994, houvera participado de uma conferência de lideranças latino-americanas de esquerda em... Cuba! Somente os néscios se surpreenderam: perderia o deputado militarista a oportunidade de prestar honras a um tenente-coronel do exército venezuelano?

O objetivo maior deste texto, em verdade, nem tanto é a preocupação com eventual eleição de Bolsonaro à Presidência, afinal, como alhures pontuei, dentre os males é o menor. Todavia, não é de se espantar que o pré-candidato reuniu em torno de si milhares de seguidores apaixonados, arrebatando uma multidão de guerreiros virtuais dispostos a defendê-lo incansavelmente, conquanto cometa erros e vocifere patetices.

A seita política bolsonarista abarca consigo aspectos vários da mentalidade revolucionária, a qual talvez somente superável pelo lulopetismo. O desprezo pela ordem legal e a veneração do "Mito" infalível tipificam o jacobinismo, isto é, um simulacro de atitude conservadora, imbuído de moralismo radical, seletivo apenas com o líder genial. Ou alguém duvida que, mesmo com essas informações, haverão aqueles que responderão a este artigo "não adianta falar nada, meu voto ainda é dele"? Basta ver a reação dos que justificam o apoio de Bolsonaro ao imoral aumento súbito dos vencimentos dos parlamentares em 2010.

A isso querem intitular de postura conservadora. Só se for de mentirinha.

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