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O significado de Margaret Thatcher


Por Roger Scruton
Publicação original: Sir Roger Scruton
Tradutor: Salvador Bento

Para muitas pessoas de vertente conservadora, parecia que no fim dos anos 1970 o Reino Unido estava pronto para desistir de tudo aquilo pelo que lutou: seu orgulho, suas empreitadas, seus ideais de liberdade e cidadania, até mesmo de suas fronteiras e defesa nacional. A nação parecia estar num lamaçal de culpa coletiva, reforçado por um crescimento da cultura da dependência do estado.

Para políticos da esquerda, o “patriotismo” se tornava então uma palavra suja, mais ou menos sinônimo de racismo. Para políticos na direita, nada parecia importar, somente a pressa para se tornar parte da nova Europa, os quais seus mercados nos protegeriam dos piores efeitos da estagnação pós-guerra. Os interesses nacionais foram substituídos por interesses garantidos legalmente: pelas uniões, as instituições e os “capitães da indústria”.

A situação foi especialmente desencorajadora para os conservadores. Edward Heath, líder conservador, acreditava que governar era se render: nós estávamos entregando a economia para os gestores, o sistema de educação para os socialistas e a soberania para a Europa. A velha guarda do Partido Conservador concordou com ele em sua maioria, e se juntou para tornar Enoch Powell um bode expiatório, o único entre eles que tinha publicamente divergido do consenso pós-guerra.

Nos sombrios anos setenta, quando a cultura de repulsa se espalhou pelas universidades e pelas elites formadoras de opinião, parecia que não havia volta para a grande nação que vitoriosamente defendeu nossa civilização em duas guerras mundiais. Então, no meio de nosso desencorajamento, Margaret Thatcher apareceu, como um milagre à frente do Partido Conservador. Eu bem me lembro do júbilo que se espalhava pela Universidade de Londres, quando eu estava lecionando. Ao menos havia alguém para odiar!

Após todos estes tristes anos de consenso socialista, intrometendo-se nos mais sombrios cantos da sociedade do Reino Unido onde os melhores inimigos eram os fascistas e racistas encardidos, um verdadeiro demônio veio à cena: uma líder do Partido Conservador, que nada menos tinha a insolência de declarar o seu compromisso com a economia de mercado, empresas privadas, a liberdade individual, soberania nacional e ao estado de direito – todas as coisas que Marx tinha classificado como “ideologia burguesa”. E a surpresa foi que ela não se importava em ser odiada pela esquerda, ela devolvia da mesma forma que recebia, e levou consigo muitos seguidores.

Ela encorajou o eleitorado a reconhecer que a vida individual é sua e que a responsabilidade de como viver não pode ser regrada por qualquer outra pessoa, muito menos o Estado. Ela começou a mostrar seu talento e favorecer o empreendedorismo, a despeito de décadas de conversas ocas sobre igualdade, ela ainda acreditava na sociedade britânica.

A situação que ela herdou foi tipificada como o Conselho Nacional de Desenvolvimento Econômico, criado sob um deprimente governo conservador em 1962, com o propósito de gerenciar o declínio econômico da nação. Composto por mandas-chuvas da indústria e o serviço civil burro como foi conhecido, era direcionado a perpetuar a ilusão de que a nação estava em “mãos seguras”, que havia um plano, que os gestores, políticos e a união de líderes estavam nisso juntos e trabalhando para um bem comum. Isto resumiu as instituições do antigo Reino Unido, que endereçava os problemas da nação apontando comitês de pessoas que tinham os causados.

Sua ideia fundamental é que a vida econômica consiste no gerenciamento das indústrias existentes, e não na criação de novas. Wilson, Heath e Callaghan utilizaram o exemplo de “Neddy” para confirmar suas crenças, de que se você conseguir se manter por tempo o suficiente, as coisas ficariam OK e qualquer culpa cairia em seu sucessor. Em contraste a isso, Margaret Thatcher acreditava que em negócios, assim como na política, o jogo do empurra-empurra termina aqui. A pessoa importante numa economia livre não é o gestor, mas o empreendedor – aquele que assume os riscos e seus custos. Empreendedores criam coisas; gestores as enterram: foi como ela nos ensinou, e no mesmo momento aparentava estar certa, pois os efeitos da cultura da gestão estavam ao redor de todos nós.


Digo que foi imediatamente aparente, mas não era muito aparente para a classe intelectual, que permanecia enraizada desde o consenso pós-guerra. A ideia do estado como a figura do pai benígno, que guia os ativos coletivos da sociedade para um lugar onde eles são necessários, e quem sempre está lá para nos resgatar da pobreza, da saúde precária ou do desemprego, e que permaneceu em primeiro plano da ciência de políticas acadêmicas no Reino Unido.

Somente esta manhã, enquanto preparava a aula de filosofia política, fiquei interessado ao descobrir que o texto prescrito descreve alguma coisa chamada Nova Direita, que o autor associou a Thatcher e Reagan, como um atentado violento à membros da sociedade mais vulneráveis. O autor do argumento é a favor da distribuição de riquezas, baseado na premissa de que essa é a principal tarefa de um governo e que o mesmo é o único competente para fazê-lo. O fato da riqueza poder ser distribuída somente se esta for primeiramente criada parece passar desapercebido.

Para ajudar na criação de riqueza, primeiro Margaret teve que quebrar o poder das uniões, que significava confrontar stalinistas como Arthur Scargill. E esse grande conflito seria somente um de muitos. Talvez a lição mais importante a ser aprendida do estilo político dela é que negociação e compromisso podem algumas vezes estar no caminho certo, mas que confrontos e desafios são tão importantes quanto, e algumas vezes o único recurso. Ela entendeu o dano que havia sido causado ao nosso país ao longo do século 20 pelas políticas de apaziguamento.

E quando surgia uma oportunidade que vinha de encontro à uma confrontação, ela imediatamente e instintivamente agarrava isso. Sua decisão de resistir a junta dos generais fascistas que tinha tomado o poder na Argentina lembrou do primeiro confronto entre a Rainha Elizabeth primeira e o Rei Philip da Espanha. A guerra da Ilhas Falkland restaurou o orgulho nacional, e fortaleceu determinação de Thatcher em se opor a ameaça Soviética. Também lhe deu autoridade de confrontar o IRA (Exército Republicano Irlandês) e mostrar ao movimento republicano que táticas terroristas não teriam êxito.

As ambições da senhora Thatcher foram além de sua capacidade solitária de atingi-las. Ela esperava repaginar o sistema de educação, se opondo aos socialistas a serviço do partido comunista que controlavam e mantinham seu currículo “progressista” com desdém. Mas ela não tinha políticas que poderiam possibilitar a derrota destes, e a educação permanece um laboratório socialista até os dias atuais, a despeito das honradas tentativas de Michael Gave para mudá-lo.

Ela gostaria de ter enfrentado o próprio Welfare State (estado de bem-estar social), e convencer as pessoas que suas vidas poderiam ser melhores, mais simples e mais livres se este sistema pertencesse a eles e não aos burocratas. Mas não existe possibilidade de ser contra este tipo de interesse sem ser odiado, e você não usufrui o suporte do eleitorado de classe média sem causar a raiva dos intelectuais, que desprezam as pessoas do eleitorado de classe média comum.

Notícias apareciam regularmente no “The Times”, assinado pelos bons mocinhos do dia, denunciando que uma política assim ou assado do governo dela era um prelúdio à um desastre irreversível. Proposto por um honrado doutor da Universidade de Oxford, ela foi ressoadamente votada de forma negativa por uma convocação de um grupo que não estava impressionado por seu desempenho como primeira ministra mulher do Reino Unido. A votação trouxe à tona a que foi feita na Oxford Union em 1933, onde foi dito que “esta Casa em nenhuma circunstância lutará pelo seu rei e nação”, o qual foi lembrado por uma grande maioria. Em ambas ocasiões Oxford mostrou o quão pouco nossas instituições intelectuais têm em comum com os cidadãos britânicos.

Claro que Thatcher não era uma intelectual, e foi mais motivada por instinto do que por uma filosofia propriamente construída. Como o editorial do “Times” conta, no dia após sua morte, ela era uma “mulher de verdades simples”. Pressionada para argumentar ela inclinou-se prontamente ao mercado econômico, e ignorou as raízes mais profundas do conservadorismo na teoria e prática da sociedade civil. Sua observação passageira que “não há tal coisa como sociedade” foi aproveitada pelos meus colegas da universidade como prova do seu individualismo grosseiro. A ignorância dela sobre filosofia social, e sua lealdade aos valores da nova geração de homens de negócios, poderiam ser sumarizadas em três palavras: dinheiro, dinheiro, dinheiro.

Na verdade, o que Thatcher quis dizer nessa ocasião era bastante verdadeiro, embora fosse o oposto do que ela disse. Ela disse que existe tal coisa como sociedade, mas que a sociedade não é idêntica com o Estado. Sociedade é composta de pessoas, se relacionando livremente, e formando comunidades de interesse que socialistas não tem o direito de controlar, e nenhuma autoridade de sujeitar suas obsessões. Por se expressar desta forma, entretanto, não foi o estilo dela e nem o que seus seguidores esperavam. O que o povo britânico queria, e o que eles conseguiram, foi aquele tipo de política instintiva que eles podiam ver quando os discursos se endereçavam à nação, mesmo que Thatcher tivesse ou não a base correta de argumentos abstratos.

Ela falava com simplicidade e de forma inteligente sobre liberdade e empreendimento. Mas, como Charles Moore apontou em seu perceptivo tributo no “Daily Telegraph”, ela era convicta de que o estado de direito era mais importante que estas coisas, pois sem isso eles não poderiam durar. Ela estudou de forma profunda a lei de nosso país e entrelaçou com nossa história nacional, buscando definir uma única e preciosa perspectiva do mundo.

Claro, ela sentiu os ventos do desprezo de intelectuais que soprou ao seu redor, e se abrigou atrás de uma pretoriana guarda de conselheiros econômicos especialistas em “soluções de mercado”, “economia ao lado da oferta”, “soberania do consumidor”, e outros. Mas os slogans bonitinhos não capturaram suas principais crenças. Todos os discursos mais importantes que fez, como suas políticas duradouras, provinham de uma consciência de lealdade nacional.

Ela acreditava em nossa nação e suas instituições, e viu nelas uma personificação das afeições sociais nutridas e acolhidas através dos séculos. Família, associação civil, a religião cristã e a lei comum eram todos integrados em um ideal de liberdade pela lei. Foi o seu julgamento que fez com que nosso país sobrevivesse no passado e isso precisa permanecer para o futuro.

Senhora Thatcher mudou tanto as coisas que se tornou impossível para o Partido dos Trabalhadores se erguer outra vez em suas teias de aranha Vitorianas: Cláusula IV (o comprometimento à uma economia socialista) foi retirado de sua constituição, e um novo Partido da classe média emergiu, mudando praticamente nada da antiga agenda exceto o desejo de punir a classe mais rica, e uma estranha crença que o jeito de fazer isto é banir a caça às raposas. Naquele tempo, porém, não foi o impacto que Thatcher causou na política doméstica que foi mais importante, mas sim sua presença no cenário internacional. Seu comprometimento com a aliança do atlântico, e sua prontidão em se aliar ao presidente Ronald Reagan em oposição à ameaça soviética mudaram completamente a atmosfera do leste europeu.

Rapidamente as pessoas que haviam sido submetidas a regimes totalitários começaram a entender que foram os líderes ocidentais que estavam preparados para pressionar por sua liberdade. John O’Sullivan argumentou que a presença simultânea nos escritórios de Reagan, de Thatcher e Papa João Paulo II foram a causa do colapso soviético. E minha própria experiência confirma isto. Ao trabalhar com redes de comunicação alternativas nos estados comunistas, aprendi que os Europeus Orientais da minha geração não estavam simplesmente desiludidos com o comunismo. Eles haviam descoberto que o capitalismo – o bicho papão de todos os contos de fadas comunista – era real, positivo e fidedigno. Se a Senhorita Thatcher e Presidente Reagan acreditaram nele, eles acreditariam também. E sua vontade de aprender sobre o capitalismo foi uma grande inspiração para mim naqueles dias quando o assunto era um tremendo tabu na minha universidade.

As iniciativas tomadas por Thatcher na política externa não foram queridas por todos. Tanto quanto pude notar, o Ministério das Relações Externas não quis se arriscar na divisão pós-guerra da Europa; não até o seu ministro da Europa Oriental, Malcim Rifkind, visitar o túmulo do martirizado Padre Popiełuszko, e que qualquer reconhecimento oficial foi estendido à oposição polonesa, e o gesto de Rifkind não foi, acredito, sancionado pelo Ministério das Relações Externas. Mas posteriormente tudo na Polônia mudou. Foi definido que o Partido Comunista não era um governo legítimo, e que agora deveriam se preparar para um sucessor assumir.

Da mesma forma, quando o assunto era lidar com o terrorismo internacional, as instituições britânicas tomaram medidas radicais contra as medidas de Thatcher, as quais não eram negociar, mas punir. Quando estava perseguindo provas do envolvimento sírio na tentativa de explodir um voo do aeroporto de Heathrow, ela quebrou as relações diplomáticas com a Síria. Nosso ex-embaixador daquele país, falando pela Instituição do Ministério das Relações Externas, publicamente condenou a ação como sendo uma forma errada de lhe dar com o agradável presidente Hafez el-Assad.

Eu estava no Líbano nessa época, justo quando as tropas sírias estavam fomentando guerra civil na pretensão de contê-la, e nossos jornalistas esquerdistas fazendo propaganda em nome de Assad. Quase todos que eu conheci, graças a Senhora Thatcher, tinham experimentado algum momento de esperança – um momento em que foi possível acreditar que a frágil democracia que tinham não se deixaria sacrificar pelas loucas ambições da família Assad. Não foi um feito de Thatcher que fez com que suas esperanças fossem precipitadas.

Quando me recordo disso, deveria dizer que o maior legado de Thatcher foi ter colocado a nação e os interesses nacionais no centro da política. Ela nunca conseguiu grandes feitos nas tarefas mais importantes, que era negociar o retorno de nossa soberania da Europa. Suspeito que ela não entendia muito bem que o processo europeu, como fora constituído por tratados, autoriza o confisco de forma não resistida de nossos ativos nacionais. Na ansiedade que este pensamento me causa, eu posso somente lamentar, pela milésima vez, quando ela foi rejeitada pelo Partido cuja fortuna reviveu. Por que isso aconteceu?

É claro que ela foi agressiva, ela fez inimigos em lugares onde podia ter feito amigos. Por ameaçar a cultura da dependência do Estado ela atingiu o establishment que havia sido construído: a BBC, as universidades, as escolas, as ONG's socialistas, os serviços do bem-estar social, e o vasto leque de funcionários públicos. Mas por que ela foi rejeitada pelo Partido Conservador? Me lembro de um general ateniano, chamado Temístocles. Foi ele que criou a marinha ateniana, manteve os persas em Artemísio e finalmente derrotou-os em Salamina. Foi ele que fortificou Atenas e fez dela a cidade mais próspera do Egeu. Mas em 471 a.c ele foi banido e exilado. O trabalho dele continuou com Pericles, (sem cuja energia e espírito público as tradições democráticas de Atenas certamente teriam sido destruídas). Mas Pericles também foi retirado de serviço, julgado e condenado sob falsas acusações e ameaçado com pena de exílio.

Parece que democracias tem uma tendência natural a se virar contra seus salvadores. Isto aconteceu à Winston Churchill. Isto aconteceu a Charles de Gaulle, e isto aconteceu com Margaret Thatcher. Não foram os erros destes grandes líderes que causaram sua queda, mas sim suas virtudes. Thatcher, como Temístocles, fora deposta pelo ressentimento de seus inferiores. Porque numa democracia, tais pessoas têm poder. Agora que ela já nos deixou, entretanto, e não mais impõe qualquer ameaça a todos os ambiciosos que a presença dela tenha obstruído, ela certamente será admirada, mesmo por aqueles que conspiraram para depô-la, como a grande mulher na política do Reino Unido desde Elizabeth Primeira.

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