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A hipocrisia dos conservadores anti-liberais


Por Guilherme Cintra

Existe um grupo de conservadores para os quais parece que tudo ligado ao liberalismo é intrinsecamente mau. Parece que o liberalismo é quase tão ruim quanto o socialismo. A ideia de um "liberalismo-conservador", para eles, é um completo oxímoro, um engodo. Tudo aquilo ligado ao liberalismo deve ser rejeitado, pois dele surge a degeneração, o agigantamento do Estado, etc.

O pior não está aí, porém: muitos desses mesmos conservadores, um minuto depois, estão citando Edmund Burke, Roger Scruton, Ortega y Gasset, Alexis de Tocqueville, José Bonifácio, etc.

A contradição é evidente: todos esses autores ou eram, ou beberam bastante, de fontes liberais. Edmund Burke era um parlamentar do Partido "Whig" da Ingleterra (partido liberal à época), amigo e admirador de Adam Smith, e que defendeu a Revolução Americana. Apesar de ser conhecido como "conservador", Edmund Burke era, historicamente, um liberal, com praticamente diferença nenhuma para as ideias de seu amigo Adam Smith ou de David Hume. [1]

Edmund Burke não era defensor do absolutismo, da volta da Idade Média, do mercantilismo ou de qualquer coisa do tipo. Ele era a favor de uma sociedade de mercado com fortes limitações ao poder do rei. E é justamente isso que o faz um liberal, na tradição clássica.

Muitos desses conservadores não fazem ideia do que seja o liberalismo. A principal razão disso pode ser por que não buscam o que de fato diziam os maiores representantes do liberalismo, preferindo ficar com a caricatura do liberalismo através de certos "representantes" na internet.

O liberalismo clássico não implica um liberalismo moral, uma rejeição à tradição e aos bons costumes: que isso fique bem claro. Ele não implica "libertinagem" ou "degeneração moral". Ele não implica uma contra-cultura como grande parte da esquerda prega, através de, por exemplo, a Escola de Frankfurt. O liberalismo definitivamente não precisa de concordar com as pautas sociais da esquerda - na verdade, os maiores pensadores liberais eram conservadores nos costumes, e muitos deles até eram cristãos fervorosos. [2]

O liberalismo é nada mais nada menos do que um combo das mais notáveis ideias de seus maiores representantes, John Locke e Adam Smith. Do primeiro, tem-se que é necessário, para proteger a liberdade individual, que o governo não haja por meio de decretos arbitrários, obtenha um mínimo de consentimento da população para cobrar impostos, e que proteja a instituição da propriedade privada. [3] Para Locke, governo legítimo é governo limitado, que não possa abusar de seu poder para fazer mal à população. Esse é o chamado liberalismo político.

De Adam Smith, tem-se que o sistema econômico correto é o sistema de livre mercado. Os sistemas mercantilista, intervencionista e, por consequência, o socialista, não são meios eficientes de enriquecer a população. Esses sistemas irão, no máximo, gerar riqueza aos governantes, não à população. A melhor forma de organizar a economia é através da livre-empresa (o que não significa também Estado completamente mínimo ou ausência de Estado, mas aí já é outra história [4]). A partir daqui, temos o liberalismo econômico.

Longe de serem coisas diferentes, o liberalismo político de Locke e o liberalismo econômico de Smith são complementares ou até, pode-se dizer, inseparáveis. Um governo que age apenas por regras gerais de justa conduta (Locke) não pode ser um governo intervencionista ou socialista (pois são sistemas que dependem de intervenções específicas e arbitrárias), como colocou muito bem Friedrich Hayek, defensor e sistematizador da tradição de pensamento de Locke, Smith e Burke [5].

E esse é o liberalismo clássico, nada mais nada menos. E Edmund Burke defendia exatamente ele, pregando mecanismos políticos para a limitação do poder real e a liberdade de mercado.

Por tabela, Russel Kirk, que possui uma influência muito forte de Burke (escrevendo inclusive "Edmund Burke - Redescobrindo um gênio"), possui raízes fortemente liberais (para não dizer que ele é um).

Roger Scruton, também seguidor de Burke, é ainda mais ligado ao liberalismo, pois ele percebe o quanto o pensamento de liberais como Adam Smith ou Friedrich Hayek se assemelham ao conservadorismo que ele prega. Ou, inclusive, ele chega a chamá-los de conservadores. Em Scruton, na verdade, quando se refere Smith e Hayek, ele parece usar indistintamente o termo liberal clássico ou conservador.

Mas minha tese aqui é que é Kirk e Scruton que estão muito próximos do liberalismo, e não o contrário. A tradição do liberalismo é bem clara e bem simples, com nada mais nada menos que o liberalismo político ao estilo Locke e o liberalismo econômico ao estilo Smith.

O termo "conservador" que é, na verdade, algo que Smith e Burke nunca adotaram e defenderam. Existia, em sua época, apenas quem queria preservar as liberdades individuais, limitar o poder absoluto e defender a economia de mercado, contra quem queria as ideias mercantilistas e o poder absoluto do rei.

Alexis de Tocqueville, da mesma forma, é um sujeito que muitos desses conservadores admiram, mas ele era um liberal clássico. Defensor de um governo limitado, das liberdades individuais e da economia de mercado. Ele era um crítico e, ao mesmo tempo, defensor da democracia. Como qualquer verdadeiro liberal, ele era crítico de seu aspecto ilimitado, em que a decisão da maioria pode justificar qualquer ação arbitrária. E defensor dela como uma forma de limitação do poder, de balanceamento do poder. (Burke, da mesma forma). [6]

Ortega y Gasset, outro que é admirado por muitos desses conservadores, já disse que o liberalismo "é a forma suprema de generosidade (...), o clamor mais nobre que já ressoou neste planeta." [7] E distinguiu, na tradição de Locke, Burke e Hayek, liberalismo e democracia, sintetizando muito bem a filosofia liberal: "A democracia refere-se à questão: 'Quem deve exercer o poder público?'. (...) O liberalismo, por sua vez, diz respeito à outra questão: 'Independentemente de quem exerça o poder público, quais devem ser os limites deste?'. E sua resposta é: ‘O poder público, seja ele exercido por um autocrata, ou pelo povo, não pode ser absoluto, porque o indivíduo tem direitos que estão acima e além de qualquer ingerência do Estado’." [8]

O Brasil tem uma longa tradição liberal conservadora. Data pelo menos desde Visconde de Cairu, que, à época, com outros brasileiros, lia bastante Burke e Adam Smith na Universidade de Coimbra, em Portugal. José Bonifácio, o Patriarca da Independência, é um sujeito com ideias políticas bastante liberais, contrário ao absolutismo e à favor da limitação do poder real. [9]

No século XX tivemos, como representantes do liberalismo no Brasil, ainda outros personagens que de vez em outra são elogiados pelos conservadores. Carlos Lacerda, grande opositor de Vargas, e Roberto Campos, que, depois de mais velho, começou a ler Hayek e deixou da ideologia mais keynesiana e intervencionista que tinha. Ele era tão influenciado por esse liberal clássico que chegou a dizer que "perdeu muito tempo com os economistas", já que poderia ter-lhe dedicado "apenas ao Hayek". [10]

Eu poderia ir mais e mais aqui, citando ainda figuras brasileiras como Meira Penna, os próprios governos de Reagan e Tatcher - bastante influenciados pelas ideias de Hayek -, autores modernos como Thomas Sowell e Jordan Peterson, de raízes e ideias liberais e que costumam ser admirados pelos conservadores. [11] Até mesmo um fervoroso católico como Edward Feser, escritor de obras como "Aquino" e "A Refutation of the New Atheism", mostra muito mais apreço pelas ideias liberais do que muitos conservadores de internet. [12]

Muitos desses conservadores críticos do liberalismo defendem a diminuição da participação do Estado na economia e até uma economia de mercado. Em oposição aos que dizem que, para defender isso, precisa-se ser liberal, eles dizem que a diminuição do Estado e o liberdade de mercado são características intrínsecas ao conservadorismo. Porém, pergunta-se: quais autores conservadores que defendem esse Estado limitado e a liberdade de mercado, visto que esses dois conceitos surgem na modernidade (tanto a ideia de limitação do poder - após o absolutismo - quanto a da economia de mercado - esta que, obviamente, não existia no feudalismo, por exemplo)? Que eu consigo me lembrar, os únicos conservadores que defendem abertamente uma economia de livre mercado e a redução do Estado são conservadores de "raiz burkeana" (como o próprio Burke, Kirk e Scruton). Se assim for, isso significa que esse aspecto é justamente algo que os conservadores beberam dos liberais, o que torna as coisas ainda piores para eles. Nem a DSI católica sobra para eles, pois ela defende muito mais intervencionismo do que eles costumam aceitar. E, pra mostrar que nem todo conservador defende a liberdade econômica, podemos citar por exemplo Benjamin Disraeli, famoso Tory do Partido Conservador britânico.

Então, para resumir:

Conservadores que dizem que o liberalismo é um mal na Terra, que ele é quase tão ruim quanto o socialismo, que toda influência liberal deve ser rejeitada, então, por que vocês não sejam pelo menos coerentes? Se o liberalismo é de todo ruim, rejeitem tudo aquilo que tem forte influência liberal.

Não leiam; oponham-se; desprezem esses pensadores e essas personalidades:

Edmund Burke, Roger Scruton, Russel Kirk, Alexis de Tocqueville, Ortega y Gasset, José Bonifácio, Visconde de Cairu, Roberto Campos, Meira Penna, Friedrich Hayek, Ludwig von Mises, Carlos Lacerda, os Pais Fundadores dos EUA, Thomas Sowell, Jordan Peterson, Joaquim Nabuco, Ronald Reagan, Margaret Tatcher, etc.

De fato já existem alguns conservadores que desprezam todas essas personalidades. Dado sua rejeição ao liberalismo e sua busca pela volta da Idade Média, eles são coerentes. Mas me refiro justamente a vocês que, às 23:59 estão falando que o liberalismo é a encarnação do mal na Terra e, às 00:00, estão citando Edmund Burke.

Notas:

[1] "Estadista atuante no partido liberal Whig, Burke era defensor de reformas que visavam a liberdade porém sem desmerecer a visão da autoridade constituída. Para isso ele desenvolveu uma linha de pensamento onde visava mudanças pragmáticas, tudo sem destruir a ordem moral já existente.

Burke atuou fortemente contra a corrente política francesa na Inglaterra, revolucionária, conhecida como “jacobinos”. Liderou o partido Whig contra tais manifestações e criou uma corrente liberal, de cunho moderada e tradicionalista, conhecida hoje como “liberalismo-conservador” (nos EUA chamado apenas de conservadorismo)." Rodrigo Viana, A Mentalidade Conservadora de Edmund Burke

Ver também "The Liberalism-Conservatism of Burke and Hayek": http://www.nhinet.org/raeder.htm

[2] Ver John Locke, por exemplo, em sua defesa do cristianismo e até na justificação de sua ética, que tem por base a existência de Deus. Já Adam Smith tem por sustentação de toda sua filosofia sua filosofia moral, que tem por base muitos preceitos caros ao cristianismo e alguns de fundação estoica, como a empatia pelo outro, a honestidade, etc:

"Com base na tolerável observância desses deveres [justiça, sinceridade, castidade, fidelidade] depende a própria existência da sociedade humana, a qual se dissolveria no vazio se a humanidade não fosse geralmente marcada com reverência a essas importantes regras de conduta.” Adam Smith, Theory of the Moral Sentiments (1759), Part III, Chapters IV and V

E parte da resenha de A Teoria dos Sentimentos Morais, de Smith, por Burke:

"O autor busca a fundação do justo, do adequado, do apropriado, do decente, em nossos sentimentos mais comuns e mais admitidos; e, fazendo da aprovação e da desaprovação os testes de virtude e vício, e mostrando que os primeiros são fundados na simpatia, ele ergue, a partir dessa simples verdade, uma das mais belas construções em teoria moral que já têm aparecido." —Edmund Burke, review of Adam Smith, Theory of Moral Sentiments, Annual Register 2 (1759): 484-489.

[3] A necessidade da limitação do governo é um aspecto essencial no pensamento de Locke, mas pouco enfatizado - geralmente falam mais da propriedade privada. Segundo Locke, "seja qual for a forma de comunidade civil a que se submetam, o poder que comanda deve governar por leis declaradas e aceitas, e não por ordens extemporâneas e resoluções imprecisas. A humanidade estará em uma condição muito pior do que no estado de natureza se armar um ou vários homens com o poder conjunto de uma multidão para forçá-los a obedecer os decretos exorbitantes e ilimitados de suas idéias repentinas, ou a sua vontade desenfreada e manifestada no último momento, sem que algum critério tenha sido estabelecido para guiá-los em suas ações e justificá-las." John Locke, Segundo Tratado sobre o Governo Civil, p. 73

[4] Smith defendia por exemplo a atuação do Estado em infraestrutura, educação, ajuda aos pobres, etc. Não defendia o Estado completamente mínimo. Basta ver o volume 5 de A Riqueza das Nações.

[5] Ver sua obra The Constitution of Liberty. Ou então ler esse artigo, The Decline of the Rule of Law: https://mises.org/library/decline-rule-law

O ponto central do liberalismo de Hayek é a defesa do Rule of Law, que implica também liberdade econômica.

[6] Burke, tal como Tocqueville, era crítico da democracia mas achava importante certa participação da população para equilibrar o governo. Era crítico, da mesma forma, do absolutismo, defendendo um governo mixo: "Esses senhores, após terem percorrido todo o mundo teórico e prático, não teriam ouvido dizer que nada existe entre o despotismo de um monarca e o despotismo da multidão? Nunca ouviram falar de uma monarquia governada por leis, controlada por uma grande riqueza e pelos altos dignitários herdeiros da nação, e elas próprias submetidas ao controle regular da razão e dos sentimentos do povo, que age por meio de um órgão apropriado e permanente?" Edmund Burke, Reflexões sobre a Revolução na França, p. 135-136

[7] Jose Ortega y Gasset, The Revolt ofthe Masses (London, 1932 ), p. 83.

[8] José Ortega y Gasset, Invertebrate Spain (Nova Iorque, 1937), p. 125

[9] "Durante o período de estudos em Coimbra, onde cursou Direito e Filosofia Natural, o intelectual paulista foi influenciado por ideias tipicamente iluministas que caracterizavam o liberalismo político e econômico, vindas sobretudo da França e da Grã-Bretanha, desenvolvendo uma concepção da economia essencialmente liberal: a de que o Estado deve garantir determinados direitos naturais e criar as condições para o progresso econômico, em oposição à ideia de que ele, o Estado, deveria ser o principal dirigente da economia." Ver: http://www.academia.edu/17003005/Entre_o_despotismo_absolutista_e_a_anarquia_republicana_A_monarquia_constitucional_no_pensamento_pol%C3%ADtico_de_Jos%C3%A9_Bonif%C3%A1cio

[10] Delfim Netto, "Ok, Roberto Campos, você venceu!" - http://www1.folha.uol.com.br/fsp/brasil/fc1010200127.htm

[11] Thomas Sowell escreve seu Intelectuais e Sociedade distinguindo duas visões de mundo, uma marcada pela "visão restrita" do ser humano, que inspirou revolucionários socialistas, e uma outra que via o ser humano como um ser imperfeito e passível de erros, bem desenvolvida por Burke e Hayek.

Jordan Peterson, que se popularizou há pouco tempo por combater os SJW nos EUA, se diz um liberal clássic; ver: https://twitter.com/jordanbpeterson/status/902685815821578240?lang=pt

[12] Ver seus artigos The Trouble with Libertarianism e Hayek and Fusionism.

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