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[ENTREVISTA] Líder judeu no Brasil acredita que Bolsonaro colocará ética acima do mercado

 

Por Rudi Guimarães e Wilson Oliveira

Quando se fala nas diferenças entre o "mundo ocidental" e o "mundo árabe", um fiel da balança que surge é o Estado de Israel. Para quem não se aprofundou tanto sobre o assunto que cerca a comunidade judaica, não é tão simples entender todo o contexto que envolve a região, incluindo vários países que frequentemente entram em confronto. Para esclarecer mais as nuances dessas relações, O Congressista entrevistou o líder da comunidade judaica no Brasil, Ronaldo Gomlevsky, que é jornalista, advogado e empresário. Ele escreve para os sites judeus Menorah Brasil e "PLETZ.com".

Presidente da recém-formada Associação Sionista Brasil Israel - ASBI- formulada por judeus e não judeus para defender israel, a democracia e a livre iniciativa no Brasil e as opiniões e ações da direita brasileira em relação à maneira que o Brasil deve ser governado, Gomlevsky, que já foi candidato à presidência do Flamengo, falou da política brasileira, internacional e, claro, israelense. 

Na entrevista abaixo, o líder judeu revelou que se fosse americano votaria em Donald Trump, mas pediu que o presidente dos Estados Unidos combata com ênfase os supremacistas e os neo-nazistas nos Estados Unidos; afirmou não gostar do primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, por não tentar um diálogo com os palestinos, e disse acreditar que se Jair Bolsonaro for eleito presidente do Brasil, fará uma diplomacia colocando a ética, os valores ocidentais e a paz acima do mercado, que, segundo o nosso entrevistado, é o lado compartilhado pelo Estado de Israel.

O Congressista: como o senhor recebeu a mensagem de Donald Trump nas Nações Unidas em apoio a Israel? Sabemos que, finalmente, um presidente pró-Israel governa os Estados Unidos, e ele se manifestou frontalmente contra nações totalitárias e autoritárias, inclusive contra o Irã. Com isso, o senhor acredita em mudanças a favor de Israel nas relações diplomáticas com outros países?

Ronaldo Gomlevsky: Sou adepto da livre iniciativa, da economia de mercado e dos regimes democráticos. Irã, Coreia do Norte, Síria, Cuba e outros são países cujos regimes são totalitários. A dinastia que dita as regras, hoje, na Coreia do Norte, está chantageando o Japão e ameaçando os Estados Unidos. A fala de Trump, nas Nações Unidas, não poderia ter outro tom e nem poderia ser diferente. Isto posto, só me resta dizer que se fosse eu um cidadão americano estaria me sentindo muito bem representado pelo atual presidente, em quem inclusive, eu teria votado. 

Para que Trump seja de fato e de direito o presidente americano dos meus sonhos, precisa terminar com esta história de declarar que entre supremacistas e neo-nazistas existe gente boa. Chegou a hora dele declarar com todas as letras que não pode haver racistas, supremacistas e neo-nazistas dentro da sociedade dos Estados Unidos. A liberdade de um termina quando começa a do outro. O preconceito e a discriminação precisam ser combatidos, sem qualquer tipo de fragilidade. Com muita firmeza.

OC: Netanyahu e seu governo vêm fazendo um amplo programa de abertura econômica desde que se tornou governante, além de ser talvez um dos mais fortes líderes israelenses no combate a todas as forças contra Israel. Como o senhor vê a reação da comunidade judaica em relação as acusações contra ele? Há algum risco contra o governo dele?

RG: Há quem não goste de Nethanyahu. Eu gostava do irmão dele, que caiu em Entebbe. Este é meu ídolo. Sobre o que hoje ocupa a cadeira de primeiro-ministro do Estado Judeu, não gosto. Estou à direita dele em certos aspectos da política de defesa de Israel e à esquerda em aspectos do diálogo com os palestinos. Não gosto quando ele começa um serviço e não termina. 

Entrar e sair de Gaza depois de tantos bombardeios à região de Sderot, sem concluir o objetivo não se coaduna com minhas ideias. Não gostei quando ele trocou mil palestinos presos sentenciados por terrorismo com punições de cadeia variadas, a cumprir, cheios de sangue nas mãos, por um soldado, Shalit, que dormia dentro de um tanque quando foi sequestrado. 

Este fato, ao invés de demonstrar que Israel é humano, demonstra a fraqueza de certos soldados incompetentes e a pusilanimidade de um governo que, depois de mais de 60 anos, resolve negociar com terroristas. Por outro lado, gostaria que ele procurasse com mais ênfase o diálogo com interlocutores possíveis, entre os palestinos, uma vez que não aceito o fato de que o Estado Judeu democrático esteja controlando a vida de cerca de 4.5 milhões de muçulmanos, na Samaria, na Judeia e em Gaza onde não está fisicamente, mas continua com o cerco. 

O governo dele está em risco, na medida em que houver uma condenação por corrupção, da qual é acusado e cujo processo se encontra em mãos da Suprema Corte israelense.

OC: Como vê o senhor vê a real possibilidade de um pró-Israel como Jair Bolsonaro na presidência brasileira? Acredita numa possível reviravolta na área diplomática aqui no Brasil?

RG: Bolsonaro é um entusiasta de Israel. Sem dúvidas, o caminho dele não será estar ao lado dos regimes muçulmanos. Por outro lado, existe uma questão muito relevante nesse tema que é o assunto relativo ao mercado. São 18 milhões contra dois bilhões. É preciso que o Brasil queira seguir com uma diplomacia baseada no caráter, na ética e na dignidade, ao invés de querer produzir diplomacia de mercado. Acredito que Bolsonaro, pela vida política que tem produzido, caminhará pelas sendas da ética e do equilíbrio na questão da política do Itamaraty. Penso que irá construir seu caminho, prezando os valores ocidentais e apoiando quem apenas quer viver em paz. Este é o lado do Estado de Israel. Não o lado do Hamas, do Hezbollah ou do Estado Islâmico.

OC: Sabemos que a Alyiah de hebreus brasileiros aumentou nos últimos tempos. Acredita que pode haver um esvaziamento da comunidade judia aqui no Brasil?

RG: Há quem diga que a política de Israel em relação à aliá, esvazia sim, as comunidades judaicas que enfrentam problemas. Por outro lado, as pessoas, desde que o mundo existe, buscam melhoria de qualidade de vida para suas famílias e em muitos momentos da História, não veem outra solução se não sair do seu país e buscar conforto no exterior. Isto está acontecendo no Brasil, não só com relação aos judeus, mas também com outros seguimentos da sociedade brasileira. Minha avaliação é que em 2019 as coisas no Brasil, estarão andando muito bem. Assim, os que foram, voltarão em piores condições e os que não foram, terão suas vidas e as de suas famílias, acomodadas e em condições muito melhores do que se encontram hoje. Sou brasileiro, daqui não saio e daqui ninguém me tira!!!

OC: Antes, aqui no Brasil, havia uma hegemonia esquerdista no debate público, mas hoje finalmente a balança dos lados políticos estão se equilibrando, ao menos no debate público, com o fortalecimento da direita. Como o senhor vê esse fenômeno?

RG: Entendo que a ditadura militar que empolgou o poder no Brasil por 20 anos, inibiu as direitas (e não existe só uma) que de uma certa maneira, se envergonharam com algo que não deveriam e passaram a se omitir, deixando o espaço político livre e um vácuo a ser preenchido. Espaço em política existe para ser ocupado e as esquerdas(também não há só uma) não perderam tempo.

Com todas estas denúncias de corrupção, envolvendo todos os partidos, ficou claro que o que existe na política brasileira hoje, é uma podridão que precisa ser muito bem lavada e à jato.

As esquerdas no poder há quase 14 anos, se mostraram incompetentes para gerir o país. As direitas agora precisam se mostrar competentes eleitoralmente e depois, administrativamente. Se perderem esta oportunidade eleitoral que se avizinha em 2018, precisam arrumar as malas e se mudar para o inferno!

OC: O senhor acredita que os Bnei anussim em geral anseiam por um retorno e uma conversão a antiga religião de seus antepassados? O senhor ainda vê muita resistência da comunidade em dar uma oportunidade destes se converterem?

RG: As comunidades judaicas brasileiras são formadas por gente que chegou no Brasil com uma mão na frente e outra atrás. Hoje são seus descendentes que estão na linha de frente do "poder judaico comunitário". Trata-se de gente com pouca informação e, pior, sem qualquer capacidade de enxergar o futuro. Quem tem um mínimo de conhecimento sobre a história dos judeus no mundo cristão, sabe muito bem que milhões de judeus foram obrigados a se converter ao cristianismo para poderem continuar vivos. 

Se os descendentes destes judeus querem continuar judeus ou querem voltar ao judaísmo, na minha opinião, são muito bem-vindos. Rabinos ortodoxos costumam dificultar a volta dessa gente ao judaísmo o que para mim é uma das maiores idiotices da moderna história dos judeus.

Há quem diga que esta também é uma questão de reserva de mercado. A luta entre rabinos ortodoxos, conservadores e reformistas ou progressistas. Uns não se relacionam com os outros na medida em que o mercado é restrito e a abertura facilitaria quem exige menos. Uma vergonha que prejudica quem quer voltar ao seio do povo de onde foi defenestrado. Estou com os Bnei Anussim e não gosto, em geral, de rabinos. A comunidade judaica brasileira não sabe direito quem são os Bnei Anussim, o que desejam, e é, sem dúvida, influenciada contra eles pelos ortodoxos.

OC: Acredita que o pensamento nazista no mundo anda aumentando, ao ponto de ser um perigo em esfera mundial? Acha que no Brasil o antissemitismo esteja em franca expansão?

RG: Quem conhece a história da Igreja Católica sabe que o antissemitismo não aumenta nem diminui. Ele aparece de tempos em tempos com mais ou menos intensidade. Os antissemitas acreditam que os judeus mataram Deus. Esta ideia foi vendida para todos os povos europeus pela Igreja, por seus papas, bispos e padres e também pelos evangelistas de Martinho Lutero e seus seguidores, por mais de 1700 anos. O que você acha de alguém que matou o teu pai? É assim que o não judeu europeu, e todos aqueles sobre quem este grupo atua, veem os judeus. 

Isto significa que para reverter esta situação aqueles que estão interessados nisso, vão ter que gastar muito dinheiro em contra propaganda, no mundo inteiro, sendo que hoje em dia, ainda há que se enfrentar o mundo muçulmano que está interessado em destruir Israel e usa as esquerdas em todo o mundo para continuar com a ladainha antissemita e anti-israelense que são duas circunstâncias diferentes mas que servem ao mesmo rei. O ódio ao judeu por interesses específicos.

Os nazistas apenas ganharam este nome. São a representação do ódio da Igreja e da Reforma Cristã contra aqueles que sabem que estas duas religiões estão embasadas em premissas esquizofrênicas, as quais a existência dos judeus é prova cabal de sua inveracidade. Portanto, para alguns, acabar com os judeus significa tirar da frente, arquivos vivos contra tanta mentira que se prega mundo afora.

OC: Quais são as maiores dificuldades hoje da comunidade israelita do Brasil? Quais são os maiores apoiadores brasileiros não-judeus dessa comunidade?

RG: As maiores dificuldades da comunidade judaica no Brasil estão ligadas à falta de líderes que conheçam a história e saibam como lidar com os não judeus de forma franca, objetiva, categórica e sem medo.

Quanto aos apoiadores, os judeus não têm apoiadores. Se a pergunta está me induzindo a responder que são os evangélicos, quero deixar claro que quando ligo a televisão e vejo"pastores" de solidéu, apresentando filactérios e passeando para lá e para cá envergando chales rituais, me lembro de que na verdade o que esta gente tem como objetivo messiânico é tomar o lugar dos judeus no coração de deus, como o povo eleito.

A mim não me enganam. Li bastante profundamente Martinho Lutero, aquele que incendiava sinagogas, livros judaicos e judeus de carne e osso e sei que no dia em que os evangélicos entenderem que não conseguirão seus objetivos de converter judeus ou tomarem seus lugares, já sabem o que Lutero ensinou: fogo nos judeus! Em Israel, hoje, existe uma igreja evangélica brasileira convertendo israelenses judeus e árabes ao Evangelho. No Estado Judeu, esta prática é criminosa. Espero que estes agentes do proselitismo cristão acabem em algum presídio israelense. Não confio em nenhum tipo de "apoio" que tenha este tipo de interesse.

OC: Como a comunidade em geral olha para a crise política brasileira, a situação caótica da vizinha Venezuela e o medo constante de ataques terroristas na Europa?

RG: Igual à forma pela qual diversos grupos de brasileiros olham os de esquerda, com uns olhos, os de direita com outros olhos e os indiferentes de forma diversa. Nós judeus brasileiros podemos ter mais consciência do que os não judeus num ou noutro tema. No geral somos absolutamente equivalentes.

OC: Essa divisão direita e esquerda, hoje na comunidade judaica, se mostra tão grande, haja vista o acontecimento na Hebraica contra o Bolsonaro? E como se comporta a esquerda em Israel? Ela seria contra que se criassem relações diplomáticas com o Brasil em um eventual governo Bolsonaro?

RG: Os judeus sempre foram divididos e, graças a deus é assim. A divisão não ocorreu por causa do Bolsonaro na Hebraica. Ela apenas saiu de dentro de um baú, onde estava dormindo. Que bom que existe. As pessoas precisam entender que os judeus não são diferentes de qualquer ser humano. Tem suas virtudes, seus defeitos, seus interesses e praticam boas e más ações. Politicamente, estão inseridos em todas as classificações de pensamento. Apenas possuem uma religião diferente. Esta mentira tão propalada de que judeus se ajudam é uma lenda. Há judeus que por mim, poderiam sumir!

Quanto à esquerda israelense, a incompetência dela é tamanha que perdeu o poder e dificilmente voltará a comandar o país. Portanto, perder tempo em conjecturar sobre ela, não vou.

Qualquer governo de Israel irá se relacionar com o Brasil, se depender deles. Em Israel, o Brasil é amado. O nosso futebol é copiado. A nossa música toca dentro dos transportes coletivos. Israelenses amam brasileiros e os copiam em muitas questões. Vide as pedras portuguesas da orla marítima em Tel Aviv. Penso que a esquerda de Israel fará tudo que for possível para, caso esteja no poder, o que é quase impossível de acontecer, se relacionar com qualquer governo brasileiro, inclusive o de Bolsonaro se acontecer.

OC: Anos atrás muito se dizia que a comunidade judaica na Europa iria praticamente sumir. Sabemos bem que tem um número ínfimo de judeus no velho continente, se compararmos com o que foi um dia. Tendo isso em vista, o senhor acha que a onda de Alyiah será forte o bastante para fazer com que essa população se transfira quase que totalmente para Israel?

RG: Não acho, não. Os judeus jamais deixaram a Europa a não ser que sejam expulsos. Pode acontecer, mas não hoje, nem amanhã. Quem sabe em 20 ou 30 anos mais à frente. Os muçulmanos estão comprando a Europa e este pode, sim, ser um fator de saída de judeus. Não necessariamente para Israel.

OC: Qual sua perspectiva em relação ao Sionismo e o seu legado? Acredita num desenrolar cedo em relação ao conflito israelo-palestino?

RG: O Sionismo já cumpriu o seu papel que foi estabelecer o estado judeu em seu berço natural e receber os judeus do mundo que desejam voltar para casa. Hoje, sionismo para mim, é sinônimo de propaganda a favor de israel. Estou engajado neste processo e sou presidente da recém-formada Associação Sionista Brasil Israel- ASBI- formada por judeus e não judeus para defender israel, a democracia e a livre iniciativa no Brasil e as opiniões e ações da direita brasileira em relação à maneira que o Brasil deve ser governado. 

Em minha opinião, falta inteligência, atitude, liderança e charme aos atuais governantes de Israel para seguir conversando com os palestinos em busca de uma solução que precisa acontecer. Vamos continuar torcendo. Minha esperança está classificada numa faixa perto de zero, neste momento.

OC: Como vê o isolamento que o Brasil foi colocado com o desvio de Netanyahu em sua visita à América Latina? Acredita que Temer continuará ignorando Israel?

RG: Quando analisamos quaisquer premissas em função da diplomacia e da política, sejam nacionais ou internacionais, não podemos deixar escapar certos detalhes. Não se esqueçam de que o penúltimo ministro das relações exteriores do Brasil foi defenestrado pelo presidente Temer. Foi José Serra, um sabido cristão novo. Bandeou a política externa do Brasil a favor de Israel, pela primeira vez, em mais de 30 anos, na ONU. O detalhe, que não é detalhe e que não se pode esquecer, passa pelo fato de que Serra não foi mais acusado do que Moreira, do que Eliseu e do que outros que continuam passeando pelos jardins do Planalto. Já nos demos conta de que Temer é árabe?

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