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[ENTREVISTA] Presidente do ILIN afirma: brasileiro conheceu "esquerda com sangue nas mãos"


Por Wilson Oliveira

Engana-se completamente quem acredita que o avanço do movimento liberal no Brasil seja uma exclusividade das regiões Sul e Sudeste. Para quem segue esse pensamento equivocado, fica a dica para conhecer o Instituto Liberal do Nordeste (ILIN), criado no dia 06 de Setembro de 2013 – um dia antes do dia da Indepedência. Seus fundadores inauguraram o instituto por perceberem uma "hipertrofia do Estado brasileiro, mais dependente do que nunca dos indivíduos brasileiros". Só com essa frase que deu luz ao início dos trabalhos do ILIN, outro mito é derrubado: de que seriam os cidadãos que dependeriam do Estado...

O presidente do instituto é Rafael Saldanha, advogado e professor, além de ter sido aluno do Curso Online de Filosofia de Olavo de Carvalho. Nesta entrevista concedida ao Congressista, ele passa um pouco da sua visão acerca do renascimento de um movimento de direita no Brasil. Para Saldanha, as crises política e econômica são os principais elos desse fenômeno, mas ele não ignora a crise moral, destrinchando-a em uma crise de ética, de inteligente e de transcendência:

"Pode-se enveredar por outras instâncias de conhecimento sobre o homem e a sociedade, pois em certa medida as dores desta crise vitimam pessoas de direita e de esquerda. Além disso, reduzir as pessoas às suas opções políticas também já é um traço desta mesma crise". Confira abaixo o bate-papo completo.

O Congressista: É possível dizer que desde as primeiras informações sobre o impeachment de Dilma Rouseff até o presente momento, o Brasil viu renascer movimentações "de direita" na política ou na sociedade?

Rafael Saldanha: Acredito que nas disputas eleitorais de 2014 já foi possível ver uma contrariedade mais acentuada aos projetos políticos de esquerda, ainda que muito aleatória e descoordenada, como de fato costuma ser aquilo que se costumou chamar “direita”, ou seja, vários grupos que pretendem proteger alguns aspectos ou valores em particular das rupturas que avançam com o processo revolucionário empreendido pela esquerda. Com a operação Lava Jato e com os desdobramentos do processo de impedimento da Presidente, a pressão ganhou cada vez mais força, algo como uma retroalimentação.

OC: Na sua opinião, qual foi o maior estímulo para a formação desses grupos: a crise política, a crise econômica ou a crise moral?

RS: Um tanto de cada.

As duas primeiras, mais evidentes, são mais sentidas e discutidas. Não é a primeira vez que, em ano de desastre econômico provocado em boa parte por políticas públicas malsucedidas, um presidente cai no Brasil. Alguns fatores podem ser apontados como pivô da crise política e econômica, como o agigantamento do estado brasileiro e de sua incursão cada vez mais agressiva sobre a vida dos particulares, os atos de quadrilha do PT e de seus aliados na administração da coisa pública e o uso do governo para fins revolucionários. Tudo isso somado a um insucesso sem precedentes na economia, tanto por intervenção direta quanto por se ter visto asseverar a criação de barreiras burocráticas e fiscais em desfavor da iniciativa privada, traz uma noção dos elementos que contribuíram para alimentar ideias contrárias à esquerda nos últimos tempos.

Mas há análises mais sensíveis a serem travadas. Remetendo-nos agora ao terceiro aspecto da pergunta, que é a dita crise moral, que inclusive seria melhor denominada “crise espiritual”, englobando aqui uma crise da inteligência, da ética e da transcendência, pode-se enveredar por outras instâncias de conhecimento sobre o homem e a sociedade, pois em certa medida as dores desta crise vitimam pessoas de direita e de esquerda. Além disso, reduzir as pessoas às suas opções políticas também já é um traço desta mesma crise.

É traço do pensamento moderno atribuir o império do ímpeto sobre a razão, da política sobre a ética, do imanente sobre o transcendente. Friso que minha crítica não se direciona a apontar que tais aspectos são necessariamente divergentes, mas sim que há uma ordem natural para harmonizá-los e que hoje essa ordenação está invertida ou desalinhada. De tal desordem decorrem uma série de consequências desastrosas, como o descrédito da Verdade, que apesar de aparentar ser assunto metafísico e distante do cotidiano, é por certo uma âncora para a sanidade das relações humanas.

Se o desarmamento civil é grave, o “desarmamento” civil da Verdade é uma calamidade. É evidente que se a filosofia moderna fragiliza a possibilidade do homem de estabelecer-se para consigo e para com os demais mediante um padrão racional de apreensão das verdades com as quais vai se deparando em sua vivência, decorre uma necessidade imediata de que alguma autoridade (política, científica ou econômica) defina algum padrão de estabilidade. 

Não bastasse a total insegurança, frustração e ansiedade que isto causa sobre cada um, abre-se uma oportunidade irrecusável para governos totalitários, conduzidos por ideologias que tentam abarcar através da política todos meandros da vida e das relações sociais. Esta crise é como que mãe das outras duas, ditas logo de início mais superficiais, e é o grande desafio a ser pensado, digerido e enfrentado pelas boas mentes que ainda temos, a fim de que possam ser mapeadas algumas trilhas para nos reencontrarmos com a racionalidade, com a moral e, por consequência, com diálogos mais profícuos e com mais pacificação.

OC: As manifestações de rua pelo "fora Dilma" de alguma forma podem ter criado uma identidade pragmática para que esse conjunto de pessoas passasse a combater a esquerda? Ou a movimentação foi mais genuína de combate à corrupção?

RS: Os grupos e indivíduos que participaram das manifestações não tinham, parece-me, unidade ou identidade total de interesses. Ideologicamente a situação é ainda mais confusa. Mesmo pautas aparentemente unânimes, como talvez tenha sido o “Fora, Dilma”, recebem doses distintas de intensidade na atuação deste ou daquele grupo, sendo para uns prioridade máxima, e para outros uma conveniência contingencial.

Nas ruas, e o sei pois estive próximo das manifestações no Nordeste, houve grupos que, ao tempo em que pensavam no impeachment, já tinham agenda com algum planejamento futuro, político ou até científico. Outros, estavam lá apenas pela dor por sentirem-se roubados pelos criminosos corruptos. Houve os que gostariam de ver uma regressão do estatismo e do populismo no país. Houve, pasmem, grupos que buscavam forças para criarem uma nova esquerda.

O que dou como certo é que houve uma evolução crítica no decorrer das manifestações. Gente que desceu do prédio apenas para participar do corneteiro, por vezes carnavalesco, e saiu dali conhecendo sobre os estratagemas de Antonio Gramsci. Na avenida das manifestações, o brasileiro conheceu a esquerda e seu lado menos publicitário, não tão poético como pintava Paulo Freire, mas mais obscura e com sangue nas mãos; assim como de fato foram os governos de Stalin, Mao e Fidel, heróis dos livros do patrono da nossa educação.

Em meio a tudo isso, é notável uma maior adesão – é o caso de se ponderar sobre o quanto isto é uma novidade e o quanto as redes sociais estão dando voz a um Brasil mais real e menos Leblon Global – às ideias mais à direita. O que decorrerá a partir disso ainda é necessário mais tempo para se averiguar. Não bastam eleições para tanto, embora sejam um bom termômetro. Será preciso ver o reflexo individual e social destas percepções ao longo dos anos no porvir, e se esta direita mais ativa conseguirá pôr em prática os desafios a que tem se proposto resolver.

OC: Até que ponto a falta de cultura política do brasileiros, no sentido de conhecer as mais variadas correntes de pensamento econômico ou filosófico, pode atrapalhar na luta contra a esquerda, principalmente na questão cultural?

RS: Suspeito não ser este o cerne do problema, conquanto não deixe de ser um revés em alguma medida. Nas últimas décadas, a instrução educacional mais intensamente propalada no Brasil foi a de viés político-ideológico. Antes, não muito melhor, oscilava mais fortemente entre formação cidadã ou para o mercado de trabalho. O fato de ter essa instrução politizada e crítica – aos modos frankfurtianos – tendido à esquerda não muda a verdade acerca deste modelo educacional, que tem por consequência maior tornar as pessoas cínicas e impetuosas; contrariamente a uma boa educação, que as tornariam mais humildes, mais inteligentes, mais propensas à busca de valores mais elevados, além de as tornarem melhor preparadas para controlarem seus impulsos mais vis.

Assim, o caos na nossa educação passa pelo fato de que não estamos tentando formar pessoas adultas, mas sim sujeitos políticos. Num dizer mais marxista, não se forma um homem, mas um indivíduo com consciência de classe pronto a criticar tudo o que lhe é ensinado como opressor e retrógrado. Mudar o lado, ou seja, uma educação de viés direitista ou antiesquerdista, como se queira, não melhorará o quadro.

É preciso, pois, que a educação tenha por fim aquilo que melhor a qualifica: ensinar o homem a ser Homem. E é próprio do ser gente, do ser humano, ser algo que pensa, que tem na intelecção sua distinção para as demais coisas deste mundo. O bem pensar encaminha para o bem viver. O bem pensar – insisto nele – naturalmente encaminha à ética, e desta vem a boa política. E na boa política os problemas concretos e verdadeiramente significativos tendem a ser melhor resolvidos, e sob tais primados não há lugar para ideologias totalitárias de controle social.

Entenda-se então que o que quero dizer com tais coisas é que o antídoto contra a esquerda não é uma educação à direita, a qual pode ser igualmente contaminada por toda sorte de ideologias políticas, mas uma educação verdadeira.

OC: É possível dizer que o PT caminha para o calvário? E com relação aos demais partidos médios e grandes, eles darão a volta por cima nessa crise de identidade política ou você acredita convictamente que mudanças profundas irão acontecer já no próximo pleito?

RS: Há trinta anos, até por uma certa inovação que tentavam transparecer, o PT e os demais partidos de esquerda eram a imagem da política ética. Hoje, o sentimento de boa parte do eleitorado é de que houve uma traição grave ao que lhes fora prometido, restando, então, um desafio para a nova esquerda muito particular quanto a este aspecto.

Dizer que o PT ruma ao calvário ainda não é possível, mas é certo que a sigla terá dificuldades bem maiores para eleger candidatos. Terão de rever bem o marketing para conseguir desvencilhar-se de todos os últimos escândalos políticos e da pecha de esquerda que traiu o sonho marxista, como acontece com todo partido comunista que chega ao poder: por ser impossível de se realizar o que foi projetado no fatídico “Manifesto”, seus camaradas não tardam em dizer que ele se vendeu à direita (ao imperialismo ianque, de preferência), ou que o poder subiu à cabeça de seus próceres.

No cenário atual, penso não haver partido de direita no Brasil. Arremedos aqui e ali, mais por um ou outro participante mais emblemático, mas partido mesmo não há. Acredito que haverá uma mudança nesse sentido nos próximos anos, ou por algum partido a surgir ou pela redefinição de algum já existente. O futuro da direita emergente muito dependerá de como as alas conservadoras e liberais saberão se dividir e se unir. Será natural que se dividam, o que dará prova de ganho de espaço e de melhor alocação dos grupos de interesses e de ideias, mas também precisarão saber se unir, o que trará frutos e conquistas ante os ímpetos totalitários e revolucionários.

Quanto à esquerda, falando de futuro, ela terá de se repaginar obrigatoriamente - ao menos para fins publicitários. Suspeito que, assim como a “nova direita”, uma “nova esquerda” também contará com o reforço de alguns grupos que se organizaram a partir do movimento liberal brasileiro destes últimos anos, e que têm viés menos conservador. E ficará mais próxima do perfil de esquerda-liberal que atualmente se tem nos EUA e em boa parte da Europa.

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