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[TRADUÇÃO] Roger Scruton sobre a arte de se ofender e a liberdade de expressão


Por Roger Scruton
Publicação original: Tradutores da Direita
Tradução: Filipe Azevedo
Revisão: Hugo Silver

Qualquer discussão sobre a liberdade de expressão precisa lidar com duas questões importantes: piadas e raça. Piadas não são opiniões, mas podem causar tanta ofensa quanto. Deveria, então, haver o mesmo nível de liberdade para fazer piadas quanto para expressar opiniões?

A questão da raça tem sido objeto de profunda autoanálise nas comunidades modernas. O genocídio mais terrível da história recente, o Holocausto, ocorreu porque as pessoas se sentiram livres para odiar os judeus e divulgar este ódio por formas de expressão protegidas pela lei. A opressão dos negros nos EUA e a sua exclusão dos privilégios da cidadania foi defendida livre e destrutivamente até muito recentemente. E, novamente, as opiniões eram protegidas pela lei. Estes casos, e similares, não justificariam a crença de que a liberdade de expressão não é boa em si mesma e que grupos suscetíveis de serem alvo de ódio coletivo devam ser protegidos deste abuso?

Estas são duas questões de grande preocupação para nós. O caso da Charlie Hebdo, na França, nos lembra que piadas podem gerar tanta ofensa a ponto de inspirar as mais violentas respostas. E não é surpresa que o comediante francês Dieudonné M’bala, que frequentemente inclui piadas antissemitas em seu roteiro de stand up, atualmente esteja banido de muitos lugares na França e na Bélgica.

Devemos lembrar, todavia, as pessoas podem se setirn ofendidas mesmo quando não houve a intenção de ofender. Há feministas radicais que tomam as mais inocentes afirmações sobre a mulher e as incluem na sua obscura agenda sexista. Até mesmo o uso gramatical correto do pronome masculino para se referir a homens e mulheres de forma generalizada tem causado ofensa e sido banido nos campi universitários por todos os Estados Unidos. Não é que você queira ofender alguém, mas quando se está diante de especialistas em se ofender, que cultivaram a arte de se ofender ao longo de muitos anos, é a maior satisfação para eles quando um homem inocente cai na armadilha de falar “incorretamente”.

Tipicamente, uma piada procura tirar a gravidade de uma questão afim de que se possa rir dela. A maioria das piadas étnicas são assim — ajudam um grupo a lidar com a diversidade étnica ajudando as pessoas a estar satisfeitas com seu próprio grupo, sem sentir-se ameaçado pelos demais. Algumas vezes o seu próprio grupo é que precisa de uma visão engraçada, como por exemplo as inúmeras piadas que mostram judeus com suas excentricidades engraçadas, a invés de retratá-los como uma ameaça. As piadas se tornam populares porque suavizam as coisas, tornando a realidade, com todas as suas divisões, menos ameaçadora. Aqui vai uma conhecida piada sobre o norte da Irlanda:

Um homem para o outro na rua, aponta uma arma para seu peito e diz:

— Católico ou Protestante?

O outro responde:

— Ateu!

— Mas ateu católico ou ateu protestante? – responde o primeiro.

Uma piada como essa aponta tanto para o absurdo do conflito sectário quanto para o fato de ele ser um pretexto, uma desculpa para o ódio, e não uma resposta para tal. Isso nos mostra como a arte de se ofender é usada por pessoas ignorantes para ganhar uma vantagem injustificada sobre o resto de nós.

É claro que há piadas de mau gosto, piadas desagradáveis ou maliciosas. Nós ensinamos nossas crianças e não contar piadas deste tipo e a não rir quando outras pessoas as contam. O humor é orientado pelo julgamento moral. Nosso alvo é incliná-lo à aceitação e perdão, longe da malícia e do desprezo. Mas como devemos lidar com as piadas que realmente ofendem?

Não é possível impor leis contra a ofensa. Não há legislação, ou invenção de novos crimes e punições que consigam expressar a ironia, o perdão e a boa vontade às mentes treinadas na arte de ofender­-se. Isso é tão verdadeiro em relação a feministas radicais quanto a sectários e radicais islâmicos. Por mais que tenhamos o dever moral de rir destas piadas, eles fizeram disso algo perigoso. Mas não devemos jamais perder de vista o fato de que são eles os transgressores, e não nós. Aqueles que vêem deboche em tudo — e reagem com ódio implacável sempre que pensam estar se deparando com ele—, são os verdadeiros ofensores.

E sobre os discursos racistas? Seriam essas expressões diferentes de outros tipos de expressões protegidas ou há razões especiais para criminalizá-la? O Holocausto justifica banir as opiniões que deram origem a ele? Muitas pessoas pensam que sim, e na França a legislação foi além disso e criminalizou aqueles que negavam a ocorrência do Holocausto.

Opiniões racistas não vão desaparecer apenas porque proibimos sua expressão. Na verdade, proibir pode causar uma especial fascinação. O que houve de mais destrutivo na propaganda nazista não foi a expressão daquelas horríveis opiniões, mas a supressão daqueles que as refutavam. Foi a falta da liberdade de expressão que fez com que as ideias nazistas fugissem do controle, livres dos argumentos que as exporiam ao ridículo. Em contraste, os negros nos Estados Unidos ganharam o status de cidadãos iguais, em parte, devido à liberdade de discussão, levando os americanos comuns a compreenderem que os estereótipos racistas são irracionais e injustos. Foi porque eles expressaram sua opinião que os racistas foram vencidos.

Esta questão é de vital importância para nós, na Grã Bretanha. O policiamento da esfera pública com o intuito de suprimir opiniões “racistas” causou uma espécie de psicose pública, uma sensação de andar na ponta dos pés em um campo minado, desviando-­se de bombas de ódio que podem explodir na sua cara. E essa bomba foi plantada e preparada por pessoas muitas das quais vêem na acusação de racismo uma forma útil de minar a crença em nosso país e sua forma de viver. Consequentemente a polícia, funcionários públicos, vereadores e professores têm hesitado em pensar da forma como eles sabem ser a verdade, ou agir contra aquilo que eles sabem ser errado. Vemos isso nos casos de abuso sexual ocorridos em Rotherham e outros lugares, onde a relutância em destacar uma comunidade imigrante como criminosa fez com que devidas atitudes não fossem tomadas. Meu último romance “Os Desaparecidos” é uma tentativa de explorar em profundidade a desordem moral que adentrou nossa sociedade por meio deste tipo de autocensura que impede um professor, um policial ou assistente social de agir, precisamente quando isto é mais necessário.

A autocensura é ainda pior do que a censura de estado. Por que inibe a discussão completamente. Devido às migrações em massa, nossa sociedade tem passado por mudanças radicais e potencialmente traumáticas sem o benefício da discussão pública, como se não tivéssemos escolha a respeito de nosso futuro. A profundidade da confusão e do ressentimento estão começando a se tornar perceptíveis — não somente aqui mas por toda a Europa —, algo que a liberdade de discussão teria evitado. Aqueles que tentam iniciar esta discussão estão sujeitos à caça às bruxas e sofrido pressões que poucos conseguem suportar. O resultado disso tem sido a perda de argumentos racionais em lugares onde nada é mais necessário do que argumentos racionais.

Uma última palavra sobre a arte de se ofender. Em nenhum outro lugar esta arte tem sido mais cultivada do que nos campi universitários dos Estados Unidos, onde uma nova cultura do medo foi instalada para capturar a psiquê do adolescente. Quando uma discussão toca questões dogmáticas como raça, sexo, orientação sexual ou política, muitas vezes o professor é obrigado a alertar os alunos antes de entrar nestes temas, para não se enveredar em áreas que possam trazer à memória do aluno algum evento traumático em sua vida. A visita de palestrantes com visões “heréticas” sobre feminismo ou homossexualidade são também precedidas por alertas no campi. Alguns campi inclusive oferecem espaços seguros onde os estudantes podem buscar consolo no caso de terem sido expostos à contaminação por pontos de vista ortodoxos.

Por mais engraçado que isso seja, tenha cuidado para não rir, principalmente se você não for um professor concursado. Aqueles que desejam manter os alunos em um estado de vulnerabilidade paparicada, protegidos das ideias contrárias e inexperientes na argumentação, atualmente patrulham os campi e o resultado é que estes lugares, que deveriam ser o último bastião da razão em um mundo confuso, tornaram-se lugares onde as mentes confusas encontram consolo. Este exemplo ilustra claramente como os ataques à liberdade de expressão podem chegar longe a ponto de obstruir o caminho para o conhecimento. E, ao final disso tudo, devemos valorizar a liberdade que John Stuart Mill corretamente defendeu —como o fundamento de uma sociedade livre —, sem a qual nunca saberemos aquilo que pensamos.

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