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[OPINIÃO] "Ditadura Militar" e "Revolução Francesa": dois exemplos das falácias nas aulas de história nas escolas brasileiras


Por Rafael Andreazza Daros
Autor convidado

Você sabe o que é uma falácia? Falácias são artifícios retóricos que permitem que pareça que se está argumentando sem que se esteja criando um único argumento coerente. Algumas podem ser simples erros de desencadeamento lógico enquanto outras beiram a pura desonestidade intelectual. Voltarei a elas mais tarde.

Estou cada vez mais convencido de que muito do nosso ensino de história não está, de fato, compromissado com a verdade, mas sim em criar uma narrativa com fins políticos, mesmo que para isso tenha que criar falsos heróis e vilões.

Um exemplo ocorreu logo após a votação do Impeachment, quando se criou um verdadeiro estardalhaço nas redes sociais graças à fala do deputado Jair Bolsonaro elogiando o Coronel Brilhante Ustra, o que lhe rendeu ataques furiosos tanto por parte da esquerda quanto da direita, acusando-o de defensor da tortura, não obstante a falta de provas contra o Coronel exceto por testemunhos de terroristas e guerrilheiros comunistas. Os mesmos, por sinal, que praticavam assaltos, assassinatos, sequestros e atentados a bomba. Há inclusive relatos de que os líderes comunistas da época instigavam os militantes a mentirem que foram torturados caso fossem presos.

De qualquer forma, a tentativa parece ser não a de entender o que de fato ocorreu no período militar, mas de retratá-lo como se tivesse sido a época mais negra de toda a história brasileira. Não deixa de ser curioso que o "horror" causado pela ditadura militar não seja reservado à Era Vargas que, para todos os efeitos, também era uma ditadura, talvez até pior. De alguma forma, Getúlio Vargas conseguiu a sua redenção histórica e saiu como o mocinho, não obstante suas flagrantes tendências e inclinações fascistas.

Algo muito parecido pode ser dito da Revolução Francesa, frequentemente retratada como um evento que trouxe "liberdade, igualdade e fraternidade" ao povo francês, apesar de ter apenas substituído um governo autoritário por outro. Basta lembrar que foi logo após a revolução que começou o período napoleônico, ao passo que as análises e alertas de autores como Edmund Burke, para quem a revolução foi um erro, são claramente ignoradas.

O mesmo pode ser dito de diversas personalidades históricas. Anos atrás, a revista Veja publicou uma matéria mostrando as figuras históricas mais mencionadas entre os professores, assim como as avaliações que os professores faziam deles. Entre estes, estava Che Guevara, com uma maioria esmagadora de avaliações positivas e nenhuma negativa. O lado assassino e psicopata do guerrilheiro permanece desconhecido pela maioria esmagadora dos professores e estudantes.

Este viés não é o único problema. A completa desconexão do ensino de história com outras áreas do conhecimento, em especial a economia (mas não se limitando necessariamente a ela) dificultam ou mesmo impedem qualquer compreensão mais acurada da realidade. Lembro de um tempo atrás ter uma pequena discussão em que falávamos da prosperidade de Hong Kong, cujo sucesso atribuo a sua excepcional política econômica não intervencionista. A pessoa em questão disse que esta explicação não era suficiente, e que eu deveria estudar um pouco sobre a história de Hong Kong.

O problema é que a história, da maneira que é tratada, não diz por que as coisas acontecem, apenas narra uma sequência de fatos.

Entretanto, como bem colocado pelo economista Thomas Sowell, fatos não falam por si sós, eles falam contra ou a favor de teorias concorrentes. Sendo assim, conhecimento de fatos isolados não tem nenhuma serventia se isolados dos conhecimentos de causa.

Por exemplo, um aluno poderia passar toda a sua vida acadêmica ouvindo sobre os fracassos do socialismo. Mas quantos, de fato, sabem os princípios que caracterizam socialismo ou, ainda mais importante, o PORQUÊ do socialismo ter fracassado? Sem esse entendimento, as ideias socialistas podem se reciclar indefinidamente e, assim como a fênix mitológica, renascer das próprias cinzas. Basta que se apresentem com nomes pomposos adornados de intenções humanitárias, tais como "justiça social" ou "estado de bem-estar social" que, na prática, não deixam de ser uma espécie de socialismo "light". É como um indivíduo que fracassa mas é incapaz de compreender porque fracassou. Como alguém assim pode ganhar qualquer sabedoria ou prudência com suas experiências passadas?

E aqui voltamos um pouco à questão das falácias que mencionei no começo. Sem esse conhecimento, tanto alunos quanto professores ficam vulneráveis às falácias das mais simples possíveis. Uma dessas, por exemplo, é conhecida pelo nome de falácia ad hoc, que consiste em assumir que 2 eventos quaisquer sejam consequência um do outro apenas porque um ocorreu após o outro. Sendo assim, eu posso ter o evento A que ocorreu graças a B e C, mas que foi atrapalhado pela política D. É muito fácil, portanto, simplesmente ignorar os fatos B e C - seja por má-fé ou ignorância - e portanto assumir que a política D foi a causa da melhora de A.

Um exemplo para deixar mais claro. Há vários estudos mostrando que políticas de salário mínimo causam desemprego. Não vou me ater aos méritos ou explicação do fenômeno, mas vamos supor que isto seja de fato verdade, apenas para efeitos de argumentação. Agora digamos que se notou que, em um período específico, os salários dos pedreiros aumentou consideravelmente. Acontece que esse mesmo período viu uma explosão do mercado imobiliário, o que aumentou a demanda por pedreiros e, consequentemente, também aumentou o salário dos mesmos (lei da oferta e procura). Alguém que ignore ou desconheça esses fatos pode muito bem concluir que o aumento do salário deles foi fruto do aumento do salário mínimo.

Este exemplo, assim como diversas formas de manipulação estatística, mostra como é possível dizer uma grande mentira contando apenas verdades. A não exposição a análises econômicas sólidas torna tanto alunos quanto professores completamente vulneráveis a qualquer propaganda política disfarçada de conhecimento histórico. Nossos alunos não são expostos a uma única análise das consequências das leis trabalhistas criadas durante a Era Vargas - nem que sejam meras comparações com países que não possuem tais leis - e ainda assim lhes é ensinada a narrativa de que Getúlio foi o "pai dos pobres". Demagogos e populistas usam e abusam deste tipo de narrativa, como faz o PT quando diz que foi graças ao Lula que o pobre pôde andar de avião. Se não forem tomadas as devidas precauções, logo esta poderá ser a versão que estará nos livros de história.

Para todos os efeitos, despida do conhecimento econômico, o histórico do socialismo - assim como qualquer histórico econômico no geral - não passa de uma sucessão de fatos que não possuem causa nem consequência. Alie isto à incapacidade de pensamento lógico e conciso, facilitado pelo desconhecimento até mesmo das falácias mais básicas por parte de nossos alunos.

Desta forma, a velha máxima que diz que o ensino de história serve para que não cometamos os mesmos erros do passado perde totalmente o sentido. Enquanto a forma de estudar história não mudar, estaremos condenados a continuar em uma espiral intervencionista e a cometer eternamente os mesmos erros do passado.

*Este artigo foi publicado originalmente pelo Shogunidades Blog e cedido gentilmente pelo autor ao Congressista

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