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[ANÁLISE] Conheça três métodos de doutrinação ideológica bastante utilizados no ensino



Por Rafael Andreazza Daros
Autor convidado

Algumas técnicas de doutrinação são bastante sutis. O doutrinado precisa, antes de tudo, acreditar que está sendo educado. Aqui, tento explorar 3 técnicas de doutrinação bastante usadas.

Primeiro método: extrapolar os limites do conhecimento do aluno e do professor e estimular a exposição de emoções e preconceitos

Uma dessas técnicas consiste em extrapolar a função do professor, fazendo-o ir além de sua função e de suas capacidades. Por exemplo, no livro de "história" doutrinário do MEC, podemos ver perguntas no estilo "Cuba teria alcançado o mesmo nível de desenvolvimento que tem hoje se fosse um país capitalista, aberto aos investimentos dos EUA?" ou "Nos tempos atuais, de globalização, os investimentos de empresas norte-americanas poderiam ser encarados como saudáveis parcerias?"

Mesmo ignorando a propaganda descarada do regime cubano, estas são perguntas de economia, e não de história. Qualquer resposta minimamente coerente e razoável iria requerer, no mínimo, conhecimentos básicos de economia, que permitissem que os alunos compreendessem pelo menos qual a função e o propósito do investimento. Conhecimento este não apenas sistematicamente negado aos alunos, mas que também estão além das capacidades e competências de qualquer professor de história, ou do que deveria ser exigido do cargo. Lembro-me claramente, na minha época de escola, de ter ouvido repetidas vezes que devemos ser "empreendedores", ainda que professor nenhum jamais tenha explicado o que é empreendedorismo, qual sua importância e qual sua função.

Sendo assim, independentemente de qual resposta o livro ou o professor dê como correta, isso não passará de mero preconceito, ainda que disfarçado de conhecimento genuíno ou de uma "análise crítica de mundo". Da mesma forma que os professores doutrinadores vão além do que deveria ser de sua competência, os alunos vítimas dessas técnicas também são estimulados a irem além do que lhes deveria ser exigido.

Não há nenhuma razão, por exemplo, para crer que o público geral deva entender detalhes sobre a administração de uma empresa multibilionária e compreender todas as idiossincrasias no processo de tomada de decisões administrativas que levam um empresário a oferecer salários milionários para executivos e CEOs. Entretanto, esse desconhecimento não impede o público de expressar sua indignação e até mesmo revolta moral contra os salários "abusivos" pagos a tais profissionais. O que é inaceitável é que tal atitude - de externar emoções em detrimento de um conhecimento de causa - encontrem eco nas salas de aula.

Isto é reforçado com a ideia de que os alunos devem ter opinião sobre tudo. Claro que devemos ter opiniões próprias e não ser só mais uma maria-vai-com-as-outras. Mas isso não significa que precisamos ter opinião sobre tudo, principalmente sobre assuntos que demandam um alto grau de conhecimento especializado e/ou experiência pessoal. Nesses casos, ter uma "opinião" é a exata antítese do conhecimento.

Ninguém acharia razoável pedir, por exemplo, que um aluno escreva sobre a melhor maneira de se gerir uma concessionária ou de se treinar um atleta profissional, muito menos para opinarem sobre procedimentos médicos ou veterinários. O motivo é muito simples: são questões que exigem um alto grau de conhecimento específico, e que vai muito além do conhecimento e da vivência de qualquer aluno de 1º ou 2º grau. Ainda assim, espera-se que opinem sobre questões como política econômica, ideologia política e relações internacionais, uma tremenda contradição.

O mais triste é ver este tipo de coisa sendo encarado como "reflexões críticas". O resultado é igualmente claro e assustador: alunos semianalfabetos, ou completos analfabetos funcionais, que dizem ser "críticos do sistema" e acreditam que assim estão "pensando com a própria cabeça".

Resumindo: esta técnica consiste em pura manipulação retórica, incapacitando o aluno de perceber que o que está sendo estimulado é a exposição de preconceitos e emoções, ainda que disfarçados como se fossem conhecimento genuíno ou "pensamento crítico".

Segundo Método: incapacitar os alunos de fazerem conexões lógicas de causa e consequência

Thomas Sowell disse uma vez que "fatos não falam por si sós. Eles falam contra ou a favor de teorias concorrentes. Fatos isolados são meras curiosidades". Isto fica bastante claro ao percebermos como certas visões são apresentadas aos alunos como sendo axiomáticas ou auto-evidentes, e não como hipóteses a serem provadas através de argumentos. Isso isenta o doutrinador de ter que demonstrar qualquer relação de causa e efeito quanto às ideias que quer incutir na mente de suas vítimas.

Muito do trabalho de doutrinação é feito não a partir do que se diz, mas também do que não se diz. Isto pode levar a conclusões apressadas e completamente equivocadas. Por exemplo, são citadas diversas estatísticas que dizem que os homens ganham mais do que as mulheres. Entretanto, a manipulação retórica transforma aqui homens e mulheres em meras categorias estatísticas. Há uma diferença enorme entre dizer que homens e mulheres - como categorias estatísticas, e não como indivíduos isolados - ganham salários diferentes por tomarem decisões profissionais de uma maneira diferente, e afirmar que homens ganham mais por fazerem o mesmo trabalho. (Dica de leitura: em "Economic Facts & Fallacies", Thomas Sowell explora esta questão, entre muitas outras, com muito mais profundidade, sem versão em português)

Um aluno pode passar sua vida acadêmica inteira sem jamais ouvir questionamentos que façam esta distinção e sem ouvir qualquer explicação alternativa além da que afirma que o que explica tal diferença é a discriminação e que, se há uma redução nessa diferença, é mérito do feminismo por reduzir o nível de discriminação. Da mesma forma, Getúlio Vargas é comumente retratado como um grande estadista e é comemorada a criação das leis trabalhistas e da CLT como se essas explicassem a melhoria das condições de vida dos trabalhadores, sem jamais ser feito nenhum estudo comparativo sobre melhoria das condições de vida dos trabalhadores em países com leis trabalhistas rígidas versus melhoria das condições de vida dos trabalhadores em países com leis trabalhistas mais flexíveis ou mesmo inexistentes. 

É olhado para o fato de países de 3º mundo receberem investimento estrangeiro de países de 1º mundo, e então conclui-se que a riqueza dos países que investem causa a pobreza dos países que recebem estes investimentos (normalmente sob o discurso do "imperialismo" norte-americano). Estes são apenas alguns dos muitos casos onde simplesmente são apontados fatos aleatórios e se conclui que o primeiro é consequência do outro, sem que seja fornecida qualquer explicação causal e sem que os alunos sequer tomem conhecimento de que há visões conflitantes e explicações alternativas.


Outra característica deste método é a prevalência da teoria em detrimento da experiência prática, que é sumariamente ignorada ou mesmo desprezada. Por exemplo, é falado muito sobre a exploração do trabalhador, mas nunca é estimulado que as crianças sequer perguntem aos seus próprios pais se estes se sentem explorados por seus empregadores. Diz-se que as mulheres são discriminadas e ganham menos por fazer o mesmo serviço, mas nunca é dada uma chance de resposta ao empregador ou mesmo apresentado um único depoimento de uma mulher que tenha alegado discriminação salarial. Em uma prova recente do ENEM, a maioria (se não todas) as redações que tiraram nota máxima defendiam sérias restrições ou proibições à publicidade infantil, retratando-a como se esta tivesse um poder quase que sobre-humano quanto a seu poder de influência sobre as mentes das crianças, mas sem haver nenhuma menção à própria experiência pessoal.

Um caso onde isto fica bastante óbvio são em discussões sobre a maioridade penal, onde muitos assumem como auto-evidente a premissa de que mais educação necessariamente irá levar a uma redução da criminalidade, sem que jamais seja explicada qualquer ligação entre as 2 coisas. O mesmo é válido para discursos que assumem como axiomático que o sistema de saúde público fará os ricos pagarem pelo tratamento dos pobres. Tais ligações não são nem lógicas nem autoevidentes, como mostrado aqui e aqui.

Claro, pode-se concordar ou discordar destes argumentos. O que está em questão aqui não são os méritos ou deméritos de uma visão em particular, mas sim a capacidade dos alunos de relacionar causa e consequência ou de formular contra-argumentos lógicos e coerentes.

Intencional ou não, a perversidade deste método é clara: consiste em destruir a capacidade dos alunos de fazer conexões lógicas de causa e efeito. O resultado são professores e alunos que repetem, feito papagaios, discursos do tipo "Se A, então B", mas completamente incapazes de explicar o COMO e o PORQUÊ. Ou que, no mínimo, acabam propagando diversas (e perigosas) falácias econômicas. Como foi devidamente apontado por Joel Pinheiro da Fonseca em seu artigo Nota Máxima para o Clichê Ideológico: "Adolescentes terminam o ensino médio sem nem mesmo terem noções rudimentares de oferta e demanda, mas familiarizados com o conceito de mais-valia e cheios de certezas sobre os males do sistema econômico "neoliberal" e com ojeriza à ideia de lucro". 

Lembro-me perfeitamente de ter visto uma vez, por acaso, uma lista com quase 200 nomes de autores críticos do marxismo e socialismo, dos quais eu pude reconhecer cerca de uma dúzia. Nenhum destes nomes me fora sequer mencionado em toda a minha vida acadêmica.

Claro que não há necessidade de entendermos a causa de todas as coisas, visto que não somos oniscientes e que o conhecimento humano é imperfeito. Nesses casos, nossa única alternativa é confiar na experiência. O que é inaceitável é que visões completamente equivocadas sejam transmitidas não como uma explicação possível, mas sim como uma verdade incontestável, à revelia da experiência de milhões de pessoas.

Terceiro método: confundir a distinção entre moral e política

Outra forma de doutrinação que pode passar despercebida é a tentativa de unir moral e política como se fossem uma coisa só. Isso pode ser feito através de perguntas aparentemente inocentes, do tipo "você concorda com a política X dos EUA" ou ao pedirem para os alunos opinarem sobre questões como o "imperialismo" ou o "neoliberalismo".

Fica claro que a intenção desse tipo de pergunta não é realmente que os alunos expressem uma opinião, mas sim manipulá-los para que CONDENEM os inimigos políticos do doutrinador. A imagem a seguir, tirada do livro "Nova História Crítica", ilustra perfeitamente esta questão. Neste caso em particular, é completamente ignorado, por exemplo, o fato de que tais situações de fome só afetam países socialistas ou pouco capitalistas, assim como o fato de que todas as mercadorias que atravessam fronteiras são importadas pelo local de origem. Isso pode incluir desde produtos alimentícios e de vestuário até livros acadêmicos, medicamentos, chips de computador, matérias-primas como carvão, ferro, cobre e petróleo, tecnologias diversas, etc.


O mercado de luxo é apenas uma pequena fração, sendo também ignorado o fato de que mesmo o mercado de luxo acaba sendo fonte de renda e de geração de empregos para milhares de pessoas. Esse tipo de imagem não passa de pura desonestidade intelectual e manipulação retórica e cuja refutação requer alguns conhecimentos básicos de economia (que são sistematicamente negados para os alunos, como apontei anteriormente) para que não se caia em falácias comuns. Neste caso, a falácia do jogo de soma-zero, que considera a riqueza como um bolo fixo a ser dividido e que acredita que a riqueza de alguns causa a pobreza de outros.

Entre todos os métodos de doutrinação, este é, em minha opinião, o mais monstruoso e covarde. Em primeiro lugar porque se aproveita da ingenuidade e falta de experiência das crianças, que dificilmente irão perceber que estão sendo emocionalmente manipuladas. Em segundo lugar porque intenciona fazer a vítima incorporar valores políticos - tais como o antiamericanismo e o anticapitalismo - em seu código moral. 

Em outras palavras: não se espera que o aluno simplesmente entenda o mundo, mas que dê uma avaliação MORAL para o mesmo, após ter sido apresentada uma única versão dos fatos, completamente distorcida e enviesada. Se bem sucedida, tal técnica é de difícil desconstrução, uma vez que tende a fazer com que o doutrinado considere, de imediato, posições contrárias não como uma diferença de perspectiva, mas como uma séria falha moral e de caráter, sem nem ao menos terem seus argumentos respondidos ou sequer ouvidos.

*Este artigo foi publicado originalmente pelo Shogunidades Blog e cedido gentilmente pelo autor ao Congressista

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