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Getúlio Vargas, o maior responsável pelo atraso do Brasil: parte 2


Por Wilson Oliveira

Em tempos em que o Brasil está dominado por discussões políticas dos mais variados temas, precisamos fazer um mergulho na história para ilustrar com mais exatidão por que chegamos onde estamos. A história do ex-presidente da República Getúlio Vargas é capaz de explicar várias encruzilhadas que o nosso país se meteu - começando pela resistência dos políticos em fazerem mudanças no sistema eleitoral que realmente tragam a democracia para as nossas vidas, passando pela Consolidação das Leis do Trabalho (a famosa CLT) e pela enorme estatização da nossa economia. Neste artigo você confere a parte 2 do especial Getúlio Vargas, do seu retorno à presidência até seu suicídio. Clique aqui para conferir a parte 1.

Fora do poder, Vargas participa de acordão nos bastidores

A renúncia de Vargas ficou conhecida como a "Queda do Estado Novo". Com isso o Brasil iniciava um período democrático, que teve a convocação de uma Assembleia Constituinte e a realização de eleições gerais. Voltava a vigorar a liberdade de imprensa e de organização. Porém, nos bastidores da política acontecia uma delicada negociação para a disputa presidencial. Ex-membros do governo Vargas tentavam convencer o próprio a apoiar Eurico Gaspar Dutra, que tinha sido seu ministro de Guerra. Mas Getúlio resistia e não cansava de chamar Dutra de traidor (e de xingamentos mais pesados) por ele não ter lhe contado em momento algum sobre a adesão dos militares ao "Manifesto dos Mineiros".

Mas como na parte interna da política parece não haver muito espaço para sentimentalismos, Getúlio Vargas foi convencido a declarar publicamente que apoiaria Dutra. Pessoas próximas a Getúlio conseguiram convencê-lo com o argumento que a UDN (União Democrática Nacional), comandada no Rio de Janeiro pelo jornalista Carlos Lacerda, acabaria com praticamente tudo que havia sido implantado pelo Estado Novo caso vencesse a eleição com o brigadeiro Eduardo Gomes. Apesar de reservar todos os xingamentos possíveis a seu ex-aliado Dutra, Vargas possuía um ódio muito maior de Lacerda, que sempre foi um inimigo declarado do seu governo. Também serviu para endossar a posição de Getúlio Vargas o fato de que com o manifesto de apoio, seus direitos políticos seriam preservados.

A eleição aconteceu e, como Getúlio ainda contava com um enorme apoio popular, principalmente nas camadas mais baixas da sociedade, Dutra venceu. Por outro lado, Gomes não reconheceu a derrota e, durante um pronunciamento no Theatro Municipal do Rio de Janeiro, chamou os eleitores de Eurico Gaspar Dutra de "safados desocupados apoiadores de ditador". Apesar da derrota, a UDN se posicionava com muita força como partido implacavelmente adversário de Vargas e, por tabela, de Dutra (ao estudar a história da UDN, é possível reparar a enorme diferença para o que vemos nos dias de hoje. Seus membros faziam exatamente o oposto do que reza a cartilha do 'politicamente correto' e, em alguns momentos, chegavam a xingar os correligionários de Dutra e de Vargas).

Para enfrentar a UDN nas urnas, Getúlio Vargas participou da criação do Partido Trabalhista Brasileiro (PTB), cujo qual foi eleito senador e, depois, presidente novamente. Pouco depois, Vargas também participou da criação do Partido Social Democrático (PSD). Para o retorno de Vargas, o PTB lançou como lema da campanha presidencial de 1950 que "o presidente voltaria nos braços do povo". Na convenção nacional do partido que lhe lançou como candidato, Vargas declarou: "Se vencer, governarei sem ódios, prevenções ou reservas, sentimentos que nunca influíram nas minhas decisões (sic), promovendo sinceramente a conciliação entre os nossos compatriotas e estimulando a cooperação entre todas as forças da opinião pública (sic)".

Sabe quem a UDN lançou para enfrentar Vargas na disputa? De novo o brigadeiro Eduardo Gomes, um homem com experiência militar e sem papas na língua, que participou da campanha com "sangue nos olhos", mas foi derrotado numa espécie de revés psicológico, já que partidários do PTB exploraram com muita ênfase a simbólica frase que Gomes disparou ao perder para Eurico Gaspar Dutra em 1945, quando chamou os eleitores do adversário de "safados desocupados". Eduardo Gomes não conseguiu driblar a estratégia petebista e perdeu por uma considerável diferença.

Com a derrota do brigadeiro Gomes, um plano chegou a ser elaborado pela cúpula das Forças Armadas do Brasil para impedir a posse de Getúlio Vargas. No entanto, os próprios signatários da estratégia desistiram de colocar o "complô" em prática por considerarem que Vargas ainda possuía um enorme apoio popular, e que seguir em frente com esse impedimento da posse do presidente eleito pelo povo poderia fazer a própria população se virar contra o exército, a marinha e a aeronáutica brasileira.

O retorno de Vargas e a criação de várias estatais

Prometendo fazer um governo democrático, dentro dos limites legais, sem recorrer a atos ditatoriais, Vargas trouxe alguns membros do seu primeiro governo novamente para o seu lado e também nomeou novos políticos para o ministério. Um deles foi Tancredo Neves, avô do atual senador Aécio Neves (PSDB). Tancredo chegou a escrever em seu livro, publicado anos depois, que Getúlio Vargas havia se compromissado a cumprir tudo que estava previsto na Constituição quando foi eleito em 50. Mas isso não significou que as ideias do Estado Novo seriam deixadas de lado. A estatização da economia voltou ainda mais forte na segunda passagem de Getúlio pelo Palácio do Catete.


Numa tentativa de recuperar o prestígio junto ao meio empresarial e industrial brasileiro, que acreditavam ser culpa do "Estado Novo" a crise econômica pela qual passava o país, em 1952 Vargas criou o Banco Nacional do Desenvolvimento (BNDE, que depois passou a se chamar BNDES), com a promessa de financiar junto a iniciativa privada o desenvolvimento econômico do país. E realmente parecia não haver limites para a tacada estatizante de Vargas. Em 1953 nascia a Petrobrás, que chegava para monopolizar a exploração do petróleo sob o lema governista "O petróleo é nosso". Em 1954 foi a vez da Eletrobrás ser fundada.

Durante o segundo governo Vargas uma série de outras estatais, menos conhecidas, também foram inauguradas, numa progressão ainda mais agressiva de controle da produção, da riqueza, do consumo e do emprego no Brasil. De fato, era possível perceber um aumento no investimento de infraestrutura e na oferta de emprego, porém tudo baseado em ações do governo e não da iniciativa privada. O sufocamento cada vez maior dos empresários com a alta carga de imposto não melhorou a imagem de Vargas junto ao setor empresarial. Pelo contrário, fez crescer entre os verdadeiros geradores de emprego no país um sentimento de que o governo estava lhes fazendo de idiotas.

A feroz oposição da UDN

A UDN explorou a insatisfação dos empresários para criticar ferozmente, praticamente todo dia na Câmara dos Deputados, as atitudes do governo Vargas. Alguns deputados udenistas iam mais fundo a faziam críticas pessoais a Getúlio, lembrando suas atitudes no primeiro governo e o chamando de 'ditador' sempre que houvesse oportunidade. Alguns políticos udenistas não conseguiam fazer comentários sobre Vargas sem xingá-lo. Havia um discurso ensaiado entre correligionários mais exaltados da UDN, que afirmavam ser uma ferida aberta no Brasil o fato de "um ditador filho da puta como Vargas não ter sido exilado e ter permanecido com seus direitos políticos". A porta-voz dessa ala mais rebelde da UDN era o implacável e combativo jornalista Carlos Lacerda, que levava esse rispidez para o seu programa diário de rádio.

A pesada briga na Câmara, que deixava os deputados tanto do governo (PTB) como da oposição (UDN) com os nervos à flor da pele por conter palavrões e xingamentos de lado a lado, chegava em algumas votações a culminar com ameaças de confrontos físicos entre os parlamentares. E a disputa ganhou capítulos especiais no dia em que Carlos Lacerda divulgou uma séria denúncia afirmando que o Banco do Brasil estava pagando por meio de propina o também jornalista Samuel Wainer para que o jornal "Última Hora" mantivesse um apoio incondicional ao governo de Getúlio Vargas - Weiner era chamado pelos profissionais da imprensa de "assessorzinho", alegando que seu trabalho sobre o governo não era jornalístico, mas digno de uma assessoria de imprensa.

Com essa denúncia, o clima azedou de vez na política brasileira. A segurança da Câmara dos Deputados passou a impedir que parlamentares do PTB e da UDN se encontrassem nos corredores do Palácio Tiradentes, no Rio de Janeiro, onde funcionava a Câmara, pois passou a ficar comum os políticos dos dois partidos fazerem ameaças de morte uns aos outros (e a preocupação da segurança fazia todo sentido, pois alguns deputados de fato andavam armados e iam para as sessões parlamentares com as suas armas). Porém, todo cuidado não impediu que um acidente de graves proporções acontecesse, porém fora do espaço físico onde os deputados conviviam.

O atentado contra Lacerda

Na madrugada de 5 de agosto de 1954, um homem morreu baleado e outro ficou ferido também a balas em uma rua de Copacabana. O homem morto era o major Rubens Florentino Vaz, da Força Aérea Brasileira (FAB). Já o homem atingido no pé pelos tiros era Carlos Lacerda, o jornalista filiado a UDN, forte opositor de Vargas, e que mais tarde seria eleito deputado federal pelo Rio de Janeiro. O ocorrido abalou de vez as estruturas do governo Vargas. A imprensa - com exceção do jornal "Última Hora" - passou a fazer uma incontrolável pressão para que fosse descoberto o autor (ou os autores) dos disparos, no episódio que ficou conhecido como "O Atentado da Rua Tonelero".


Após uma investigação turbulenta, com vazamentos de informações e tentativas de influenciar o resultado tanto por parte dos parlamentares do PTB (que insinuavam que tudo era uma armação do próprio Lacerda) como da UDN (que afirmava que Vargas queria assassinar seu opositores), a polícia do Rio de Janeiro atribuiu o atentado a Alcino João Nascimento e a Climério Euribes de Almeida. A notícia caiu como uma bomba no colo da bancada do PTB, pois os dois faziam parte da guarda pessoal do presidente Getúlio Vargas.

Imediatamente após a divulgação do relatório da Polícia Civil, a UDN reuniu sua bancada no Palácio do Catete e promoveu um ato exigindo a imediata renúncia do presidente. Ao mesmo tempo, Vargas convocou uma coletiva de imprensa extraordinária no Palácio Tiradentes e, com os jornalistas aglomerados no auditório, declarou que "Lacerda sofreu um tiro no pé", mas que ele, Vargas, havia sofrido "dois tiros pelas costas". O efeito da declaração foi praticamente nulo. Nem os políticos da UDN, nem os empresários, nem a imprensa e nem mesmo os integrantes das Forças Armadas acreditaram na tese de que os seguranças de Vargas agiram por conta própria.

Pela segunda vez começava no Brasil um amplo movimento para retirada de Getúlio Vargas do poder. Mas dessa vez tudo acontecia às claras, para quem quisesse ver. Os membros do governo pareciam ter ficado sem chão, sem forças e sem saber como responder aos ataques dos udenistas no Palácio Tiradentes. Dessa vez, ao contrário dos xingamentos habituais, os deputados da UDN pediam que os deputados do PTB "fossem homens, honrassem as calças que vestiam e exigissem a imediata renúncia de Getúlio Vargas". O que acontecia, de fato, era que os parlamentares petebistas não sabiam como lidar com aquela crise política, pois no fundo muitos deles concordavam com os pedidos da UDN.

O suicídio de Vargas

Enquanto os membros do governo Vargas pareciam não ter mais forças para defender o presidente, a onda de insatisfação aumentava numa progressão impressionante em todo Brasil. Em agosto de 1954, foi divulgado o "Manifesto dos Generais", um documento oficial das Forças Armadas, que reunia a assinatura de 19 generais brasileiros exigindo a renúncia de Getúlio Vargas. Outros manifestos foram publicados em seguida, como o da imprensa, dos intelectuais, dos professores, dos artistas, dos empresários e até mesmo dos políticos, contando, de forma surpreendente, com assinaturas de parlamentares do PTB e do PSD, partidos que Getúlio Vargas ajudou a criar. Tanto os comunistas como os integralistas apoiavam a movimentação pela saída do presidente.

Tornava-se praticamente uma unanimidade no país a necessidade que Vargas renunciasse. Manifestações em várias cidades do Brasil, mas principalmente no Rio de Janeiro, aconteciam pedindo a renúncia do presidente. Então, na tarde do dia 23 de agosto de 1954, Getúlio realizou uma reunião ministerial de emergência para discutir os próximos passos do governo. No entanto, o que o presidente escutou foram pedidos dos seus ministros para que renunciasse à presidência, pois eles acreditavam que a tranquilidade só voltaria após o fim do governo. Vargas transcrevia um documento durante a reunião que dizia: "Já que o ministério não chegou a uma conclusão, eu vou decidir: determino que os ministros militares mantenham a ordem pública. Se a ordem for mantida, entrarei com pedido de licença. Em caso contrário, os revoltosos encontrarão aqui o meu cadáver".

Os ministros se retiraram do Palácio do Catete após uma tensa reunião que só chegou ao seu fim na madrugada do dia 24. Todos eles acreditavam que tudo seria resolvido pelo fato de Getúlio Vargas ao menos ter concordado em se licenciar do cargo de presidente. No entanto, o que eles não sabiam é que Vargas planejava outro desfecho para a crise. Já no começo da manhã daquele 24 de agosto de 1954, Getúlio Vargas acertou um tiro no próprio peito, se suicidando justamente na sede do governo federal. Alguns anos mais tarde, Gregório Fortunato, chefe da guarda pessoal de Vargas, assumiu ser o mandante do crime contra Rubens Florentino Vaz e Carlos Lacerda. Ele afirmou, em depoimento, que não havia recebido ordens do presidente, mas que o crime tinha sido uma decisão própria. Em 1962, Fortunato foi assassinado na prisão pelo também detento Feliciano Emiliano Damas.

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