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Até onde se é permitido ir à direita na Europa? Voilá! A França


Por Willy Marques

Saber distinguir a real substância de uma política do seu discurso retórico cujo qual é utilizado para defendê-la em público é uma necessidade basilar em qualquer análise política séria. E a cada dia que passa, torna-se mais dificultoso ignorar a tendência anti-globalista e anti-establishment desencadeada, primeiro, pela saída do Reino Unido da União Europeia (Brexit) e, depois, pela eleição de Donald J.Trump.

As “surpresas” e os choques dos acontecimentos políticos de 2016 tornaram imperativo entender que os palpiteiros da mídia tradicional – em sua grande maioria de mentalidade progressista – estão preparados para advertir contra o "populismo", essa suposta desordem, a qual eles atribuem, em toda parte, à direita do espectro político.

Porém, o fato é que a acusação de "populismo" é aplicada somente a grande parte dos políticos que estão localizados no espectro político mais à direita, com a implicação de que estão mobilizando paixões perigosíssimas e inadvertidas, que são fáceis de serem difundidas. Em geral, os progressistas tentam vender a narrativa de que os políticos da esquerda ganham as eleições porque são populares, enquanto os de direita – quando as ganham – são porque foram populistas.

Com Geert Wilders na Holanda – recentemente derrotado –, essa tentativa de narrativa não passa de uma espécie de embuste. É verdade que eles podem perturbar o consenso do establishment. É assertivo dizer que eles podem usar o voto popular para derrubar os regimes transnacionais impermeáveis à vontade do povo, e, por conseguinte, até mesmo chegarem a frustrar as expectativas e previsões preestabelecidas pela casta de burocratas localizada em Bruxelas.

Contudo, o que há de notório é que eles têm uma singularidade da qual compartilham, que é: a sua prontidão para reconhecer as vozes que não eram antes permitidas de serem sequer ouvidas no curso da política tradicional. Além da inequívoca ausência de um fragmento de pessoas não se acharem mais representadas pelo sistema político vigente. O fenômeno é novo, bastante complexo e com consequências inquestionáveis para a história da Europa.

O Panorama da atual conjuntura – repleta de teor dramático – pode ser visto de cá, por nós brasileiros, através da composição da mise-en-scène política acirradíssima que ocorre no velho continente. Em meio a isto, grandes nomes foram repelidos e/ou devorados. São os casos de: Nicolas Sarkozy (suplantado por Fillon), Manuel Valls (derrotado por Benoît Hamon) e François Hollande. Sobre este último, existe uma ampla frustração da população francesa com o atual governo - pertencente ao Partido Socialista, Hollande sequer esboçou a possibilidade de uma candidatura à reeleição, muito devido ao baixíssimo índice de aprovação que possui.   

Isto está intrinsecamente ligado à crise migratória que a Europa enfrenta e os inúmeros ataques e atentados terroristas que o solo francês vem sendo um dos palcos principais, como o massacre aos cartunistas e funcionários do jornal satírico Charlie Hebdo; a chacina na boate Bataclan; e mais recentemente uma explosão de uma carta-bomba no escritório do FMI. Junte-se ao conjunto da obra um somatório de mais de 800 feridos e 230 mortos. Estes acontecimentos não são meros frutos do acaso. Conforme pode se observar na imagem abaixo:



Pode-se ver claramente uma rota migratória que usa a Líbia como trampolim para o mar Mediterrâneo e este como fluxo de entrada sem barreiras até a Europa.

Tanto lá como cá, o cidadão francês mediano não possui um fácil acesso a armas de fogo, porém os terroristas e demais criminosos sim. Traçando-se um rápido paralelo com a nossa realidade brasileira, o resultado efetivo do desarmamento dos franceses, previsivelmente seria o mesmo que o nosso. Ou seja, o retrato de uma população indefesa e vulnerável, completamente assustada diante de terroristas que possuem acesso a um arsenal irrestrito. Comprovando o estado indefeso o qual se encontra a França perante o aprofundamento do fundamentalismo radical islâmico e o degenerativo processo do "politicamente correto".

Na iminência da eleição presidencial marcada para o dia 23 deste mês – o evento político mais importante desde a eleição americana -, os grandes debates públicos vêm sendo pautados por temas prioritários: a crise migratória, o islã radical que corrói a harmoniosa vida do individuo com a comunidade e a cultura ocidental, a crise de soberania nacional causada pela UE e a nefasta política de refugiados. E está em debate pelos cinco mais bem posicionados nas pesquisas eleitorais de intenção de voto – a França tem 11 candidatos à presidência –, que, por sinal, estão cada qual numa posição diferente dentro do que se coadunou chamar de espectro político. 


Da esquerda para a direita:
1. François Fillon (centro-direita), moderado e pró-União Europeia;
2. Benoît Hamon (centro-esquerda);
3. Marine Le Pen (direita), sui gerenis;
4. Emmanuel Macron (centrista), progressista;
5. Jean-Luc Mélenchon (esquerda).

Fillon, do partido Les Républicains (Os Republicanos), tem prometido reformas em favor do laissez-faire. Contudo, o presidenciável de disposição conservadora sofre de um revés. Há um processo judicial em curso cujo codinome atende por “Penelope”, o qual faz alusão a sua mulher (Penelope Fillon), que já esta sendo indiciada. No entanto, cabe fazer um adendo: conforme a legislação da França, a prática de empregar familiares não é ilegal.

Porém, de outro ponto de vista – muitos leitores também hão de convir – é preciso reconhecer que o nepotismo é bastante imoral, na qualidade de que sua esposa é acusada de receber mais de 500 mil euros oriundos do cargo que nunca exerceu – o típico caso costumeiramente conhecido por trabalho fantasma. Concomitantemente a isto, o presidenciável diz sofrer constantes perseguições da imprensa, que estaria assassinando a sua reputação diuturnamente com denúncias “infundadas” que perpassam por supostos ternos sob medida pagos por amigos em valores vultosos e vão até casos de corrupção. Diante desses percalços e embaraços, os seus maiores desafios, no entanto, atendem pelos nomes de Marine Le Pen e Emmanuel Macron.

Dos cinco acima listados, na há resquício de dúvidas que Benoît Hamon é o que mais tem contas a prestar, tanto no que diz respeito dentro como fora do Partido Socialista, o qual se lançou candidato. Tendo vencido no segundo turno das primárias o seu adversário político Manuel Valls (cujo qual ainda é uma figura que detém muito peso político, apesar do dissabor da derrota).

O que se distingue e se entende por ético na política? Eis a pergunta. O bom senso indica que o candidato perdedor das primárias interna do partido deve apoiar o vencedor, o que não é este o caso. Valls não fez isso. E esse deselegante ato veio atrelado à declaração de apoio não àquele, mas ao candidato progressista Macron.

De certa maneira, ser candidato do Partido Socialista requer ter como missão unir as alas radicais e moderadas, sobrepor às insatisfações do legado Hollande, vencer o pleito e quiçá “salvar” a França. É fácil constatar o fardo pesado de sobreposto para sua capacidade política incipiente.

(Foto: Robert Pratta / Reuters)

Não se trata de um juízo de valor: ser meramente a favor ou contra, gostar ou não gostar, fazer torcida descarada ou velada. Mas sim de um juízo de realidade. O fato é que a líder da Frente Nacional não esmorece num debate púbico seja com quem for. Com o slogan de campanha Au Nom Du Peuple (Em Nome do Povo), é fácil notar sua aptidão. Marine tem perfeita noção de postura corporal em frente às câmeras, é detentora de uma retórica afinadíssima e precisa. Além disso, emenda frases de efeito uma atrás da outra num desencadeamento estonteante. Não se deixar abater nem sequer perante a masmorra do politicamente correto. Vejamos um conjunto de frases emblemáticas proferidas:

- “A União Europeia proíbe a todos nós, nos pune, adverte e o resultado é o desemprego e a pobreza";

- "O véu é, para mim, um ato de submissão das mulheres" (esse excerto remete ao caso no qual se recusou a utilizar o véu com mufti da República do Líbano, o líder islâmico Abdelatif Derian de Beirute);

- "Temos de recuperar nossas fronteiras nacionais e acabar com a imigração: os franceses estão cansados";

- "Eu quero remover a Assistência Médica do Estado reservada aos imigrantes ilegais";

- "Eu sou a favor da presunção de legítima defesa aos nossos policiais";

- "Nós devemos retornar a um patriotismo econômico, favorecendo empresas francesas nos contratos públicos".

Sob a justificativa de que a líder da Frente Nacional estava "promovendo o ódio", ao denunciar em 2015, pelo Twitter, atrocidades cometidas pelos terroristas do EI (Estado Islâmico), cujo conteúdo são três imagens mostrando os corpos de reféns como o do americano James Foley (decapitado), de outro homem com a indumentária laranja debaixo de um tanque e mais outro trajado da mesma forma sendo queimado dentro de uma jaula (!) – essas vítimas de tal brutalidade nem ao menos tiveram a escolha para um coupe de grâce. Nesse ínterim, o Parlamento Europeu revogou a imunidade da deputada. Sendo facilitada a impetração de uma ação contra a líder da Frente Nacional, Le Pen pediu a imediata suspensão das investigações até que o pleito seja devidamente consumado, sob a arguição de que a ação judicial é um entrave em sua campanha e que a justiça está instrumentalizada.

(putnik/Mikhail Klimentyev/Kremlin via REUTERS)

Seu principal diferencial dos outros candidatos consiste na proposição da realização de um referendo acerca da saída da UE (“Frexit”), conforme decidiram os britânicos (Brexit) em julho de 2016. O tema: a relação com a Rússia não fica de fora, fazendo se desenhar uma possível aliança.

E as peças do tabuleiro global vão sendo mexidas e/ou consolidadas em suas posições. A candidata francesa esteve com Putin, supostamente discutindo sobre os mais recentes atentados terroristas que afligiram a Europa, dentre outros assuntos de interesse mútuo. Conforme nota transcrita abaixo:

“Com o presidente russo, Vladimir Putin, temos evocado longamente a situação internacional e o terrorismo. Também temos trocado sobre o destino dos cristãos do oriente, ameaçados diariamente pelos fundamentalistas islâmicos.”

O fato é que as elites que governam a União Europeia são compostas em grande parte pela esquerda progressista e pró-islâmica, que está em pânico com o crescimento da Le Pen - e querem pará-la de todos os modos.

Foto de um protesto organizado no dia 20 de março pela esquerda e por imigrantes em Paris, contra a atuação da deportação de imigrantes ilegais (essa cabeça que o rapaz segura como bandeira hasteada é a cabeça de Marine Le Pen). Em sua grande maioria, estas transgressões sociais travestidas de protestos são financiadas pela Fundação Rockefeller, Open Society (George Soros), pela Fundação Ford e pelos Rothschilds.

O fundador do Movimento En Marche! fez fortuna no mundo dos negócios a serviço dos globalistas como “Rothschilds & Cia”, e com o seu tom ensaiado e melodioso propõe as seguintes medidas caso venha a se tornar presidente:

1- Manter a idade da reforma nos 62 anos - ao contrário da sua adversária que quer baixá-la para 60;
2- Reduzir a taxa de imposto sobre as empresas de 33,3% para 25%;
3- Um corte de 120 mil funcionários públicos;
4- Pretende realizar uma redução de 50% na produção de energia nuclear;
5- É aberto sobre a política de “refugiados” e defende a integração de muçulmanos à cultura francesa, a despeito da corrosão dos valores que vem sendo solapados pelo prisma cultural;
6- Oferece uma “aparente” proposta mais liberal para a economia com a venda das participações estatais em várias empresas que preferiu não nomear;
7- Sobre casamento homossexual e aborto, prefere não comentar. 

Foto: Robert Pratta/Reuters

A dois dias da eleição, o último dos cincos candidatos mais bem posicionados ainda acredita em aplicar velhíssimos chavões da esquerda entre a necessidade da aliança dos proletários e campesinos, frases e promessas vagas como “La fête est terminée si c’est moi qui arrive” (em tradução livre, “a festa acaba se eu for eleito”), colocando todos os “vigaristas” detentores do capital para “trabalhar”. Ou seja, a mesma fórmula usada na eleição de 2012. Mélenchon deixou o Partido Socialista em 2008 para fundar o seu próprio partido (Parti de Gauche). O nome, praticamente, diz tudo. No fundo, Mélenchon prega aos convertidos. E ele sabe bem disso.

Enquanto a esquerda daqui defende ainda com empenho o maléfico Estatuto do Desarmamento (em vigência desde 2004), um dos candidatos da extrema-esquerda (Philippe Poutou), pelo novo Partido Anticapitalista, vai além – e tenta correr por fora – defendendo como bandeira o desarmamento policial como solução para diminuir a taxa de criminalidade (?!), voilà! A França também tem o seu Marcelo Freixo alçado à disputa presidencial (tentando não rir disso). Só nos resta saber se a Avenue dês Champs-Élysées está bem iluminada (tentando não rir disso novamente).

O pleito é indubitavelmente o mais imprevisível e marcado por reviravoltas dos últimos 50 anos da história francesa. Para os que ainda acreditam em pesquisas de intenção de voto, estas indicam quádruplo empate técnico, mas com um plausível segundo turno entre Le Pen e Macron.

A verdade inequívoca é a constatação de que a alternância de trinta e seis anos no poder entre (PR e PS) fez um grande mal-estar. Mais a insatisfação popular e o atentado ocorrido nesta quinta, 20 de abril de 2017, criaram uma atmosfera favorável para a candidata sui generis sagrar-se presidente, o que porventura, se ocorrer, contará com o desapoio irrestrito da "beatiful people" do show business, da intelligentsia e do rebanho humano composto pela militância aguerrida e arruaceira.

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