Expresso News

[expresso-news] [twocolumns]

Colunistas

[colunistas][bleft]

Entrevistas

[entrevistas] [twocolumns]

Economia

[economia] [bsummary]

Especialista do agronegócio faz alerta para que não manchem um setor inteiro por conta dos corruptos


Por Nivia Junqueira

A terça-feira foi um dia para o Brasil aparar algumas arestas no que tange à operação Carne Fraca deflagrada pela Polícia Federal. A própria PF veio a público esclarecer que houve, de fato, um exagero na divulgação das operações criminosas. De antemão aos esclarecimentos do que realmente aconteceu, o povo brasileiro mergulhou numa profunda dúvida a respeito da qualidade da carne consumida no país. Por isso, O Congressista realizou essa entrevista com um especialista do setor para trazer mais detalhes a respeito do agronegócio brasileiro.

Com larga experiência no mercado da carne, Arnaldo de Sousa é formado em jornalismo e iniciou sua experiência como assessor de imprensa numa agência que presta serviços a empresas do agronegócio. Após um tempo nessa função, se especializou no mercado internacional de produtos agropecuários, além de ter sido apresentador do Canal Rural, assessor da presidência da Sociedade Rural Brasileira (e ter escrito um livro sobre os 90 anos da instituição), ter trabalhado na agência de notícia Reuters, ter sido correspondente do portal Meatingplace. Arnaldo também possui MBA de Gestão Estratégica em Agronegócios pela FGV e de Economia pela Fipe/USP.

Sem criticar a Polícia Federal, mas fazendo algumas ressalvas sobre a operação, Arnaldo lembra os profissionais sérios que fazem parte do setor de carne no Brasil, que não se vendem para a propina da política e que por isso não devem ser misturados no lixo daqueles corruptos que são, no final das contas, os verdadeiros culpados por toda essa celeuma. Confira o bate-papo:

O Congressista: Arnaldo, primeiramente, você poderia nos contar um pouco da sua experiência na área de agronomia e pecuária?

Arnaldo de Sousa: Me formei em jornalismo em 1994, portanto tenho 23 anos de carreira. Logo que me formei fui para uma assessoria de imprensa, a Texto, e comecei a aprender o que é o agronegócio (expressão criticada pelos ambientalistas que representa a produção dentro da porteira - boi, frango, suíno, soja, milho, alface, tomate, etc) e fora da porteira (industrialização dos produtos, negócios, enfim, o business do agro), diferente da agropecuária (que representa tudo que é agricultura e tudo que é pecuária).

Logo me identifiquei com o setor, pois venho de uma criação humilde, meio rústica. E pra andar na roça tem que ter um pé no chão batido (risos). Fiquei alguns anos em assessoria do Grupo Perdigão (hoje BRF). Escrevi para várias revistas do setor cobrindo de feijão a política agrícola, de transporte agrícola a economia agrícola, na qual sou especialista.

Me especializei em commodities agrícolas internacionais, no mercado de café internacional e no mercado da carne internacional. Fui apresentador do Canal Rural, trabalhei na maior agência de notícias do mundo, a Reuters, e fui correspondente internacional para o portal The Meatingplace, dos Estados Unidos. Fui assessor da presidência da Sociedade Rural Brasileira, onde escrevi o Livro "90 anos da SRB".

Posso dizer que conheço generosamente bem o setor do agronegócio brasileiro. Conheci de perto o agrobusiness norte-americano, no qual fui ao Meio-Oeste nos Estados de Illinois e Iwoa, região muito próspera dos Estados Unidos.

OC: Como você, com tanto tempo de experiência nesta área, caracteriza a qualidade do mercado de carnes bovinas e suínas no Brasil? Qual a diferença entre a carne do mercado interno e externo?

Arnaldo: Diferença nenhuma. A nossa carne in natura, ou seja, a carne fresca, é idêntica. Comemos o mesmo tipo de alimento que é consumido no mundo todo. Há alguns países que precisam de algumas exigências técnicas para que o consumidor deles aceitem o sabor da carne. Algum conservante ou corante natural que pedem. Isso pode diferenciar. Por exemplo, a carne bovina para o paladar japonês é diferente do brasileiro. Então, os detalhes técnicos é que vão diferenciar o sabor. O Japão consome mais marmoreio (quantidade de gordura no meio da carne).

A carne suína é diferente da carne de porco. Um suíno é tratado com ração diariamente. Seu abate é de suíno jovem. Durante o processo de engorda, o animal recebe todo o tratamento adequado, é acompanhado por uma equipe veterinária. Já o porco criado na roça come o que? Lavagem. Tem acompanhamento de veterinário? Só se for parir - no caso uma porca. Esse não tem qualidade alguma. Mas comer porco na roça e comer um corte de suíno do supermercado de uma marca reconhecida não tem problema sanitário algum.

Já a carne bovina brasileira é de pastoreio. Criada a pasto pelo menos no regime de engorda. Temos confinamentos no Brasil, muitos frigoríficos continuam pra ter carne o ano todo. Nossa exportação é mista de carne de animais criados a campo e de confinamento. Nossa carne de consumo interno e de exportação é de altíssima qualidade, sem dever nada a ninguém do hemisfério Norte ou Sul.

Faço um adendo ao consumo de carne em açougues que para "mascarar" o preço acabam comprando carne de abates clandestinos. Isso existe ainda hoje, mas é um problema de fiscalização. Recomendo comprar carne embaladas dos supermercados ou perguntar qual é a origem.

OC: É possível papelão na carne? Com que intuito fazem isso e quais modificações na carne eles esperam alcançar? Quanto ao ácido, no seu tempo de trabalho, tinha conhecimento sobre o uso desse tipo de produto? Você tem algum conhecimento de possíveis contaminações e o risco à saúde?

Arnaldo: Vamos lá. O papelão em questão era se deveriam usar como embalagem. Fizeram uma edição nas TV's em que suprimiu-se a palavra embalagem. Isso ninguém vai saber como e por quê. Logo não há e nunca houve a intenção de encher linguiça com papelão. Absurda a ideia.

Quanto ao ácido ascórbico (vitamina C, aquela que tomamos pra gripe), é comum na utilização de processo de frigorificados. Nunca para mascarar carne imprópria ao consumo. Se houve esse mascaramento da carne imprópria e se houver comprovação, punam-se os culpados e bora que o mundo é nosso.

OC: Nos anos em que trabalhou nesta área, você viu muitas coisas ilegais e/ou que põem em risco a saúde da população?

Arnaldo: Como citei, o abate clandestino - e a fiscalização nos açougues deve ser rigorosa. Vejo açougues com moscas, gente manuseado carne sem luvas, cortes feitos sem critérios. Muito deve ser feito. O cidadão deve denunciar às autoridades o que ele perceber. Não basta só reclamar.

OC: Muito tem se falado e discutido sobre a forma em que foram divulgadas as apurações da Polícia Federal, pela mídia e pela própria Polícia. Na sua opinião, em que ponto a mídia e a PF erraram?

Arnaldo: Na comunicação. De certa forma, algumas "otoridades" quiseram ter seus minutinhos de fama e foi um verdadeiro desastre. Criar um canal de comunicação entre a PF e o Ministério da Agricultura ninguém quer. Alardear aos quatro ventos é melhor, depois todo mundo corre atrás dos papeis jogados ao vento. Só que a atitude dos PF foi catastrófica.

Essa autonomia da PF em investigar ajuda por um lado. Acredito que o Congresso Nacional poderia criar uma Lei para a divulgação das Polícias. Divulgação de investigação não ajuda. Só atrapalha. Se antes de divulgar fizessem um trabalho de fechar três frigoríficos e suspender preventivamente outros 21, seria um escândalo, porém menor. Seria um trabalho administrativo. E o mercado Internacional ficaria mais aliviado. Aí veicula-se partes da investigação que não tem nexo. Não foi nada profissional. Tanto é que os delegados que denunciaram não atendem mais a imprensa. Deu ruim pra eles. Vão ter que se explicar internamente.

OC: Como você acredita que isso poderia ter sido evitado?

Arnaldo: Esse é um crime de corrupção e não da qualidade da carne. Afasta-se imediatamente os fiscais federais nocivos. Suspende-se as autorizações de exportações das unidades envolvidas. Manda pra Polícia Civil os inquéritos, punam os responsáveis. A coordenação feita pelo Governo foi certinha. Presidente se reuniu com a cadeia da carne, depois com os representantes dos consulados e as empresas soltando notas técnicas e tranquilizando a população.

OC: Você acha que o mercado será prejudicado a longo prazo? Ou que isso vai ser resolvido, fazendo as vendas e as exportações voltarem aos patamares que já estavam?

Arnaldo: Não acredito (no prejuízo do setor). Nós negociamos carnes de seis a doze meses de antecedência. Alguns contratos são de cinco anos. Ninguém quebra contrato assim da noite pro dia. Podem sofrer os futuros contratos ou os que estão em início de negociação.

OC: Você acredita que a imagem da Polícia Federal, em meio a tantas investigações bem sucedidas, pode ser prejudicada após essa operação?

Arnaldo: Não. Acredito na Instituição Polícia Federal. Temos poucos policiais federais para cobrir nosso Brasil. Em várias frentes. O governo deveria criar uma forma de fiscalizar os fiscais. Auditoria sistemática, uma corregedoria interna ou mesmo pedir ajuda jurídica para o ministério da Justiça pra que tenhamos um trabalho bem feito no âmbito da fiscalização Federal nas empresas de abate animal. Nos portos também tem que ter fiscalização dos fiscais.

O Congressista agradece imensamente a atenção que Arnaldo de Sousa prestou para atender nossa colunista Nivia Junqueira na realização desta entrevista!

Nenhum comentário:

Os comentários ofensivos e anônimos serão apagados. Daremos espaço à livre manifestação para qualquer pessoa desde que não falte com o respeito aos que pensam diferente.