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Deuses Americanos – eles caminham entre nós


Por Kleryston Negreiros

Um tipo de narrativa que sempre me agradou muito é o realismo fantástico. É um enredo que me leva à origem do meu gosto literário e que foi precursor de tudo que sou hoje: as histórias em quadrinhos. Todo esse universo de seres poderosos interagindo com os homens comuns, contado de forma a parecer natural e aceitável um homem poder voar ou lançar raios dos olhos ou das mãos é inventivo e excitante. Porém, nunca entendi o porquê de autores dessa lavra não migrarem para a literatura formal, haja visto que eles têm bastante a mostrar. Mas nem todos ficaram presos ao universo das HQs. Um, dentre todos, transitou por esses dois universos de forma brilhante. Seu nome? Neil Gaiman.

Autor de obras premiadas no universo dos quadrinhos – o mais famoso, Sandman, conta a história do senhor do mundo dos sonhos e seus irmãos, os Perpétuos – também enveredou para a literatura adulta trazendo narrativas que nos colocam entre esse mundo mágico de criaturas míticas e o real de forma a parecer natural a fusão dessas duas realidades. Alguns dos seus romances, inclusive, já foram transpostas para o cinema (Stardust e Coraline) e agora, mais uma obra ganhará as telas, na forma de série dessa vez: o livro Deuses Americanos.

Na trama, o ex-detento Shadows sai da prisão após a morte de sua namorada e de seu melhor amigo. Ainda atordoado ao descobrir que eram amantes, ele volta para sua cidade a fim de tratar do funeral dela. E é nesse voo que sua vida muda ao aceitar o emprego de “faz tudo” do misterioso Mr. Wednesday (uma das identidades de Odin), já que ele se vê, de repente, envolvido numa guerra entre os deuses mitológicos antigos e os novos deuses.

Shadows então é levado por Wednesday por todo os EUA a procura dos deuses antigos trazidos pelos primeiros colonos para formarem com ele um exército na tentativa de vencer os deuses atuais (tecnologia, televisão, dinheiro) resgatando o culto aos mais velhos. Como esses seres primordiais estão esquecidos, eles passam a viver nas periferias, margeando estadas secundárias, morando em bairros afastados ou em cidades esquecidas, tendo que sobreviver trabalhando como mortais normais e envelhecendo como nós.

Não contarei mais para não estragar a surpresa. Quero, na verdade, falar do que trata o livro como pano de fundo, que é a tradição. A obra fala do abandono das tradições antigas e a valorização de coisas efêmeras do mundo moderno. Por trás de uma realidade fantástica onde homens e deuses convivem, onde o mundo real é separado do mundo místico por um pequeno véu e esses dois mundos se cruzam a todo instante, há uma narrativa que diz: “olha, estamos abandonando o que fez de nós aquilo que somos e estamos fadados a desaparecer nesse mundo novo e barulhento”.

Na narrativa o que faz esses seres místicos, tão poderosos no passado, virarem velhos decrépitos e que lutam a todo custo por sua sobrevivência é justamente o abandono de suas crenças. Tomando por base deuses de mitologias pré-cristã, o autor mostra o que acontece quando abandonamos nosso passado. A obra nos leva a pensar em como abandonamos por novidades, muitas vezes superficiais, aquilo que fez de nós o que somos. Ao mostrar como esses deuses chegaram a América junto com seus colonizadores e como eles continuaram sendo cultuados no início, ele conta como foi a formação de um povo nascido da miscigenação. Ao mostrar o que resta deles após séculos de colonização e o esquecimento desses anos primordiais por seus descendentes, mostra o risco de se destruir as raízes que fazem um país ser o que é.

Numa época em que o conservadorismo e a valorização das tradições começam a tomar corpo novamente, numa época em que o multiculturalismo é questionado na Europa e o discurso conservador de Trump causa arrepios nos modernosos de Hollywood e da imprensa local, esse livro pode ser visto como um manifesto (a seu modo) do renascer das tradições, tanto lá fora quanto aqui.

O romance é uma obra de realismo fantástico, ambientada num mundo irreal, e esse é o papel da literatura: a partir do fantástico ou maravilhoso nos fazer perceber o mundo real a nossa volta. Através de uma fábula que mistura mitologia e realidade, é possível analisar nossos tempos, tempos esses que exigem um posicionamento mais firme daqueles que defendem suas tradições e faz de nós o que somos. E tomando emprestado o pensamento de Roger Scruton, esse livro mostra como é difícil construir um legado - e como é muito fácil destruí-lo. Até a próxima.

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Kleryston Negreiros é professor e administra o blog Professor, Me Indica um Livro? 
Também é membro do grupo Biblioteca Liberal-Conservadora

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