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Sabe aquele disseminado incentivo ao desperdício de alimentos gerado pelo Capitalismo? É falácia!

Por Vinicius Campos

Há alguns dias, em um momento de tédio qualquer, rolava a timeline do Facebook despretensiosamente em busca de um bom texto para ler, até que me deparei com a curiosa imagem abaixo:



A imagem supõe, através de um raciocínio lógico e usando alguns princípios da lei de oferta e demanda que, se o empresário jogar fora parte do produto que produziu o mesmo aumentará o preço de seu produto, o que o levará a aumentar seus lucros, como já ocorreu na história do Brasil, por exemplo (falaremos sobre o caso pouco mais à frente). Para agravar a situação, o exemplo retrata o setor alimentício, com desperdício ocorrendo em paralelo ao alto número de pessoas que passam fome por falta de condições. Em síntese, a busca pelo lucro nos leva a dispensar alimentos enquanto muitos passam fome, o que serve de sustentação para abominar o capitalismo. De fato, se não houvesse algumas variáveis ocultadas neste raciocínio simplista.

Para analisarmos tal fato, precisamos entender alguns conceitos. Se a oferta reduz, o preço tende a subir. Mas nem por isso o lucro sobe também, haja vista que, para isso, dependerá da elasticidade demanda do produto e se o mesmo possui produtos substitutos. Se o produto é essencial será inelástico, ou seja, a demanda varia pouco de acordo com o preço, o que nos leva a concluir que o lucro aumentará. Já no caso do produto com demanda elástica e com muitos substitutos, a tendência é que o lucro se mantenha ou até mesmo se reduza, porque ou o produto deixa de ser consumido ou é substituído.

Então, se um produto é essencial, inelástico e com poucos substitutos, em regra, a redução de oferta leva a um aumento de lucro. Entretanto, há de se considerar que a produção deste gera custo, e assim havendo, só poderíamos supor que o desperdício visando o lucro poderia existir caso houvesse um erro de cálculo de demanda anterior, pois, se a redução de oferta gera lucro, esta poderia ser orquestrada antes de produzir, evitando os custos.

Logo, o desperdício ocorreria se o empresário errasse o cálculo de preço médio e de demanda. Mas, até aqui, estamos considerando um setor monopolizado, percebe? Se o setor detém concorrência, o erro de cálculo não seria de um empresário em específico, e sim de um setor inteiro. Desta forma, disseminaria em um desespero por recuperar os prejuízos.

Se um dos empresários, resultante de uma má ideia, destruísse metade de sua safra para tentar aumentar o preço, não seria minimamente razoável supor que os demais concorrentes do setor mantivessem o mesmo preço para desovar o estoque? Quem, no final das contas, sairia no prejuízo?

Mas, e se todos se juntassem e cada um destruísse metade de seu estoque, para que todos lucrem? Aqui há um risco real. Mas imagine o seguinte: Você está na eminência de reduzir seu lucro drasticamente ou até mesmo sair no prejuízo. Há desta forma uma enorme tentação de descumprir este acordo para vender todo seu estoque e evitar o prejuízo, não é mesmo? E essa hipótese não é nenhuma loucura. Existe uma teoria em específico que trata disso, chamada de "Teoria dos Jogos", de Nash.

“Tudo bem”, diria o leitor, “isto tudo faz sentido, mas isso já ocorreu na história, inclusive do Brasil. Como pode ser possível?” Pois bem, vamos à um caso emblemático marcado nos livros de história do Brasil. Abaixo, um trecho narrado pelo economista Cepalino Celso Furtado, um ferrenho desenvolvimentista estatal:

“A economia cafeeira no Brasil se estabelece devido à desorganização da produção de café pela colônia francesa do Haiti, aumentando seu valor. O Brasil, desde o século XVIII, já possuía plantações para uso interno e, nos dois decênios que se seguiram, o produto passa a ter a importância de 40% da pauta exportadora do país. 

A etapa de gestação da economia cafeeira é também a de formação de uma nova classe empresarial brasileira. Com a transformação nos hábitos de consumo, principalmente na cidade do Rio, devido ao fato da chegada da corte portuguesa, o abastecimento do mercado por este produto passou a constituir a principal atividade econômica dos núcleos de população rural que se haviam localizado no sul da província de Minas como reflexo da expansão da mineração. O comércio de gêneros e de animais para o transporte desses constituía nessa parte do país a base de uma atividade econômica de certa importância, e deu origem à formação de um grupo de empresários comerciais locais. Muitos desses homens, que haviam acumulado algum capital no comércio e transporte de gêneros e de café, passaram a interessar-se pela produção deste, vindo a constituir a vanguarda da expansão cafeeira. 

Ao contrário dos empresários açucareiros, os empresários cafeeiros tinham interesses comerciais e produtivos entrelaçados. Viam no governo um forte instrumento de ação econômica. Participaram ativamente da política e a usaram para alcançar seus objetivos.” 

Notem o seguinte. O café, nesta época, era monopolizado por pessoas que detinham o poder político do Brasil. Eles praticavam políticas em benefício de uma economia que girava em torno do café, independente se havia algo mais rentável para o país. Depreciaram a moeda, tirando o poder de compra da população por várias vezes apenas para reduzir o preço do café em moedas estrangeiras e manter seu próprio lucro. O que há de capitalismo nisso? Nada, além da manipulação do capitalismo pelo poder público.

Mas, isto ainda não é o que ocorreu de mais absurdo. Desde de 1893 existem problemas com o mercado internacional de café, onde os preços começam a declinar. O governo, visando “proteger” o setor cafeeiro, firma o Convênio de Taubaté onde, financiado com empréstimos no exterior compra o excedente de café sobre o pretexto de estar protegendo a economia nacional. Grosso modo, acomoda os cafeeiros, sem que estes procurem produzir o que o mercado realmente necessita, e financia o lucro privado com endividamento público que, obviamente, teria de ser pago pela população de diversas formas. Como os lucros permaneciam altos, indicava, falsamente, que havia demanda por café, e a produção aumentava, pressionando ainda mais os preços para baixo.

A política de compra de excedente dura até a grave crise de 1929, dificultando a obtenção de crédito para manter o arranjo. A solução, obviamente, seria abandonar as produções de café (aliás, já deveria ter sido feito há muito tempo), e iniciar o processo de industrialização. Mas o governo não iria “desamparar” os cafeicultores, claro. Este, mesmo com recursos captados no exterior muito mais caro, permanece financiando os estoques que se expandiam aceleradamente. Estoques estes, agora, invendáveis.

O governo, então, tem uma brilhante ideia: queimar todo o excedente de café para manter uma oferta menor e se elevar os preços. O excedente do café queimado, neste caso, não gerou prejuízo aos produtores, visto que foi comprado pelo poder público, o que acarreta em incentivo a negligência no cálculo da demanda. No caso do mercado, essa negligência levaria os empresários ao prejuízo, incentivando uma estimativa de demanda mais precisa.

Logo, observa-se total irracionalidade econômica. Se o Estado não financiasse o lucro privado estes empresários estariam quebrados. O mercado apontava para falta de demanda de café e indicava que algo deveria ser produzido em seu lugar, haja vista que tal produto não seria mais consumido. E por que isso não ocorreu? Porque, por uma distorção gerada pelo Estado em seu próprio benefício, as informações de mercado era a de que o lucro do café só aumentava e havia necessidade de aumento de demanda, até que a solução chegou ao desperdício.

Não é difícil concluir que jogar alimentos fora é irracional, do ponto de vista de quem produz. Concluo com a seguinte pergunta: o que gera desperdício, um sistema econômico que visa a eficiência produtiva ou alguns gananciosos que, visando enriquecimento, usam o próprio poder para corromper tal sistema?

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