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As diferentes ideologias sob a ótica anarco-capitalista; por Murray Rothbard


Por Murray Rothbard
Trecho do livro "Esquerda e Direita: Perspectivas para a Liberdade"

Tendo substituído o anarco-capitalismo como o partido da “esquerda”, o socialismo, por volta da virada do século, viu-se prisioneiro dessa contradição interna. A maioria dos socialistas (fabianos, lassallianos e até marxistas) desviou-se bem depressa "para a direita", abandonando por completo as antigas metas e ideais libertárias de revolução e definhamento do estado. Tornaram-se confortavelmente "conservadores", conciliados para sempre com o estado, o status quo e toda a aparelhagem do neomercantilismo, do capitalismo monopolista de estado, do imperialismo e da guerra, que rapidamente era introduzida e cravada na sociedade europeia com a chegada do século XX.

Porque também o conservadorismo, por sua vez, reformara-se e reaglutinara-se para tentar enfrentar o sistema industrial moderno, e convertera-se num mercantilismo renovado, um regime de estatismo caracterizado pela cessão pelo estado de privilégios de monopólio (sob formas diretas e indiretas) a capitalistas protegidos e a proprietários de terra quase feudais. A semelhança entre o socialismo de direita e o novo conservadorismo tornou-se bastante estreita, o primeiro defendendo programas similares aos do último, mas com um demagógico verniz populista. Assim, o outro lado da moeda do imperialismo passou a ser o “imperialismo social”, mordazmente definido por Joseph Schumpeter como “um imperialismo em que os empresários e outros elementos seduzem os operários por meio da concessão de benefícios sociais que parecem depender do sucesso da política monopolista de exportação...”.

Há muito tempo os historiadores reconheceram a afinidade e a grande proximidade entre o socialismo de direita e o conservadorismo na Itália e na Alemanha, onde a fusão dessas tendências concretizou-se pela primeira vez no bismarckismo e, em seguida, no fascismo e no nacional-socialismo – tendo o último implementado o programa conservador de nacionalismo, imperialismo, militarismo, teocracia e um coletivismo de direita que manteve, e até consolidou, o domínio das classes privilegiadas tradicionais.

Mas só recentemente os historiadores começaram a se dar conta de que um arranjo semelhante teve lugar na Inglaterra e nos Estados Unidos. Assim, Bernard Semmel, em sua brilhante história do movimento social-imperialista na Inglaterra na virada do século, mostra como a sociedade fabiana viu com bons olhos a ascensão dos imperialistas na Inglaterra. Quando, em meados da década de 1890, o Partido Liberal dividiu-se na Inglaterra entre radicais, à esquerda, e liberal-imperialistas, à direita, Beatrice Webb, uma das líderes dos fabianos, acusou os radicais de “adeptos do laissez-faire e anti-imperialistas”, ao mesmo tempo em que aclamava os segundos como “coletivistas e imperialistas”.

Um manifesto fabiano oficial, "O Fabianismo e o Império" (Fabianism and the Empire), de 1900, redigido por George Bernard Shaw (que mais tarde, com absoluta coerência, exaltaria as políticas internas de Stalin e de Mussolini e de Sir Oswald Mosley), enalteceu o imperialismo e atacou os radicais, que “ainda se aferram aos ideais de fronteiras rígidas do republicanismo individualista (e da) não-interferência”. Em contraposição, “uma Grande Potência... deve governar (um império mundial) no interesse da civilização em seu conjunto”.

Depois disso, os fabianos colaboraram estreitamente com os tories e os liberais-imperialistas. De fato, no final de 1902, Sidney e Beatrice Webb constituíram um pequeno grupo secreto de consultores especializados chamado “Os coeficientes” (The Coefficients). Na qualidade de um dos dirigentes desse clube, o imperialista Tory Leopold S. Amery escreveu, reveladoramente: “Sidney e Beatrice Webb estavam muito mais empenhados em ter suas ideias sobre o estado previdenciário postas em prática por quem quer que estivesse em condições de ajudar, mesmo na mais modesta escala, que com o triunfo próximo de um Partido Socialista declarado... Não havia, afinal, nada de tão extraordinário – como o demonstrou a própria carreira de (Joseph) Chamberlain – numa combinação de imperialismo nas questões externas com socialismo municipal ou semi-socialismo no âmbito interno”.

Outros membros do grupo “Os coeficientes”, o qual, nas palavras de Amery, deveria atuar como um “conselho de especialistas ou estado-maior” em relação ao movimento, foram o liberal-imperialista Richard B. Haldane; o geopolítico Hal-Ford J. Mackinder; o imperialista e germanófobo Leopold Maxse, editor da National Review, o socialista e imperialista Tory Viscount Milner; o adepto do imperialismo naval Carlyon Bellairs; o famoso jornalista J. L. Garvin; Bernard Shaw; Sir Clinton Dawkins, sócio do Morgan Bank; e Sir Edward Grey, o primeiro a esboçar, numa reunião do clube, a política de entente com a França e a Rússia, a qual viria a ter por resultado a Primeira Guerra Mundial.

A célebre traição dos ideais tradicionais de pacificismo revolucionário pelos socialistas europeus, e mesmo pelos marxistas, durante a Primeira Guerra Mundial, não deveria ter causado surpresa alguma. O apoio dado por cada um dos partidos socialistas a seu “próprio” governo nacional durante a guerra (com a honrosa exceção do Partido Socialista de Eugene Victor Debs, nos Estados unidos) foi a materialização final do colapso da esquerda socialista clássica.

Daí por diante, socialistas e quase-socialistas aliaram-se a conservadores num amálgama básico, aceitando o estado e a economia mista (i.e., o neo-mercantilismo, o estado previdenciário, o intervencionismo ou o capitalismo monopolista de estado – todos, afinal, meros sinônimos a expressarem a mesma realidade essencial). Foi em reação a esse colapso que Lênin emergiu da Segunda Internacional para restaurar o marxismo revolucionário clássico, numa revitalização do socialismo de esquerda.

O que importa, é claro, não é o fato de que esses homens foram produto de alguma “conspiração fabiana”, mas, ao contrário, que o fabianismo, por volta da virada do século, era um socialismo a tal ponto “conservadorizado” que se alinhava compactamente às outras correntes neoconservadoras dominantes na vida política inglesa. De fato, Lênin, quase sem o saber, fez mais que isso. É sabido que os movimentos “purificadores”, ávidos por retornar a uma filosofia clássica depurada de adulterações recentes, avançam em geral além das teses das fontes originais.

Havia, na verdade, traços “conservadores” bem marcados nos escritos dos próprios Marx e Engels, que muitas vezes justificaram o estado, o imperialismo ocidental e o nacionalismo exacerbado; e foram esses aspectos, segundo as opiniões ambivalentes dos mestres na matéria, que forneceram a base racional para a posterior transferência da maioria dos marxistas para o campo “social imperialista”. O campo de Lênin tornou-se mais de “esquerda” que o dos próprios Marx e Engels.

Lênin assumiu uma postura inegavelmente mais revolucionária em relação ao estado e, de forma coerente, defendeu e apoiou movimentos de libertação nacional contra o imperialismo. O movimento leninista foi mais “esquerdista” também sob outros importantes aspectos. Pois, enquanto Marx centrara seu ataque sobre o capitalismo de mercado per se, Lênin concentrou sua atenção sobretudo no que concebia como as etapas mais avançadas do capitalismo: o imperialismo e o monopólio.

Estando a atenção de Lênin muito mais voltada, na prática, para o monopólio de estado e o imperialismo que para o capitalismo de laissez-faire, seu enfoque tornava-se assim muito mais aceitável para os libertários que o de Karl Marx. O fascismo e o nazismo representaram o ápice alcançado, em alguns países, pela guinada moderna rumo ao coletivismo de direita no âmbito dos negócios internos. Tornou-se costumeiro entre libertários – do mesmo modo, na verdade, que entre o Establishment do Ocidente – encarar o fascismo e o comunismo como fundamentalmente idênticos. Mas, embora ambos fossem sem dúvida coletivistas, apresentavam enorme diferença em seu conteúdo socioeconômico.

O comunismo constituiu um movimento revolucionário genuíno, que desalojou e destronou de modo implacável as elites dominantes estabelecidas, ao passo que o fascismo, ao contrário, consolidou no poder as classes dominantes tradicionais. O fascismo foi, portanto, um movimento contrarrevolucionário, que cristalizou um conjunto de privilégios de monopólio sobre a sociedade; em suma, representou a apoteose do moderno capitalismo monopolista de estado. E foi por essa razão que se provou tão atraente (o que nunca ocorreu com o comunismo, é claro) aos grandes interesses empresariais do Ocidente – e isto de maneira aberta e despudorada ao longo da década de 1920 e no início da de 1930.


Nota de O Congressista: o texto acima não representa a opinião do site, no entanto sua publicação se deve ao compromisso de O Congressista de trazer esclarecimentos acerca das correntes de pensamentos que não são apresentadas aos brasileiros, principalmente nas universidades, pelo fato dos responsáveis privilegiarem apenas algumas poucas ideologias. Neste trecho do livro "Esquerda e Direita: Perspectiva Para a Liberdade", Murray Rothbard apresenta sua visão, sob a ótica do anarco-capitalismo, para falar das demais ideologias e como ele enxergou o processo de cada uma delas ao longo dos últimos séculos.

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