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A mensagem de Adam Smith na linguagem atual; por Friedrich Hayek


Por Friedrich Hayek
Publicação original: Lib-Conservatism
Tradução: Guilherme Cintra

Durante os 40 curiosos anos em que eu tenho ensinado história da economia, eu sempre tenho achado as palestras sobre Adam Smith particularmente difíceis de realizar.

No momento em que se chega a ele, tem-se mostrado que a maioria dos insights decisivos em questões técnicas que hoje constituem a espinha dorsal da teoria econômica, os problemas de valor e distribuição do dinheiro, têm sido alcançados uma geração antes dele, e que ele ainda nem sempre tinha apreciado a importância desses trabalhos anteriores. E ainda, como a maioria dos outros economistas, eu sentia fortemente e queria muito transmitir que ele era o melhor de todos, não apenas em influência, mas também em penetração e claro entendimento dos problemas centrais da ciência.

Em certos aspectos, seus sucessores imediatos o compreenderam de forma mais clara do que nós. Como o editor da Edinburgh Review, Francis Jeffrey, escreveu em 1803 sobre os grandes filósofos morais escoceses, Adam Smith e James Millar (e ele deveria ter adicionado Adam Ferguson), o principal objetivo deles era:

“Rastrear a história da sociedade até os elementos mais simples e universais – resolver quase tudo que tem sido atribuído a instituições positivas no espontâneo e irresistível desenvolvimento de certos princípios óbvios – e mostrar com quão pouco planejamento ou sabedoria política os esquemas de política mais complicados e aparentemente artificiais podem ter sido criados.”

Aplicando essa abordagem geral ao mercado, Smith foi capaz de levar a ideia básica muito além de seus contemporâneos.

O grande mérito de sua famosa discussão sobre a divisão do trabalho foi o reconhecimento de que os homens eram governados em seus esforços, não por conhecidas necessidades e capacidades concretas de seus colegas íntimos, mas por meio dos sinais abstratos dos preços nos quais coisas eram demandadas e oferecidas no mercado, e que eles foram, por conseguinte, possibilitados a servir o enorme campo da ‘grande sociedade’ que ‘nenhuma sabedoria ou conhecimento humano poderia sequer ser suficiente’ de avaliar.

Apesar da ‘estreiteza de sua compreensão’, o homem individual, quando permitido a usar seu conhecimento para seus próprios fins (Smith escreveu ‘buscar seu próprio interesse em sua própria maneira sob o plano liberal de igualdade, liberdade e justiça’), foi colocado em uma posição a servir os homens em suas necessidades, e usar homens e suas habilidades, que estavam completamente fora do campo de sua percepção. A grande sociedade, na verdade, tornou-se possível em razão de o indivíduo direcionar seu próprio esforço não em direção a vontades visíveis, mas em direção àquilo que os sinais de mercado representavam como provável de fazer com que a receita sobreponha o custo. As práticas pelas quais os grandes centros comerciais têm se tornado ricos vieram a permitir que o indivíduo fizesse muito mais o bem e servisse necessidades muito maiores do que se ele se deixasse ser guiado pelas observadas necessidades e capacidades de seus vizinhos.

É um erro alegar que Adam Smith pregou egoísmo: sua tese central não disse nada sobre como o indivíduo deveria usar seu produto adicional; e ele se simpatizava sempre com o uso benevolente da renda adicional. Ele estava preocupado em como possibilitar as pessoas a contribuírem ao produto social na maior quantidade possível; e isso, ele pensava, requer que elas sejam pagas pelo que seus serviços valiam para aqueles a quem elas os realizavam. Mas esse ensinamento, apesar de tudo, ofendia um instinto profundamente arraigado que o homem tem herdado da sociedade face-à-face, a horda ou tribo, em que por centenas de milhares de anos as emoções foram formadas, e que ainda o governa depois que ele entrou na sociedade aberta. Esses instintos herdados demandam que o homem vise a realizar um bem visível a seus companheiros conhecidos (o ‘vizinho’ da Bíblia).

Esses são os sentimentos que ainda, sob o nome de justiça social, governam todas as demandas socialistas e facilmente conquistam a simpatia de homens bons, mas que são irreconciliáveis com a sociedade aberta para a qual, hoje, todos os habitantes do Ocidente devem o nível geral de sua riqueza.

A demanda pela ‘justiça social’, por uma atribuição da quota de riqueza material a diferentes pessoas e grupos de acordo com suas necessidades e méritos, sobre a qual todo o socialismo é baseado, é, dessa forma, um atavismo, uma demanda que não pode ser reconciliada com a sociedade aberta na qual os indivíduos podem usar seu próprio conhecimento para seus próprios fins.

O reconhecimento de que os esforços do homem irão beneficiar mais pessoas, e no geral satisfazer maiores necessidades, quando deixado a si mesmo ser guiado pelos sinais abstratos dos preços em vez de pelas necessidades percebidas - e que por esse método podemos melhor superar nossa ignorância constitucional da maioria dos fatos particulares e podemos fazer o uso completo de nosso conhecimento de circunstâncias amplamente dispersas entre milhões de indivíduos - é o grande mérito de Adam Smith.

Smith poderia, naturalmente, não ter direcionado seu argumento para o que hoje chamamos de socialismo, já que este não era conhecido em seu tempo. Mas ele conhecia muito bem a atitude geral subjacente que eu gosto de chamar de ‘construtivismo’, que não aprovaria qualquer instituição a não ser que fosse desenhada deliberadamente e direcionada pelos homens para objetivos que seus sentimentos inatos ditariam. Ele os chamou de ‘homem de sistema’; e isso é o que ele tinha a dizer sobre eles em seu primeiro grande trabalho:

“O homem de sistema... parece imaginar que pode manipular os membros da sociedade com tanta facilidade quanto uma mão dispõe as peças sobre um tabuleiro de xadrez. Ele não leva em conta que, no grande tabuleiro da sociedade humana, cada peça tem movimento próprio, em geral distinto daquele que o legislador quer imprimir sobre ela. Se esses dois princípios coincidem e agem na mesma direção, o jogo da sociedade humana irá continuar facilmente e harmoniosamente, e é muito provável que será alegre e sucedido. Se eles são opostos ou diferentes, o jogo irá continuar miseravelmente, e a sociedade humana irá estar em todos os tempos no mais alto grau de desordem.”

A última sentença não é uma má descrição de nossa presente sociedade. E se nós persistirmos no atavismo e, seguindo os instintos herdados da tribo, insistirmos em impor sobre a sociedade os princípios que pressupõem o conhecimento de todas as instâncias particulares, as quais naquela sociedade o chefe poderia conhecer, de volta à sociedade tribal nós iremos.

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