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Relato das manifestações de 4/12 em Copacabana: por quem esteve presente


Por Wilson Oliveira

Quatro de dezembro de 2016. Copacabana, Rio de Janeiro. Definitivamente, não era um domingo como outro qualquer na orla da Cidade Maravilhosa. Nem mesmo um domingo como àqueles de manifestações que o carioca se acostumou a presenciar. Havia claramente um misto de sentimentos.

Diferentemente das outras marchas políticas, nesta estava muito mais difícil encontrar sorriso no rosto de pessoas cuja maioria vestia verde e amarelo - porque por mais que o momento seja de indignação, sempre há uma tentativa de encontrar esperança ao ver milhares de brasileiros marchando na mesma direção. Mas dessa vez, não havia como andar, gritar, se expressar, segurar cartazes e agir de qualquer forma sem se lembrar do terrível acidente que vitimou dezenas de pessoas na Colômbia, entre as quais jogadores da Chapecoense, jornalistas e tripulação. Manifestavam-se, todos ali na orla, de luto.

A multidão que se formou já era satisfatória, mas poderia ter sido maior não fosse a previsão de chuva - que acabou não se confirmando. Carros de som contagiavam as pessoas, que se aglomeravam na Avenida Atlântica de um trecho que pega desde antes da Rua Bolívar até perto da altura da Rua Santa Clara. No primeiro, um caminhão do Vem Pra Rua - um dos principais a falar era Marcelo Madureira, ex-Casseta & Planeta, que há anos tem se empenhado em causas políticas à direita, porém com foco mais liberal.

Madureira foi totalmente feliz ao concentrar o seu discurso nas 10 medidas contra a corrupção que foram completamente alteradas pelos deputados. O célebre manifestante colocou a orla abaixo quando mencionou os nomes de Renan "Canalheiros", que foi acompanhado com os gritos de "Fora, Renan", e de Rodrigo Maia, fazendo a multidão ir ao delírio com gritos de "Rodrigo Maia, pode esperar, a sua hora vai chegar". Por ora, Michel Temer foi poupado.

Outras pessoas se alternavam com o microfone no carro do Vem Pra Rua. Foram lidos os nomes dos senadores que votaram a favor do caráter de urgência para que fosse votado o projeto de lei de "abuso de autoridade". Cada um recebeu uma sonora vaia. O mais vaiado foi Lindbergh Farias, senador do Rio pelo PT. Um dos puxadores do VPR chegou a esbravejar: "Prender corrupto não é abuso de autoridade, é cumprimento do dever, é representar a nação", sob uma salva de aplausos. Cada vez que o nome de Sérgio Moro era mencionado, o público reagia como se comemorasse um título de Copa do Mundo.



Logo atrás um carro também com caixas de som. Porém, os que seguravam o microfone andavam no chão, junto à multidão. Eram os militares da reserva que pediam por uma intervenção militar. Os discursos, carregados em força e vibração, bradavam contra o sistema político brasileiro e puxavam os aplausos do "seu público". Os principais trechos, falados pausadamente, foram: "Nós-não-confiamos-nessa-democracia-que-está-aí! Uma democracia que deixa 14 milhões de desempregados, que deixa pessoas passando fome, que é totalmente, to-tal-men-te, to-tal-men-te conivente com a corrupção, que deixa o STF cúmplice das manobras mais sujas dos políticos, que nos engana, que nos trai. Nós-não-confiamos-nessa-merda! (aplausos). E agora querem nos tirar a única coisa, a-ú-ni-ca-coi-sa que podemos confiar... que é a Lava-Jato (aplausos)!"

Uma mulher com cerca de 50 anos andava bem próximo a esse carro e segurava uma bandeira que trazia escrito "Bolsonaro Presidente". Ela olhava atentamente para os militares da reserva que discursavam, e parecia estar em dúvida se aplaudia ou não quando a "democracia brasileira" era criticada. Afinal de contas, sua bandeira constatava que ali havia uma pessoa que acredita que será por esse sistema que seu candidato poderá assumir o País. Ela não teve dúvidas, no entanto, ao apoiar com convicção e entusiasmo quando o assunto 'falta de segurança' foi citado para falar do aumento da violência no Rio de Janeiro.

Mais atrás, um grupo do Judiciário com camisas escrito "O que o povo pediu? Punição aos corruptos! O que eles entregaram? Punição a juízes e promotores. Diga não a esse absurdo!". Nesse meio também havia muitos cartazes com dizeres de apoio a Sérgio Moro, ao Ministério Público, aos promotores, à Polícia Federal (com direito a pedido de independência total) e pedido pelo fim do foro privilegiado e críticas ao STF - o principal alvo, nesse caso, era o ministro Dias Tóffoli. Uma auditora do estado, no alto do carro, com o microfone na mão, pediu que o povo ficasse alerta durante o final do ano, pois, segundo ela, "os políticos estão esperando que o povo se disperse para que as leis mais absurdas sejam aprovadas".



Havia também um grupo que pedia a restauração da monarquia no país. Este grupo, já no final da manifestação, tentava sem muito sucesso obter algum destaque na atenção dos presentes. Foi em vão. Mas era clara a conexão de ideias deste com os demais quando as pautas eram, além das reclamações do Poder Legislativo, de apoio à Lava Jato, ao juiz Sérgio Moro, ao Ministério Público e à Polícia Federal.

Um importante símbolo, que foi motivo de orgulho e comemoração por todos os segmentos presentes a essa manifestação, foi o caráter pacífico e democrático. Não havia ninguém com o rosto coberto. Não houve depredação de nada. Nenhum carro foi virado, não atearam fogo em nada, nenhum profissional da imprensa foi agredido. A Polícia Militar sequer teve trabalho - os PM's puderam acompanhar a manifestação praticamente como plateia, com direito a sorrisos na face dos policiais. Alguns foram cumprimentados pelos manifestantes, algo que já virou tradição nos manifestos da direita brasileira.

Porém, ainda havia algo que merece o maior destaque. Embora houvesse claras discordâncias entre segmentos de uma mesma manifestação, como o Vem Pra Rua que pede um foco mais liberal na política, e os intervencionistas, que pedem a troca do sistema democrático civil por um militar - ou ainda os monarquistas, que pedem a volta da Família Real - havia ali uma união. Todos estavam indignados com os rumos da política brasileira. Ninguém ali aceita mais a corrupção. Todos querem mudanças. Cada um propõe uma solução. Mas no final, conforme o Vem Pra Rua pediu um pouco de atenção de todos, inclusive dos que acompanhavam os outros carros de som, foi possível ver a multidão cantando em uma só voz o Hino Nacional.

A maior mensagem que foi passada: somos todos brasileiros!


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