Expresso News

[expresso-news] [twocolumns]

Colunistas

[colunistas][bleft]

Entrevistas

[entrevistas] [twocolumns]

Economia

[economia] [bsummary]

Qual é o objetivo da educação? Por Roger Scruton


Por Sir Roger Scruton
Tradução: Luiz Fernando S. M. Correia

Publicado na revista "Spectator Live" em 02 de novembro de 2016: link original
Também disponível no site oficial de Sir Roger Scruton neste link

Por que o Estado tem tanto interesse na educação? O ponto de vista prevalente, ao menos desde o fim da última guerra, tem sido que o Estado tem interesse na educação porque é direito de toda criança recebê-la. Desde então, o Estado se torna o provedor universal e, portanto, deve tratar todos os seus dependentes igualmente e não conceder favores especiais por motivos de saúde, talento ou status social.

A partir disso, inspirado num apavorante igualitarismo, caminhamos para a culminante conclusão que o Estado não deve fazer distinções, que as crianças não devem ser separadas por suas habilidades e aptidões e que, mesmo exames, devem ser nivelados por baixo ou, então, feitos para não parecerem como se fossem o objetivo final.

Em outras palavras, a suposição tem sido que a educação existe em prol da criança. Na minha opinião, o Estado mostra interesse na educação somente porque tem em mira um outro e mais urgente interesse, qual seja, o conhecimento. O conhecimento é benéfico para todos, incluindo aqueles que não o adquirem e nem podem adquiri-lo. Quantos de nossos cidadãos poderiam construir uma usina nuclear, julgar uma causa na Chancery, ler um ato de concessão de terra em latim medieval, conduzir um concerto de Mozart, resolver uma equação de aerodinâmica, consertar uma locomotiva? 

Não precisamos, nós mesmos, ter o conhecimento, visto que outros, os experts, o possuem. E quanto mais terceirizamos nossa memória e informação para nossos iPhones e laptops, mais necessitamos daqueles experts. Se é assim, então o Estado deve assegurar que educação, conquanto disponível e distribuída, reproduzirá nosso armazém de conhecimento e, se possível, ainda completá-lo.

Pode ocorrer um momento quando crianças e seus professores cessem de ouvir sobre a Idade das Trevas. Eventualmente, as pessoas podem não mais compreender que o conhecimento tanto pode ser perdido quanto adquirido, assim como nosso armazém de conhecimento ficou perdido por 400 anos, antes de ter, sido vagarosa e dolorosamente, recuperado. 



Parece-me que, aqui, neste ponto, é onde os educadores nos trapacearam. O Estado, eles nos disseram, tem um dever para com cada criança e nenhuma criança deve ser levada a se sentir inferior a outra. Embora isto seja verdade, o Estado tem um outro e ainda maior dever, que é aquele dirigido a todos nós, qual seja, o dever de conservar o conhecimento que precisamos e que só pode ser transmitido com a ajuda das crianças aptas a adquiri-lo.

Colocando a questão em miúdos, o conhecimento beneficia a criança, mas não tanto quanto a criança inteligente beneficia o conhecimento. Conseqüentemente, o Estado tem interesse na seleção, de forma que, para aqueles com aptidão para o conhecimento, seja dada a chance de adquiri-lo - e adquiri-lo sem as muitas distrações que existem por estarem cercados por outros que não demonstram interesse na vida da mente.

Fui afortunado em cursar uma Grammar School*, a qual disponibilizou para mim o tipo de conhecimento que as pessoas da classe escolar de meus pais não tiveram facilidade em obter. Daí, eu encenei meu papel especial de absorver, processar e transmitir o conhecimento que ainda está incrustado em nosso currículo. Tenho isto como uma justificativa para a minha própria existência, isto é, que eu tenha transmitido para outros algo que, apesar de ser o tipo de educação que gozei, tenha talvez morrido.

Os críticos nos dizem que a seleção divide crianças entre sucessos e fracasso e que os fracassados ficam "marcados para sempre". Não vejo razão para crer nisto. As futuras gerações precisarão de conhecimento; mas também precisarão de habilidades, força e know-how técnico. Escolas que provejam esses benefícios - como a alemã Technische Hochschulen - são tão importantes quanto Grammar Schools: e se as crianças tiverem a possibilidade de, livremente, passarem entre escolas no processo de descobrirem suas aptidões, a seleção, em nenhum caso, poderá ser definitiva.

No mundo da educação, esses pensamentos são heréticos. Após anos de doutrinação "criança no foco", o establishment educacional encontra-se perdido num tipo de reino das fadas, acreditando que educação é realmente uma forma de engenharia social e que seu propósito primário é incentivar a "auto-estima" dos pupilos. Uma vez que se consiga ver que o propósito primário da educação é a salvaguarda do conhecimento, todos os castelos dos contos de fada dos educadores colapsam em ruínas. E é por isso que se apresentam em armas e, freqüentemente, em armas contra a verdade.

------------------------------------------

*Uma Grammar School, no Reino Unido, é um tipo, dentre vários, de escola ao longo da história educacional do Reino Unido e de países anglófonos que, originalmente, ensinava latim, mas, mais recentemente, se tornou uma escola secundária (correspondente aos 1º e 2º graus no Brasil, onde estudam alunos de 11 a 18 anos) academicamente orientada, diferenciando-se das demais escolas secundárias.

O propósito original das grammar schools medievais era o ensino do Latim. Ao longo do tempo, seu currículo foi alargado para, primeiramente, contemplar o ensino do Grego Clássico e, mais à frente, o Inglês moderno e outras línguas europeias modernas, ciências, matemáticas, história, geografia e outras disciplinas.

Atualmente, algumas delas obtiveram o status acadêmico (Academy Schools), o que significa que se tornaram independentes da Autoridade Educacional Local.

Segundo reportagem da BBC, há 163 Grammar Schools na Inglaterra e 69 na Irlanda do Norte, tendo seu número caído assustadoramente a partir dos anos 1970 (vide gráfico na reportagem). A seleção dos alunos é feita mediante um concurso difícil, e a esquerda britânica se opõe a elas, enquanto Conservadores e Liberais variam entre sua expansão e a manutenção delas, mas não desejam extingui-las.

Um comentário:

Os comentários ofensivos e anônimos serão apagados. Daremos espaço à livre manifestação para qualquer pessoa desde que não falte com o respeito aos que pensam diferente.

http://www.ocongressista.com.br/