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Fillon ou a esperança do desespero


Charles Gave, presidente do "Institut des Libertés", grupo de think tank liberal-conservador francês, analisa as perspectivas para a área econômica de um eventual governo François Fillon (foto), candidato do Partido Republicano à presidência da França. Charles Gave observa que monsieur Fillon já detectou um grave problema econômico e estima-lhe a coragem que faltou a Chirac e a Sarkozy para realizar os devidos ajustes, o que pode implicar, inclusive, na eventual saída da França da zona do Euro.

Por Charles Gave
traduzido por Luiz Fernando Serra Moura Correia

Para um economista, o programa do candidato Fillon é muito fácil de ser analisado. Ele parte duma constatação: o peso do Estado Francês na economia não cessou de aumentar desde 1974, o que ninguém pode negar. E esse peso, sem dúvida alguma, se tornou excessivo, o que faz necessário que o discutamos agora.

A partir de 1990 (início dos meus dados, fornecidos pela OCDE), o peso do Estado passou de 47% do PIB (onde está, atualmente, a Alemanha) para 54,5%, o que faz de nosso país o recordista absoluto dentre os países da OCDE. E isto é um fato.

A segunda constatação é um pouco mais complicada de aceitar. Como dizia Milton Friedman: “Não existe almoço grátis” e, com isso, ele queria lembrar que nada neste mundo terreno é gratuito. Então, se o Estado viu seu peso aumentar, isto quer dizer que o peso de outra coisa diminuiu. Alguém, no sistema econômico francês, pagou para compensar esse crescimento desenfreado de nosso Moloch estatal, e esse alguém é, claramente, o empreendedor, cuja rentabilidade colapsou.



Enquanto o peso do Estado passava (de 1987 a hoje) de 47% para 54,5%, isto é, 7,5% pontos a mais no PIB, a rentabilidade das empresas passava de 28% do PIB a 22% do mesmo PIB, ou seja, 6 pontos a menos.



“Qual importância?”, vai novamente me exclamar um economista estupefato. “Isso quer dizer simplesmente que a política seguida foi a melhor porque ela conduziu a uma baixa da exploração do homem pelo homem, quer dizer, uma baixa dos lucros, esta coisa abominável”. O chato é que, não importa em qual país, não importa em qual época, uma baixa dos lucros leva sempre, com um atraso de aproximadamente um ano, a uma alta do desemprego, como o prova o gráfico seguinte. Quem engendra, por sua política, a baixa dos lucros cria, automaticamente, a alta do desemprego, tal é a realidade.





É o que se convencionou chamar de “teorema de Helmut Schmidt”, o chanceler Social Democrata Alemão: “Os lucros de hoje são os custos de investimento de amanhã e os empregos de depois de amanhã”.

“Mentira da grossa”, vão me retorquir os Filoches ou Mélenchons* desse mundo: todo mundo sabe os que os lucros das empresas francesas aumentam todos os anos e eu seria pego em flagrante delito de mentira, o que não é o caso.

Para os meus cálculos, eu, de fato, não considerei senão os lucros das empresas – francesas ou não – operando no território francês, do qual foram excluídos, portanto, os lucros realizados pelas sociedades francesas no estrangeiro.

E, assim, parece que temos muitas chances de ter patrões e empreendedores competentes e bem sucedidos em ganhar dinheiro fora da França para poder verter os dividendos em benefício dos pobres acionistas franceses. Porque é claramente evidente que se as empresas francesas devessem trabalhar unicamente a partir do território geográfico francês, elas estariam falidas há muito tempo...

E assim, nossos patrões, mantendo um aparelho de produção viável fora da França, são os verdadeiros patriotas enquanto aqueles que conseguiram tornar a França não atrativa, em termos de território de investimento, são os traidores, os escroques e os ladrões e, bem entendido, estou falando dos políticos.

E é aí que intervém uma terceira noção sobre a qual monsieur Fillon igualmente falou; o recurso à dívida para tapar os buracos de tesouraria que as ações de nossos políticos engendram.

Num mundo normal, as únicas empresas que podem crescer são aquelas que lucram; as outras desaparecem e isto se chama destruição criativa. Este não é – ai de nós! – o caso para uma atividade estatal pois, mesmo se ela estiver em situação de cash flow negativo, quer dizer, numa situação em que perde dinheiro, ela sobreviverá até o fim dos tempos, por menos que faça parte do tronco do Estado, o qual, por sua vez, tomará emprestado o numerário necessário para manter a vida de quem deveria desaparecer.



E,  dum golpe, a dívida estatal explode, como mostra o último gráfico acima. A alta do peso do Estado é a causa única da alta do desemprego e da dívida. Esse gráfico é aterrorizante. Reflitamos um segundo: se as taxas passam de 0%, onde estão hoje, a 3% em média, o serviço da dívida vai explodir. Ora, essa dívida é detida, em 2/3, por não residentes. Como o crescimento será, na melhor das hipóteses, de 2% ao ano, isto quer dizer que todo crescimento de riqueza deverá ser transferido a estrangeiros a cada ano e que, então, o nível de vida para o francês comum não poderá senão diminuir.

A França está, portanto, à véspera de entrar numa armadilha de dívidas de antologia. Se você capitalizar sua riqueza a 2% ao ano e se você tomar emprestado a 3% para honrar uma dívida que é igual à sua criação de riqueza, não é preciso ser especialista para concluir que o nível médio de vida vai baixar de 1% ao ano até o fim dos tempos.

Conclusão: o que nos diz monsieur Fillon?

Ele nos diz:

1. Que as empresas não ganham dinheiro suficiente e que é preciso cessar de martirizá-las, sem o que o desemprego não fará senão aumentar, o que é verdade.

2. Que o Estado é por demais obeso e que é preciso fazê-lo emagrecer, fazendo sair de seu império tudo aquilo que o setor privado faria melhor que ele, o que é verdade.

3. Que a dívida pública é por demais importante e atingiu um nível onde qualquer alta das taxas de juros seria um desastre, pois se as taxas aumentam tudo se tornará cada vez mais e mais difícil, o que é verdade.

4. Que o tempo da procrastinação terminou. Ou agimos agora, brutalmente, ou será tarde demais.

Para que uma política de reforma funcione, é preciso, inicialmente e antes de tudo, que os homens no poder tenham compreendido quais são os problemas. Monsieur Fillon, sem a menor dúvida, compreendeu. A primeira condição está atendida.

Em seguida, é preciso que o corpo social aceite as reformas, o que quer dizer que será necessário que monsieur Fillon receba uma série de poderes bem firmes para nada ficar solto. Eu vivia na Grã-Bretanha durante as reformas de Thatcher e o país literalmente atravessou uma guerra civil latente que opunha o governo e os sindicatos. Mas a Dama de Ferro não afrouxou em nada. Esperemos, então, que monsieur Fillon tenha a coragem que cruelmente faltou a Chirac ou a Sarkozy, pois dela terá necessidade.

Por fim, eu jamais vi, na história, uma política tal como a preconizada por monsieur Fillon que não fosse acompanhada por uma desvalorização profunda e temporária da moeda. Ora, o Euro a proíbe. É-nos, então, necessário esperar que os Italianos ou os Batavos nos livrem desse mostro financeiro, que é a moeda única, antes de nossa eleição, ou que monsieur Fillon se lembre do que dizia seu mentor Philippe Seguin sobre o Euro, máquina de destruir a Europa e a França e faça o serviço por si mesmo, o que nos leva de volta ao ponto anterior...

“Possam vocês viver em tempos interessantes”, diz a maldição Chinesa.

Eu posso afiançar o leitor que os tempos que virão vão ser apaixonantes, mas eu não gostaria de estar no lugar do próximo Presidente.

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Artigo publicado no site do Institut des Libertés.

Notas do tradutor:

* “Filoches e Mélenchons”: referência a Gérard Filoche (um político francês do Partido Socialista, integrante da extrema-esquerda em sua juventude, ex-sindicalista, Inspetor do Trabalho aposentado) e a Jean-Luc Mélenchon (político francês, membro do Partido Socialista até 2008, quando o abandonou para fundar o Partido de Esquerda - PG, “Parti de gauche”, ex-ministro do Ensino Profissional no governo de coabitação de Lionel Jospin).

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