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Sobre sociedade e aborto: O que escolhemos quando votamos na esquerda


Por Vinicius Campos 

Aproveito o approach das eleições municipais para bater novamente em um tema delicado.

“Meu corpo, minhas regras” grita aos sete ventos a maioria deles. Mas se são tão preconceituosos com o tema “Propriedade”, como tal conceito poderia servir de referência central para fundamentar uma posição em favor do aborto? Não serve. Este é apenas um jargão popular para simplificar uma resposta muito mais complexa.

Visando entender a relação de aborto e ideologia, precisamos adentrar, mesmo que superficialmente, no tema de estruturas sociais. Para tal, vamos criar comparativos limitando-nos ao que nos interessa: a estrutura de sociedade ideologicamente de esquerda e uma sociedade liberal-conservadora.

Para que uma sociedade liberal-conservadora funcione, se faz fundamental lapidar a moral social. Ao contrário das ideologias liberais mais extremas, o conservador acredita que, antes do livre mercado, vem a moral, a cultura, a responsabilidade social, entre outras coisas, ou seja, a estrutura social no que tange à valores, para depois o mercado funcionar.
Grosso modo, a filosofia, a cultura e a ciência política moldam a economia, e não o inverso, e a história corrobora com esta tese (afinal, por qual outro motivo existiriam tantas vertentes do capitalismo, se a lógica fosse a oposta?). Assim sendo, uma sociedade com valores suficientes para adotar uma estrutura de livre mercado tem de ter para si que além de seus deveres individuais, estes têm também deveres cívicos frente à sociedade. O cidadão herda uma estrutura social pré-estabelecida e seu dever é trabalhar para evoluí-la. Todas as sociedades que pensaram dessa forma evoluíram substancialmente.

E o que pode ser descrito como dever cívico para com a sociedade? Ora, as relações não são apenas trocas onde tem de se haver, obrigatoriamente, dois lados ganhadores do ponto de vista econômico, embora essa estrutura de troca seja a mais benéfica entre todas. Não devemos exercer a caridade apenas quando houver ganhos econômicos, mas também quando há ganho moral.

Uma sociedade pronta para acolher um livre mercado é aquela em que cada indivíduo se incomoda com o nível de pobreza e miséria da mesma. Ele não deve, de modo algum, terceirizar seu dever cívico de erradicar a pobreza, muito embora, na maioria das vezes, se faz necessário uma participação mínima do Estado (de forma passiva). Este cidadão tem de estar pronto a ser caridoso, colaborar com o crescimento social e assim praticar e estimular a caridade privada. Naturalmente, tais valores, enraizados, passam a obrigar o mercado a adotar tais condutas, visto que a cultura popular cobra essa postura das empresas.

Sob esses moldes, uma sociedade onde o indivíduo tem total consciência de que as mazelas daquela sociedade são, diretamente, responsabilidade sua, e que se este não agir aquilo não mudará, poderá implantar o livre mercado seguramente. Além do tal, os indivíduos têm também o direito de serem livres.

Apenas com liberdade e pouca intervenção do Estado em seu arbítrio que este poderá assumir suas responsabilidades sociais. Se o mesmo exerce sua liberdade visando empreender, a função do Estado é estimulá-lo, e não o oposto, uma vez que o processo empreendedor enriquece o indivíduo e a sociedade.

Note que a sociedade liberal-conservadora dá o direito ao indivíduo de ser livre, mas ao mesmo tempo imputa a esse a responsabilidade direta de fazer a manutenção da sociedade, não se limitando a isso, mas também a sua evolução. Não se trata de libertinagem ou liberdade sem consequências, mas de liberdade casada com muita responsabilidade.

Ao mesmo passo, a ideologia de esquerda, em quase tudo que lhe compõe, faz o inverso. Cerceia a liberdade do indivíduo e transfere as responsabilidades sociais à terceiros, na maioria das vezes, ao Estado. Não podemos cair na leviandade de acusar os pensadores à esquerda de não se preocuparem com as mazelas da sociedade. A maioria se preocupa, e muito, mas depositam essa responsabilidade, ingenuamente, ao Estado, lutando por um agigantamento do Leviatã para que esse o faça.

As responsabilidades pelas mazelas daquela sociedade são suavizadas, de modo que, em ultima instância, a culpa de uma sociedade não evoluir é de um Estado incapaz de prover o bem-estar social, e não de uma cultura acomodada a repassar responsabilidades à terceiros.

A grande incógnita é: se a moral social daquele povo está minada, o que garante que o próprio Estado tomará para si tais responsabilidades? Essa estrutura torna-se cultural, filosófica e política. Ao acumular recursos na mão de poucas pessoas detentoras destes conceitos, não é difícil concluir que tal Estado se corromperá. Além disso, a assistência pública torna-se ferramenta de manipulação e, ainda pior, desestimula completamente a assistência privada, e com ela o espírito benevolente, já que a impressão que resta é de que cabe ao Estado erradicar a pobreza. Se não acontecer, a culpa é apenas deste Estado.

E o que isto tem a ver com o aborto? Tudo. Quando a esquerda defende o aborto, pautam-se no fato de que é mais louvável uma mulher abortar do que ter um filho em uma estrutura social onde a criança tende a se marginalizar, acabando preso ou morto (nos casos em que a gravidez não trás riscos a mãe). O que seria isso se não uma transferência de responsabilidade individual para terceiros?

A culpa de uma sociedade corrupta, leviana, insensível e degradada é do indivíduo que nem sequer teve a oportunidade de ajudar a construí-la. O problema de um indivíduo nascer e corromper-se é do povo que moldou essa sociedade, de cada indivíduo componente deste povo - inclusive o defensor do aborto - e não o indivíduo que ainda nem sequer participou da construção da mesma. Imagine se abortássemos Madre Teresa, Luther King, Dalai Lama, entre outros, o quão mais carente o mundo estaria?

A sociedade brasileira, ainda arraigada pela ideologia de esquerda, inicia a guinada por uma sociedade melhor protestando contra tudo e contra todos, e não pela elevação de seu poder de caridade. Não se vê iniciativas de grande relevância com serviços caridosos sob forma de protesto contra a corrupção, usando de apelo a caridade contra todo o recurso que é desviado do setor público que poderia ser alocado em tais iniciativas. Nossa sociedade acredita que, uma vez não tendo capacidade de acolher um novo indivíduo, melhor que este nem seja inserido, ao invés de contribuir diretamente para a construção de uma sociedade melhor para ele.

Infelizmente, nossa sociedade protesta por detrás das telas do computador ou participa de protestos que na maioria das vezes não faz nenhum sentido, mas não se habilita a lecionar voluntariamente, ou participar ativamente da construção de uma organização de caridade privada. Se tem dúvida, experimente convidar pessoas em suas mídias sociais para participar de iniciativas caridosas e vejam quantas se habilitam. Na sequencia, faça novamente um convite, mas para ocupar escolas em prol do “bem social”, e veja o resultado. Talvez seja mais cômodo gritar nas ruas para que alguém tome partido do que tomar partido por si mesmo.

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