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Doutrinação, invasões e Frankenstein – o monstro que irá nos destruir


Por Kleryston Negreiros

Neste final de semana, 191 mil estudantes estarão impedidos de fazer o ENEM – para muitos, a maior oportunidade de suas jovens vidas até aqui por ser a chance de ingressarem num curso superior e melhorarem de vida. E serão impedidos devido às ocupações que vem ocorrendo por todo o país (mais especificamente em Estados que se opuseram em algum momento ao governo que saiu), em escolas públicas promovidas por alunos que se declaram apartidários e que lutam por uma melhor educação.

Não vou me ater ao paradoxo irônico que essa turba profere. Na verdade (e é do que pretendo tratar), desde que essas invasões começaram, em 2015, não pude evitar a comparação com o sentido de uma obra que li há muitos anos, antes de entrar na faculdade e que rememoro toda vez que vejo a ordem das coisas sendo invertida e sendo promovido o caos. Sim, a obra é Frankenstein, e, não, não enlouqueci, como pode achar o leitor dessas mal traçadas linhas.

O que me remete ao livro de Mary Shelley é justamente o ponto que levou a essa insanidade no país: a subversão da ordem natural, um espírito jovem e imprudente tomando as rédeas de algo que não lhe compete, a arrogância juvenil de não aceitar os fatos como são ou como devem ser e, de forma caprichosa e mimada, tentar desenhar o mundo à sua imagem e semelhança – algo barulhento e imprudente.

No livro, temos a história do jovem Victor Frankenstein. Rico, com uma família feliz e estruturada, uma noiva que o ama e aspirante a médico, uma vida sem atribulações ou sustos. Ao ingressar na Universidade de Viena, toma contato com uma teoria de um de seus professores que o impacta bastante: o uso da eletricidade para reavivar mortos. Como todo jovem estudante, fica empolgado com essa teoria tão inusitada e passa a assistir as aulas desse docente.

Tudo ia bem até que a tragédia bate à sua porta e sua amada mãe morre. Não suportando a dor da perda e tentando vencer a morte de uma vez por todas, o rapaz retorna ao seu quarto em Viena, debruça-se sobre os estudos desse professor e tenta trazer à vida um homem criado a partir de cadáveres. Depois de profanar túmulos, isolar-se de todos e chegar à beira do precipício da insanidade, ele consegue dar vida a um ser grotesco, abjeto e assustador composto por partes de corpos mortos. Victor fica assombrado com o que criou e foge, deixando sua criatura recém acordada dos mortos à própria sorte.

O monstro sobrevive, e com o avançar da narrativa vai tomando consciência do que é e
quem o criou. Determinado, vai atrás de seu “pai” para que o reconheça como sua criação e, ao ser rejeitado por Frankenstein, ele promove uma carnificina em sua família matando pai, irmão, noiva, deixando atrás de si um rastro de morte e miséria. Na narrativa Victor é consumido por seu maior pecado: subverter a ordem natural, sua desgraça é a criatura que trouxe ao mundo por não aceitar as leis naturais e o preço a pagar foi a sua aniquilação pelas mãos do monstro que criou.

E é assim que eu vejo esses jovens militantes. Assim que eu vejo essas invasões. São pequenos Victors insuflados por professores irresponsáveis que os ensinam que a ordem natural deve ser subvertida e negligenciados por pais omissos e permissivos que criam pequenos tiranos incapazes de lidar com frustrações e a ordem estabelecida. São alçados à categoria de engenheiros de um novo mundo, os baluartes da nova era e são instigados com teorias espúrias de caos e miséria. Assim como Victor Frankenstein, a arrogância desses meninos e meninas levam-nos a atos impensados que causam mais danos que benefícios.

Olhando as escolas ocupadas é possível perceber o poder destruidor desses garotos. O monstro que vai devorando o patrimônio público, as vidas desses jovens e os que são prejudicados por eles é incomensurável. Da mesma forma que a família Frankenstein foi uma vítima da vaidade do jovem médico, os alunos que perderam aula e terão que fazer a prova dentro de um mês ou até os que farão agora e perderão a oportunidade de se preparar um pouco mais são tão vítimas quanto a família do livro.

Já esses jovens invasores não. Porque num mesmo ambiente de militância, como são essas escolas, há também aqueles que não se deixam contaminar pela a insanidade. Esses pequenos tiranos fazem uso de um discurso que legitima seus mimos e arrogância. E essa minoria de bárbaros se acha no direito de decidir o destino de muitos.

Sim. Há uma relação com a obra. Não na estrutura diretamente, mas na loucura, na irresponsabilidade, na arrogância. Há relação no caos provocado por um gesto tresloucado e mimado de alguém que não aceita adaptar-se ao mundo, mas ao contrário, quer adaptar o mundo ao seu universo particular. Há proximidade de narrativas entre alguém que não aceita o fato de que há uma ordem, seja natural, seja social, de que sua imprudência não é isolada. E sim, não isento professores, sindicatos, políticos e toda uma corja que se esconde atrás de crianças para ter seus intentos, mas isso é assunto para outra coluna. Até a próxima.

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Kleryston Negreiros é professor e administra o blog Professor, Me Indica um Livro? 
Também é membro do grupo Biblioteca Liberal-Conservadora

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