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Eleições  —  o mal da política como salvação


Por Victor Oliveira

Hoje, em nosso país, vivemos dias que são considerados, por muitos, peculiares. A ascensão de um debate político ácido e presente nas camadas populares criou uma polarização que boa parte do mundo já presenciou e/ou presencia, porém, que atrasado como de costume, não era frequente em nosso país.

Tais conflitos ideológicos são percursores tanto de pontos positivos quanto de pontos negativos. Mas existe algo por trás de boa parte dos discursos, debates, convicções e conceitos de todas estas manifestações cívicas, que colocam em exposição e demonstram um fator em comum inerente em todo o aspecto conflitante e que, de forma ampla, expõe umas das principais características da sociedade atual.

Como sociedade atual, podemos nos estender desde a Revolução Francesa, percursora de muitos dos aspectos de nossa estrutura civilizacional em seu conceito moderno. Um desses aspectos, do qual este texto possui o objetivo de trazer à tona através desta reflexão, possui uma ligação direta com os movimentos revolucionários do século XVIII - me refiro a política como parâmetro de salvação.

Como indicado no título, o meu objetivo aqui não é tratar sobre polarização ideológica, nem sobre quem está certo ou errado, mas ressaltar um aspecto muito importante, que de forma, muitas vezes inconsciente, se demonstra alastrado no DNA de todos os pontos que são manifestos no dia a dia da discussão política.

Não é de hoje que possuímos o conhecimento de que o Homem é um ser religioso, e tal aspecto foi responsável pela fundamentação de muito dos conceitos comportamentais e morais em nossa sociedade. Durante muito tempo o funcionamento do homem era concentrado em Deus, na graça, no entendimento de que existe uma salvação divina e uma ajuda superior que pode resolver os nossos problemas. Hoje, a religião ainda é forte e não tende a ser diluída, porém, a graça, uma vez símbolo da redenção e assistência humana comum, acabou ganhando um enorme concorrente diante a sociedade civil - o Estado.

Em época de eleições municipais podemos enxergar de forma muito próxima como se manifesta na mentalidade dos eleitores o sentimento de expectativa de um acolhimento divino, sentimento este que é direcionado aos seus candidatos e partidos preferidos. Em meio às discussões a respeito de quem é o candidato certo, esse caráter redentor se mostra cada vez mais presente, tanto da parte do eleitor que busca transportar uma expectativa surreal no seu poder de voto, quanto do candidato que, enxergando isso, investe firmemente em exalar uma imagem salvadora e populista.

Devido os moldes do sistema democrático em que vivemos, os populistas são os que geralmente se sobressaem. Na democracia ganha quem é popular, e em um mundo dependente do Estado, ganha o candidato que prometer usar essa ferramenta em prol de seus “súditos”. Obviamente sendo o menos pior sistema de governo conhecido até então, a democracia não é um problema em sua totalidade, sua capacidade de descentralizar o poder de uma forma mais ampla é um aspecto positivo na sua proposta. Porém, inegavelmente, assim como tudo em nosso mundo, os pontos negativos aparecem. E um deles é justamente a legitimação dessa mentalidade religiosa acerca da política, que se analisarmos mais profundamente é consequência, talvez direta, da mentalidade democrática.

Não sendo uma característica apenas brasileira, mas mundial, a política tem se tornado cada vez mais a religião oficial do mundo. Você talvez tenha chegado até aqui se perguntando por que, de fato, isso seria um problema. A resposta é simples, e deve começar ressaltando todas as milhões de mortes causadas por regimes revolucionários e autoritários ao longo da história, principalmente no século XX, onde as consequências dessa religião política foi potencializada ao extremo. O homem procura na religião aquilo que ele compreende que é a maior necessidade humana: a salvação. Na religião cristã a salvação é encarnada na figura de Cristo, o Deus que se fez homem para se sacrificar, redimindo os delitos e pecados de toda a humanidade, que estão inerentemente impregnados em nosso sangue, devido a queda no jardim do Éden (essa história todos conhecem, acredito).

A religião cristã, também transmitindo ao homem a esperança da salvação e o alcance de uma perfeição, nesse aspecto, não se diferencia da mentalidade das religiões políticas. A diferença, obviamente, é que no Cristianismo, assim como na maioria das religiões, a salvação possui um caráter metafísico, onde ela só pode ser alcançada em um plano divino e eterno, através da ação de um Deus criador que nos disponibiliza um lar em outro mundo.

Ao transportarmos nossas esperanças de redenção na estrutura política colocamos uma responsabilidade de salvação divina em um elemento de cunho humano. Basicamente, passamos a projetar no Estado e na política a responsabilidade da realização de ações que são, por definição, incapazes de serem realizadas por nossas mãos.

O Estado como uma estrutura humana é, automaticamente, gerido por seres humanos, e sendo seres humanos imperfeitos por natureza, se torna ilógico depositar no homem a capacidade de uma redenção divina que traga a perfeição. É devido a esse aspecto, inclusive, que as ideologias revolucionárias buscam de forma incessante alimentar a ideia de que os problemas da humanidade são puramente externos, negando a natureza selvagem e potencialmente má do ser humano. Somente através da negação desta natureza, a salvação na terra pode ser imaginável. Entretanto, sendo esta negação a negação da própria realidade, os resultados sempre acabam em morte e destruição.

Os regimes socialistas, fascistas e todos os exemplos de autoritarismo e totalitarismo são, sem exceção, o resultado empírico dessa mentalidade colocada em prática: a instrumentalização do Estado em busca da resolução de todos os problemas do homem e da salvação divina por meios humanos, coisa que vemos hoje no dia a dia em cada confronto de ideias, debates e propostas políticas.

A secularização da sociedade civil apenas transpôs a mentalidade religiosa do Homem para "um outro Deus", sendo um aspecto negativo na criação de "religiões" e seitas perigosas que buscam saciar anseios dos quais só podem ser saciados através de sangue e morte. Esses anseios são encontrados em cada proposta falaciosa e fantasiosa de candidatos populistas, em cada voto ingênuo de eleitores ignorantes que caem nesses discursos, em cada propaganda política que se baseia sempre em promessas e promessas, sendo que na verdade, a única coisa que um político deveria te prometer é que ele não pode salvar sua alma, pois ele não é Deus.

Além do mais, essa mentalidade ainda é uma das maiores fontes para as ameaças às liberdades nos dias atuais, pois ao colocarmos todas as nossas crenças no governo, automaticamente deslegitimamos tudo aquilo que somos além dele, pois como dizia Ronald Reagan, "O homem pode ser livre à medida que o governo tenha limites; quando cresce o governo, diminui a liberdade."

É difícil imaginar uma solução simples e concreta para este problema, mas é um bom início a disseminação da simples ideia de que o Estado não existe para satisfazer todas as suas necessidades e anseios. A política não é a salvação do homem, mas apenas a evidência do por que ele precisa ser salvo.

Victor Oliveira é articulista do O Congressista, teísta, "liberal conservador", aspirante a pseudo conhecedor das coisas, crítico e contra a tese de "um mundo melhor". 

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