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O DEM tem condições de ocupar o espaço deixado pela UDN?

Por Wilson Oliveira

A nova realidade política brasileira impõe que partidos e candidatos sejam o mais específico possível ao defenderem determinadas bandeiras. Está cada vez mais insustentável se apresentar com uma plataforma genérica, sem face, que tende agradar a todos, pois o próprio eleitorado tende a caminhar para algum lado. Até mesmo os "isentos". É o que demonstrou a confirmação do impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff, quando muitos cidadãos que evitavam falar de política acabaram se posicionando, seja contra ou a favor ao afastamento da petista.

O PSC, por exemplo, que antes era apenas um grupo de religiosos dispostos a apoiar quem estivesse no poder para garantir seu lugar ao sol, percebeu rapidamente o novo panorama e andou para direita, estabelecendo bandeiras conservadoras como plataforma de um renovado Partido Social Cristão, que também investiu suas fichas no badalado deputado Jair Bolsonaro. E seu filho, Flávio Bolsonaro, vem conseguindo relativo sucesso com sua campanha para prefeito do Rio de Janeiro. Na última pesquisa, apareceu em terceiro lugar, quase empatado tecnicamente com Marcelo Freixo (PSOL), que está em segundo.

Mesmo com o gesto ideológico do PSC, há de se perceber que ainda é muito pouco para equilibrar as forças na democracia brasileira. Até porque, convenhamos, partidos de esquerda e de centro-esquerda no Brasil existem ao montes, assim como os que insistem em não ter uma identidade própria, como o PMDB, o PR, o PP, o PRB e alguns outros. Mas de direita, assumidamente, temos a sigla do Pastor Everaldo e o DEM. O DEM, aliás, que já foi um dos maiores partidos do Brasil e tenta recuperar seu espaço, é o partido que pode reerguer a força do eleitorado mais centro-direita/direita. E a receita pode estar na sua origem: a UDN.

A UDN tinha força pra bater de frente com a esquerda em todos os aspectos

A União Democrática Brasileira existiu de 1945 até 1965, quando, assim como todos os partidos brasileiros, foi dissolvido com a resolução do Ato Institucional n° 2, promulgado pelos militares que assumiam o poder no País naquele ano. Entretanto, nos anos 40, 50 e 60, o universo partidário brasileiro era completamente diferente do que é hoje. Tínhamos apenas três legendas com alcance nacional, e cada uma defendia uma ideologia de forma clara e aberta. O maior partido era o PSD (que era bem diferente do atual, fundado por Gilberto Kassab), que defendia a Social-Democracia abertamente e era alinhado ao Partido Democrata, dos Estados Unidos.

O segundo maior partido tanto em número de votos como em cadeiras no Congresso Nacional era a UDN, que também não escondia que suas raízes eram o Conservadorismo e o Liberalismo Clássico, e que sua plataforma era bastante próxima a do Partido Republicano americano. Um dos maiores nomes da UDN foi Carlos Lacerda, jornalista assumidamente conservador, admirado por muitos por sua inteligência e sua capacidade de oratória na hora de fazer ferrenhas críticas ao na época presidente João Goulart, e também às heranças políticas deixadas por Getúlio Vargas.

PSD e UDN travaram uma batalha que durou duas décadas e meia. Naquela época não existia monopólio discursivo como vemos hoje a esquerda promover praticamente sem adversário nesse quesito. A briga era muito mais encardida. Se por um lado o PSD tinha seus apoiadores em todos os meios, a UDN também tinha seu exército espalhado onde mais pudesse tê-lo. Na mídia, por exemplo, o jornal Tribuna da Imprensa sempre levantava os pontos de vista liberal-conservador. No magistério, a quantidade de professores udenistas era quase igual a de professores peesedistas, e o mesmo acontecia no meio artístico.

O terceiro partido dessa época era o PTB, que se colocava no plano nacional como à esquerda do PSD, mas que em vários estados da federação assumia um papel fisiológico, tal qual o PMDB que conhecemos atualmente, e celebrava apoios tanto para candidaturas do PSD como da UDN, não importando se estivesse próximo ou longe ideologicamente do diretório nacional. No entanto, quando o assunto era disputa para a presidência, o PTB levantava uma campanha bastante socialista, às vezes até marxista. Até mesmo por isso era comum o diretório nacional da UDN impedir que diretórios estaduais do partido fizessem coligação com o PTB.

Os nomes de peso que fundaram a União Democrática Brasileira foram Otávio Mangabeira, da Bahia, Júlio Prestes, de São Paulo, além do ex-presidente Artur Bernardes. Também participaram da formação partidária membros da família Konder, de Santa Catarina, e da família Caiado, de Goiás. Outros líderes anti-varguistas ingressaram na UDN nos anos seguintes, como José Américo de Almeida, Juarez Távora, Antônio Carlos Magalhães, Juraci Magalhães, Carlos de Lima Cavalcanti e Flores da Cunha. O partido também formou uma ala interna de forte traço liberal clássico com Afonso Arinos de Melo Franco, Raul Pilla, Pedro Aleixo, Odilon Braga, Milton Campos e os irmãos Virgílio.

DEM, antigo PFL, foi fundado por membros da UDN

Como de 1964 até os anos 1980 não havia partidos políticos no Brasil por conta do Regime Militar, que governava através de eleições indiretas, as histórias dessas legendas ficaram para trás com o passar do tempo. O PTB até foi recriado com a volta da democracia, mas com uma identidade bastante diferente, bem menos esquerdista. O PSD também voltou a existir, mais recentemente, sob o comando de Gilberto Kassab, porém sem se declarar abertamente como social-democrata mas com uma identidade mais fisiológica. Por parte da UDN ficou mesmo só a história. Nunca mais o Brasil viu um partido que levantasse a bandeira do conservadorismo e do liberalismo clássico com força, de forma organizada e estratégica, apostando inclusive em narrativas que ganhassem expressão nos vários setores da sociedade.

Porém, muitos ex-udenistas se juntaram para formar uma nova legenda: PFL (Partido da Frente Liberal). Pertencente ao espectro centro-direita/direita, o partido procurou se fortalecer ingressando na Internacional Democrata Centrista, organização mundial opositora a Internacional Socialista. No entanto, sem conseguir na sociedade brasileira o mesmo apelo e a mesma força da UDN, com imagem arranhada por políticos malfeitores que tinham como prática a compra de votos, seus membros mais dedicados às causas da antiga UDN resolveram promover uma reformulação para retornar às suas origens e, em 2007, refundaram o partido, dessa vez com o nome de Democratas. Desde então uma disputa interna impediu o partido de crescer mais do que cresceu.

Kátia Abreu, que depois migrou para o PMDB para aderir ao governo do PT, e Gilberto Kassab, que saiu do partido para fundar justamente o PSD e, assim como a ex-colega, também cair nos braços petistas, enquanto estavam no DEM defendiam uma mudança de identidade. Eles queriam que o partido deixasse de ser de direita para ser mais fisiológico e, dessa forma, poder apoiar qualquer governo que se elegesse, até mesmo se fosse de esquerda. Kátia e Kassab chegarem a defender uma fusão com o PMDB, mas foram impedidos por Ronaldo Caiado e Onyx Lorenzoni, que também contaram com a ajuda de ACM Neto e Rodrigo Maia, na época presidente da legenda.

Como os governos do PT, principalmente nos mandatos de Luis Inácio Lula da Silva, contavam com um enorme apoio popular, chegando a bater 80% de aprovação, era muito difícil fazer oposição no Brasil. O PSDB tentava liderar uma ação de críticas ao PT, mas se viu praticamente impossibilitado de fazê-la, principalmente no primeiro governo de Lula, cuja agenda econômica do tucano FHC foi mantida. Quem realmente resistia e batia com força no petismo era o DEM (inclusive, certa vez, Lula chegou a dizer que era preciso extirpar o DEM da política brasileira), mas ao mesmo tempo o partido se encolhia. E muitas das suas fileiras acharam que era melhor se juntar ao governo do que continuar fiel no papel de oposição.

Atualmente, praticamente sem essa parcela que quis se juntar ao PT, o DEM tenta se reerguer. Liderado no Senado por Ronaldo Caiado e na Câmara por Pauderney Avelino, onde também tem o presidente da Casa, o deputado Rodrigo Maia, a legenda pode, enfim, comandar o ressurgimento de uma força de direita/centro-direita no país. Mas para isso é preciso rebuscar as bandeiras do Conservadorismo e do Liberalismo Clássico, defendendo o enxugamento da máquina estatal, a livre concorrência, o fim dos monopólios, se colocando contra o uso do dinheiro público para fins políticos, defendendo privatizações, liberdade econômica e, mais do que tudo, a sociedade de mercado, mas com inteiro respeito à Constituição.

E isso precisa acontecer não apenas no plano nacional, mas também nos planos estaduais e municipais. Não é uma tarefa fácil, mas é um desafio urgente. A democracia brasileira não sobreviverá apenas com um lado construindo narrativas, mesmo que mentirosas, e sambando sozinha no discurso.

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