Expresso News

[expresso-news] [twocolumns]

Colunistas

[colunistas][bleft]

Entrevistas

[entrevistas] [twocolumns]

Economia

[economia] [bsummary]

Guia sobre o "liberal-conservatism", responsável pelos governos Thatcher e Reagan


Por Wilson Oliveira

Acima de tudo, o liberal-conservadorismo é uma proteção anti-extremismo. Trata-se de uma sólida e rica literatura existente há mais de 200 anos, orientada pela ideia de liberdade econômica e civil com a sociedade de livre mercado, onde cada um possui suas responsabilidade e seus deveres a serem cumpridos, respeito e igualdade de todos perante a lei, inclusive para proteger a propriedade privada, liberdade de expressão e religiosa, independência das instituições sociais e impedimento que grupos se apropriem do governo para favorecer seus semelhantes ou quem quer que seja.

Esse conjunto de concepções é dissecado no mundo bibliográfico por David Hume, Adam Smith, Edmund Burke, Alexis de Tocqueville, Friedrich Hayek, T.S. Eliot, Michael Oakeshott, Isaiah Berlin, Russell Kirk, Theodore Dalrymple, John Gray, Gertrude Himmelfarb, Thomas Sowell, Phyllis Schafler, Roger Scruton, entre outros. Economistas liberais como Milton Friedman e Friedrich Hayek, além da filósofa libertária Ayn Rand, também possuem grande contribuição para a escola de pensamento liberal-conservadora por apresentarem visões que se encaixam perfeitamente bem às ideias propostas pelos teóricos anteriormente mencionados.

No Brasil, o liberal-conservadorismo é pouquíssimo divulgado intelectualmente. Justamente por isso, alguns debatedores como o filósofo Luiz Felipe Pondé e o economista Rodrigo Constantino preferem utilizar o termo em inglês, "liberal-conservative", pra deixar bem claro o fato de estarem falando de uma tradição britânica. Nos Estados Unidos, por exemplo, como não há, na mesma proporção que no Brasil, a apropriação errônea do termo 'conservador', o liberal-conservative é chamado de conservadorismo mesmo, e está representado pelo partido Republicano, assim como no Reino Unido se encontra no partido Conservador.

Thatcher no Reino Unido e Reagan nos EUA: ícones recentes de governos liberais-conservadores

Regido no sistema parlamentarista, o Reino Unido foi comandado durante 11 anos (de 1979 até 1990) pela primeira-ministra Margaret Thatcher, do Partido Conservador. Ela foi apelidada de "Dama de Ferro" por não ter medo de enfrentar adversidades, por maiores e mais fortes que pudessem parecer. Essa postura combativa começou dentro do próprio partido. Muitos correligionários foram contra a candidatura imaginando represálias da sociedade por colocarem uma mulher na disputa. Numa convenção partidária, Thatcher chegou a disparar: “Aos que tentam me negar, declaro: não existe essa coisa de sociedade isso, sociedade aquilo. Existem indivíduos, homens e mulheres, e existem as famílias. Não desistirei da minha candidatura gostem ou desgostem”.

Thatcher convenceu a maioria dos conservadores, conseguiu anular os que resistiam e venceu a eleição. Enfrentou os socialistas com pulso ainda mais firme no parlamento britânico. A mesma firmeza pôde ser vista nas mais importantes decisões do seu governo: o fechamento de fábricas estatais por conta do amplo programa de privatização lançado logo no começo do sua gestão. A ação provocou uma enorme onda de boicote à primeira-ministra fomentada pelos sindicatos. Margaret Thatcher, então, fechou uma leva deles e flexibilizou a legislação trabalhista britânica - “Eu entrei no governo com um objetivo inflexível: transformar o Reino Unido de uma nação dependente em uma nação autoconfiante, de um povo faça-para-mim em uma povo faço-eu-mesmo.”

Com um início conturbado enfrentando muitos protestos e com uma economia que demorou a se recuperar por conta dos ajustes fiscais que a própria Margaret Thatcher chamava de "arrumação da casa", ela sofreu com uma impopularidade que só foi superada graças a vitória na Guerra das Malvinas. O segundo mandato, ao contrário, já foi de crescimento econômico, mas também de muito enfrentamento a exemplo do primeiro. Com um perfil bem mais calmo e mais flexível, Ronald Reagan era um dos maiores amigos de Thatcher na diplomacia internacional. Em uma ocasião, criticando a união de socialistas, "liberais" e sociais-democratas em oposição a Thatcher no parlamento britânico, Reagan chegou a comparar a política com a prostituição: “Eu achava que a política era a segunda profissão mais antiga do mundo. Hoje vejo que ela se parece muito com a primeira”.

Ronald Reagan é outro exemplo de chefe de Estado que governou, nos Estados Unidos (de 1981 até 1989), na base do liberal-conservadorismo. Assim como Margaret Thatcher, ele também tinha uma competência magistral na comunicação. Porém, podemos considerar que sua habilidade nessa esfera era até maior que a da colega britânica, pois Reagan vinha da escola hollywoodiana de atores. Crítico contumaz dos políticos, dos discursos superficiais, dos programas genéricos de governos e da promessa do Estado ser a solução pra tudo, era muito comum Reagan aproveitar o momento dos discursos oficiais pra criticar os próprios políticos - "Os políticos são como os bebês: um enorme apetite numa ponta e nenhum senso de responsabilidade na outra".

Como havia prometido na sua campanha, assim que assumiu a Casa Branca Ronald Reagan colocou em prática uma expressiva linha de cortes, tanto no orçamento do governo como na cobrança de impostos, política que ficou conhecida como Reaganomics. O ex-presidente assumia que tinha fixação no aumento da produção, dos investimentos e do consumo, e para que isso acontecesse atuaria incansavelmente reduzindo o papel do Estado na economia. E ele conseguia apoio popular com suas boas sacadas na frente das câmaras: "Nunce espere que o Estado resolva os problemas (econômicos). Ele é o problema".

Conhecido como "presidente caubói" por ter estrelado muitos filmes de "velho oeste", Reagan se transformou em um personagem emblemático para o que podemos definir como liberal-conservador. Assumidamente conservador em valores morais, defendia a liberdade, mas sempre enfatizando que fosse praticada com responsabilidade; também era avesso ao consumismo na própria vida, mas sempre que possível estimulava os americanos que gostavam de consumir para que consumissem sempre que quisessem; ele também se classificava como "patriota-nacionalista", mas afirmava que para o seu governo o importante mesmo era o indivíduo. 

Apesar de ter sido o presidente que pôs fim à Guerra Fria ao estabelecer não apenas a derrota, mas o término da União Soviética, a oposição do partido Democrata não lhe dava descanso e chegou a acusá-lo de disseminar um culto ao egoísmo no país. Como de costume, a cada provocação Reagan dava uma resposta magistral, dessa vez conectando a vitória sobre a URSS com a acusação feita pelos democratas de um suposto "egoísmo" seu: “Os republicanos acreditam que todo dia é 4 de julho (independência dos EUA), mas os democratas dizem que todo dia é primeiro de abril (dia da mentira).”

Liberal-conservadorismo não é contraditório, mas sim evolutivo

Uma linha de pensamento jamais deve ser confundida com uma receita de bolo. Muitas pessoas não se classificam politicamente por preferirem ser livres pra pensar e opinar da forma que bem entendem. Tal afirmativa pode ser dada pelo fato dessas pessoas não saberem que as linhas pensamentos são apenas um auxílio na busca de soluções. Por outro lado, essa afirmação também pode ser resultado do susto que militantes dogmáticos causam a quem não está acostumado a lidar com ideologias, fazendo com que essas pessoas queiram manter distância de discussões políticas.

No Brasil, o termo "conservador" se distanciou da sua real origem por ser fortemente utilizado por religiosos mais fervorosos que desejam colocar sua visão dogmática à frente dos contrapontos. É interessante notar que esse comportamento é contraditório até mesmo ao que intelectuais conservadores sempre propagaram em suas obras, como a cautela sobre mudanças, a não-veneração a pessoas nem a ideias pré-concebidas e a desconfiança a quem diz ter a solução pra tudo. Hoje em dia, está praticamente impossível os leitores de Edmund Burke, Roger Scruton, Russell Kirk e tantos outros se assumirem conservadores, pois o risco de ser confundido com pessoas que votam em Marco Feliciano é imenso.

Paralelamente, a situação do termo "liberal" também não está nada boa. Atualmente, quem se define dessa forma pode ser confundido com absolutamente qualquer coisa, desde um social-democrata até um anarco-capitalista. É impressionantemente grande o número de grupos que se apropriam do termo. E geralmente isso não acontece pura e simplesmente por maldade, mas pelo fato de todos que defendem alguma liberdade se acharem no direito de se dizer liberal, ignorando que a palavra, na verdade, é uma nomenclatura para a escola de pensamento 'liberal clássica', cujos precursores foram Adam Smith e John Locke.


Exatamente por conta dessas distorções, em algum momento da história começaram a surgir definições mais flexíveis. Era preciso organizar as linhas de pensamento a medida que questões e mais questões passavam a preencher os dilemas das sociedades. A mais famosa resolução de nova linha de pensamento é a social-democracia, que basicamente une um socialismo mais suavizado com a democracia, antigamente acusada pela esquerda de "regime burguês".

Os sociais-democratas e os liberais-conservadores são os maiores nichos políticos do ocidente após a superação da dicotomia socialismo x capitalismo. Mesmo assim, como vimos, ainda existem outros grupos que possuem visões ainda mais à esquerda ou mais à direita, mas que em muitos momentos ficam fora das grandes discussões políticas que conduzem as decisões mais importantes a serem tomadas, no sentido de buscar soluções realmente eficazes para todos.

Um comentário:

  1. Se os Patriotas Reagan e Tatcher fossem apenas Liberais-Conservadores, talvez os EUA ainda estivessem desmoralizados pelo Vietnan e as Falklands à essa altura não estaria mais falando, estaria hablando...

    ResponderExcluir

Os comentários ofensivos e anônimos serão apagados. Daremos espaço à livre manifestação para qualquer pessoa desde que não falte com o respeito aos que pensam diferente.