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Entenda por que o PT sempre tentou abafar a morte do ex-prefeito Celso Daniel


Por Wilson Oliveira

Celso Daniel, então prefeito de Santo André, tinha 50 anos de idade quando, na noite de 18 de janeiro de 2002, voltava de uma churrascaria na região dos Jardins, em São Paulo. De acordo com o que foi noticiado na época, ele estava em um veículo Pajero, na companhia do empresário Sérgio Gomes da Silva, o "Sombra", que estava ao volante. No entanto, na rua Antônio Bezerra, em Sacomã, Zona Sul da capital paulista, criminosos fecharam o carro que levava o prefeito dando tiros nos pneus e nos vidros e sequestraram o político. Sombra teria continuado no veículo, sem que nada lhe tivesse acontecido.

Dois dias depois, num domingo, na parte da manhã, o corpo do prefeito Celso Daniel foi encontrado com onze tiros, sendo oito no rosto, na Estrada das Cachoeiras, no Bairro do Carmo, na altura do quilômetro 328 da rodovia Régis Bittencourt (BR-116), em Juquitiba. Responsável pela apuração do crime, a Polícia Civil do Estado de São Paulo finalizou o inquérito no dia 1º de abril de 2002 com uma versão no mínimo estranha, de que o ocorrido se tratava de um crime comum.

O relatório final da polícia, divulgado pelo delegado Armando de Oliveira Costa Filho, do Departamento de Homicídios e de Proteção à Pessoa (DHPP), trazia também a identificação dos participantes do crime. Seis pessoas de uma quadrilha da favela Pantanal, da Zona Sul de São Paulo, participaram da ação. Havia um menor de idade no bando. Este menor confessou ter sido o autor dos disparos que atingiram Celso Daniel. O inquérito indicou que os bandidos sequestraram o prefeito "por engano", e que "o confundiram com uma outra pessoa, um comerciante cuja identidade não foi revelada, e que seria o verdadeiro alvo do sequestro".

Engano? Envolvidos no sequestro e na investigação foram assassinados depois

Um dos fatos mais curiosos do caso é que mesmo com o relatório da Polícia Civil sinalizando que se tratava de um "crime comum" decorrido de um sequestro "por engano", envolvidos no crime a na investigação foram assassinados a tiros pouco tempo depois. De acordo com o colunista Reinaldo Azevedo, da Veja, "a lista de mortos ligados ao caso impressiona". Além do próprio Celso, há mais sete. Confira um trecho da publicação de Azevedo em abril deste ano sobre essas mortes (ou seriam "queimas de arquivos?"):

"Um é o garçom Antônio Palácio de Oliveira, que serviu o prefeito e Sérgio Sombra no restaurante Rubaiyat em 18 de janeiro de 2002, noite do sequestro. Foi assassinado em fevereiro de 2003. Trazia consigo documentos falsos, com um novo nome. Membros da família disseram que ele havia recebido R$ 60 mil, de fonte desconhecida, em sua conta bancária. O garçom ganhava R$ 400 por mês. De acordo com seus colegas de trabalho, na noite do sequestro do prefeito, ele teria ouvido uma conversa sobre qual teria sido orientado a silenciar.

Quando foi convocado a depor, disse à polícia que tanto Celso como Sombra pareciam tranquilos e que não tinha ouvido nada de estranho. O garçom chegou a ser assunto de um telefonema gravado pela Polícia Federal entre Sombra e o então vereador de Santo André, Klinger Luiz de Oliveira Souza (PT), oito dias depois de o corpo de Celso ter sido encontrado. “Você se lembra do garçom que te serviu lá no dia do jantar? É o que sempre te servia ou era um cara diferente?”, indagou Klinger. “Era o cara de costume”, respondeu Sombra.

Vinte dias depois da morte de Oliveira, Paulo Henrique Brito, a única testemunha desse assassinato, foi morto no mesmo lugar com um tiro nas costas. Em dezembro de 2003, o agente funerário Iran Moraes Rédua foi assassinado com dois tiros quando estava trabalhando. Rédua foi a primeira pessoa que reconheceu o corpo de Daniel na estrada e chamou a polícia.

Dionízio Severo, detento apontado pelo Ministério Público como o elo entre Sérgio Sombra, acusado de ser o mandante do crime, e a quadrilha que matou o prefeito, foi assassinado na cadeia, na frente de seu advogado. Abriu a fila. Sua morte se deu três meses depois da de Celso e dois dias depois de ter dito que teria informações sobre o episódio. Ele havia sido resgatado do presídio dois dias antes do sequestro. Foi recapturado.

O homem que o abrigou no período em que a operação teria sido organizada, Sérgio Orelha, também foi assassinado. Outro preso, Airton Feitosa, disse que Severo lhe relatou ter conhecimento do esquema para matar Celso e que um “amigo” (de Celso) seria o responsável por atrair o prefeito para uma armadilha.

O investigador do Denarc Otávio Mercier, que ligou para Severo na véspera do sequestro, morreu em troca de tiros com homens que tinham invadido seu apartamento. O último cadáver foi o do legista Carlos Delmonte Printes. Perderam a conta? Então anote aí:

1) Celso Daniel : prefeito. Assassinado em janeiro de 2002.
2) Antônio Palácio de Oliveira: garçom. Assassinado em fevereiro de 2003.
3) Paulo Henrique Brito: testemunha da morte do garçom. Assassinado em março de 2003.
4) Iran Moraes Rédua: reconheceu o corpo de Daniel. Assassinado – dezembro de 2003.
5) Dionízio Severo: suposto elo entre quadrilha e Sombra. Assassinado – abril de 2002.
6) Sérgio Orelha: amigo de Severo. Assassinado em 2002.
7) Otávio Mercier: investigador que ligou para Severo. Morto em julho de 2003.
8) Carlos Delmonte Printes: legista encontrado morto em 12 de outubro de 2005."

Irmão de Celso Daniel afirmou que o ex-prefeito sabia de esquema de corrupção que beneficiava o PT

De acordo com o promotor Francisco Cembranelli, Celso Daniel foi morto por ter descoberto um esquema criminoso de cobrança de propinas. Os desvios abasteceriam o “caixa dois” do PT, de acordo com os acusadores do caso, que participavam de uma nova investigação aberta pelo Ministério Público de São Paulo. Na época da nova apuração do caso, que aconteceu no final de 2010, o promotor revelou que de acordo com os depoimentos das pessoas que sofriam extorsão, o pagamento da propina girava em torno de R$ 30 mil a R$ 40 mil.

“O chefe do esquema era Sérgio Sombra. Ele que recolhia. Temos empresários que foram deixados de lado porque não pagavam essa propina”, disse Cembranelli, que concluiu: “Não sou eu que estou dizendo. Não tenho nenhum interesse político nisso. São provas testemunhais.”


Desafeto pessoal de Celso Daniel, seu próprio irmão João Francisco Daniel foi quem revelou a existência de um esquema de propina na prefeitura de Santo André, e que Celso era conivente - inclusive, o prefeito seria o coordenador da campanha de Lula à presidência da República em 2002. Segundo o promotor Francisco Cembranelli, “a arrecadação era para ganhar a eleição de 2002”, disse, se referindo a disputa em que Lula foi eleito presidente do Brasil.

No entanto, um fato revelado por João Francisco pode ter mudado todo o horizonte do esquema de corrupção: “O irmão disse que Celso Daniel possuía um dossiê que indicava as pessoas que estavam desviando dinheiro da prefeitura.” Entre as pessoas envolvidas no esquema, José Dirceu, que após a eleição foi nomeado como ministro-chefe da Casa Civil, seria o comandante. Curiosamente, o dossiê preparado por Celso Daniel, que poderia cair como uma bomba logo no início do governo Lula, sumiu pouco após a morte do político. 

Em abril de 2016, mídia noticiou que caso havia chegado à Operação Lava Jato

Em 2012 as investigações sobre a morte de Celso Daniel ganharam nova configuração com uma revelação de Marcos Valério, operador do mensalão, em julgamento perante o Supremo Tribunal Federal. Na ocasião, Valério afirmou à Procuradoria que o ex-presidente Lula e ex-ministro Gilberto Carvalho estariam sendo extorquidos por criminosos envolvidos no esquema. E esses criminosos estariam diretamente ligados ao caso da propina na prefeitura de Santo André.

No primeiro semestre deste ano, a Lava Jato se aproximou do caso da morte de Celso Daniel, durante a 27ª fase da operação. O ponto alto foi a prisão de um empresário de Santo André, Ronan Maria Pinto. De acordo com a Polícia Federal, ele é suspeito de ter recebido R$ 6 milhões do esquema de corrupção da Petrobras. No despacho em que autoriza a prisão, o juiz Sérgio Moro cita a morte do prefeito da cidade, Celso Daniel (PT), em 2002, e levanta a possibilidade do assassinato ter envolvimento com crimes ocorridos no setor de transporte da cidade, que seria a origem do dinheiro desviado: "é possível que este esquema criminoso tenha alguma relação com o homicídio, em janeiro de 2002, do então Prefeito de Santo André, Celso Daniel, o que é ainda mais grave".

Infelizmente para a família do ex-prefeito de Santo André, nem a Polícia Civil de São Paulo e nem a Operação Lava Jato avançaram sobre o caso da morte de Celso Daniel para trazer esclarecimentos contundentes e convincentes, apesar dos pontos trazerem alguns questionamentos que nos levam diretamente às figuras de Luis Inácio Lula da Silva, José Dirceu, Gilberto Carvalho e, por tabela, a toda cúpula do Partido dos Trabalhadores. Vale mencionar, também, que Celso Daniel foi um dos fundadores da legenda. No entanto, para o PT e seus aliados, esse caso quase nunca é citado. Esclarecimentos então, pelo visto, se depender dos petistas, não teremos nunca.


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