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Em 1992, Itália teve uma operação muito parecida com a Lava Jato


Por Wilson Oliveira

Muito parecida com a "Lava Jato", no Brasil, que surgiu investigando postos de gasolina, a "Mãos Limpas" ganhou forma investigando uma loja maçônica. Mas não era qualquer loja. Tratava-se da P2, propriedade de Roberto Calvi, que também era presidente do Banco Ambrosiano, a instituição financeira privada que havia se transformado no Banco Ambrosiano Veneto após uma fusão com o Banco Católico Vêneto. Também conhecido como Banco do Vaticano, a instituição financeira era responsável por toda a riqueza da Igreja Católica.

A "Mãos Limpas" teve início no ano de 1992 e foi criada para desvendar esquemas criminosos que, supostamente, haviam ocorridos apenas nos anos 1980. No entanto, conforme os investigadores se aprofundavam no desenrolar dos casos, maior ficava o período em que práticas criminosas foram adotadas. O número de envolvidos também aumentava exponencialmente. Primeiro, chegou-se a autoridades máximas do país e, posteriormente, aos comandantes da máfia italiana. Diretores financeiros do Banco do Vaticano também foram incriminados - um verdadeiro roteiro que colocou o país todo abaixo. Embora tenha se iniciado em Milão, a operação chegou ao centro do poder em Roma.

Outra semelhança com a Lava Jato é que a Mãos Limpas passou a ganhar repercussão nacional a medida que recebia delações premiadas de testemunhas de peso. As primeiras foram do dissidente da KGB, Vladimir Bukovski, e do ex-mafioso Tomasso Buscetta. Os dois depoimentos abriram caminho para uma série de revelações e troca de acusações, que envolvia cada vez mais gente naquele enredo - de empresários a políticos - tornando cada etapa da Mãos Limpas espetacularmente mais marcante para a história jurídica e política da Itália.


A Mãos Limpas provocou uma verdadeira paralisação na rotina dos italianos e devassou a vida de muita gente. Após seu término, os números obtidos davam contornos de uma verdadeira produção cinematográfica ao melhor estilo hollywoodiano. A força-tarefa culminou com suicídio de 12 dos maiores empresários da Itália. Em outra ponta, na tentativa de evitar delações mais bombásticas, a máfia siciliana cometeu dezenas de assassinatos, inclusive dos juízes Paolo Borsellino e Giovanni Falcone. No entanto, o saldo da investigação foi de 2.993 mandados de prisão. Ao todo foram 6.059 pessoas investigadas.

Abalada e às vezes sem saber qual rumo tomar, a opinião pública italiana tentava, a cada revelação, ganhar forças para interpretar o que acontecia no país e buscar alguma espécie de explicação. Afinal, os olhos de planeta se voltavam para a Itália, mais precisamente para a cidade de Milão, que ganhava a alcunha de "Cidade do Suborno". Para o mundo, ficava nítido que havia ali a institucionalização da propina na política, nas obras públicas e nas campanhas eleitorais. As estradas e metrôs italianos, por exemplo, custaram quatro vezes mais do que a média de toda a Europa. Era muito dinheiro público que tinha ido para o ralo da corrupção.

Uma grande marca da força-tarefa italiana foi ter forçado o encerramento de atividades daqueles que eram considerados os maiores partidos políticos da Itália. Em 1992, um grande governo de coalizão, que reunia forças ideológicas naturalmente divergentes, contava com as grandes legendas do país: o Democracia Cristã (DC) e o Partido Socialista Italiano (PSI) eram os principais, também os mais envolvidos no esquema de corrupção. Mas morreram juntos na varredura jurídica o Partido Social-Democrata Italiano (PSDI) e o Partido Liberal Italiano (PLI).


Juiz que participou da "Mãos Limpas" se diz decepcionado com o povo italiano

Declaradamente inimigo de Silvio Berlusconi e de uma leva de políticos e ex-políticos italianos, o ex-juiz e ex-procurador Gherardo Colombo renunciou sua carreira no judiciário por entender, segundo o próprio, que a Justiça não reunia condições, sozinha, de acabar com a corrupção endêmica e secular naquele país europeu. Hoje em dia ele é empresário no ramo dos livros - tem uma editora e apresenta palestras sobre política e justiça.

Em março deste ano, Colombo esteve em São Paulo para participar do Centro de Debate de Políticas Públicas (CDPP). Na ocasião, atendeu vários veículos da imprensa brasileira e chegou a relatar sua decepção ao se deparar com uma reviravolta responsável por decretar o fim da Operação. O ex-juiz afirma que quando a "Mãos Limpas" começou a investigar cidadãos comuns, todo o apoio que haviam obtido se perdeu.

"A herança desse caso está no fato que pudemos constatar que, por meio de uma investigação judiciária, não se pode enfrentar a corrupção, quando ela é tão difusa como na Itália. Eu creio que hoje a corrupção não seja menos espalhada do que então. Investigamos por seis, sete anos. Fizemos processos até 2005 e, porém, a corrupção não diminuiu.

Para mim, a cidadania, os cidadãos comuns tiveram uma parte importante na decretação do fim da Mãos Limpas porque, no início, eram todos entusiastas na Itália das investigações, pois elas nos levavam a descobrir a corrupção de pessoas que estavam lá em cima. Mas, conforme elas prosseguiram, chegamos à corrupção dos cidadãos comuns: o fiscal da prefeitura que fazia compras de graça, que não fiscalizava a balança do vendedor de frios, que continuava a vender apresuntado como se fosse presunto..."

Na mesma entrevista, Gherardo Colombo afirma que sua renúncia se deveu ao fato de ter percebido que toda a vontade da força-tarefa e toda a estrutura investigativa que haviam conseguido não seriam o suficiente. Colombo declara que a certa altura percebeu que apenas uma profunda mudança de comportamento das pessoas comuns seria a verdadeira força motora para pôr fim à corrupção. Após a operação, a Itália elegeu Silvio Berlusconi como primeiro-ministro. O seu governo foi considerado um verdadeiro contra-ataque à operação Mãos Limpas, por ter enfraquecido o judiciário e restabelecido o altíssimo nível de corrupção na Itália.

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