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A fraude da "cultura de estupro" e a abjeção moral de seus defensores

Rakelly: vítima de um estuprador, não da sociedade

Por Luis Cláudio

Menina, 8 anos, cabelos pretos, pele branca, inocência em pessoa. “Vou brincar com meu amigo no sítio”, diz a garota aos pais antes de sair de casa numa quarta-feira. O sítio é bem perto, não havia perigo da menina se perder. Porém, passam-se as horas, chega a noite e nem sinal da criança.

Os pais, preocupados, vão ao sítio buscar a menina e descobrem que ela já não estava mais lá. Pânico! “Como assim ela não está aqui?!”, teria exclamado a mãe. Os pais percorrem o sítio inteiro a procura da menina, vão às casas dos vizinhos, perguntam nas ruas... e nada! Foi-se então quarta, quinta, sexta-feira e ninguém encontrava a garota.

Chega sábado. A Polícia Civil faz buscas e, finalmente, localiza a infante. Mas, para a infelicidade de todos, já morta. Achada numa fossa séptica, amarrada pelo pescoço com um saco plástico na cabeça. Cena brutal. A família vai à loucura. A vizinhança local fica chocada ao descobrir que aquela menininha simpática e querida por todos havia sido assassinada. Pior que isso: a autópsia comprova abuso sexual ante mortem. Quem seria capaz de tal coisa? Descobriu-se o criminoso responsável: o caseiro do sítio que a menina dissera que iria. A população revoltada destrói a residência do caseiro, demonstrando repúdio e indignação com o ocorrido.

De fato, esse caso é real. A menina da história se chamava Rakelly Matias Alves. O monstro, José Leonardo de Vasconcelos Graciano, 33 anos. Ocorrido em Itaitinga (CE), o caso escandalizou os cearenses e mobilizou vários setores da sociedade, destacadamente os grupos e movimentos sociais destinados a proteção de crianças e adolescentes. O criminoso foi indiciado por estupro de vulnerável, homicídio triplamente qualificado e ocultação de cadáver.

Pois bem, o sujeito será levado à Justiça, onde prestará contas pela barbaridade cometida. Somando-se as penas cominadas, estima-se que ele leve 43 anos de prisão. Para muitos, a pena não é suficiente: querem sangue. No entanto, não é hora de entrar nesse mérito.

Na mídia, as notícias sobre o caso circularam com certa volatilidade, desde o desaparecimento da menina até a identificação do assassino. Diante disso, chegando ao ponto central: o jornal "O Povo", destaque na imprensa cearense, publicou no último dia 26 um editorial infeliz (veja a íntegra aqui) utilizando como mote o caso Rakelly. Vamos ao editorial:

"O caso da menina Rakelly Matias, de 7 anos, estuprada e morta em Itaitinga, no fim de semana, reacende o debate sobre violência sexual e machismo. Como apontou uma pesquisa divulgada pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública, 'temos que ensinar meninos a não estuprar meninas'.

A frase é chocante, mas expressa a necessidade do presente e do futuro numa mudança de comportamento na sociedade brasileira. É preciso dar um basta à cultura do estupro.

É inadmissível, como mostrou a pesquisa encomendada ao Datafolha, o Brasil ainda aceitar conviver com a prática de um crime que só reflete o quanto o país perpetua o 'axioma' do machismo.

O levantamento, feito a partir de 3.625 entrevistas com pessoas a partir de 16 anos, em 217 municípios, demostrou (sic) o quanto as políticas públicas, leis específicas e a rede de proteção não conseguem modificar o cotidiano brasileiro nas questões de gênero.

De acordo com a pesquisa, mais de um terço da população brasileira consideram que a vítima é culpada pelo estupro e que 65% das pessoas entrevistadas têm medo de sofrer violência sexual.

O medo reflete o quanto o debate sobre direitos iguais para homens e mulheres, e contra a hierarquização do 'poder' de um sobre o outro, é equivocado a começar pela falta de discussão e prática em família.

É reprovável persistir a máxima de que 'mulheres que se dão ao respeito não são estupradas'. A crença criminosa ainda é enraizada em 42% dos homens entrevistados e 32% das mulheres abordadas pelo Datafolha.

A estatística negativa da pesquisa é vasta, mas pode ser transformadora na mudança de paradigmas. 91% dos entrevistados concordam que 'temos de ensinar meninos a não estuprar'.

Como afirmou a psicóloga Valeska Zanello, professora da Universidade de Brasília, as leis – a exemplo da Maria da Penha – são necessárias mas pouco efetivas na eliminação das causas do problema. Focar na educação formal e não formal, em casa, na escola e na rua, produziria meninos e meninas contrários à cultura do estupro e intolerantes a (sic) perpetuação do machismo."

Voltando...

O editorial postula, usando como mote o caso acima mencionado, a existência de uma "cultura do estupro" no Brasil resultante do "machismo". Bom, friso aqui de antemão que sou amplamente favorável à liberdade de imprensa e de expressão, ainda que os jornais usufruam dessa garantia para sustentar mentiras, que é o caso em questão.

Sobre isso, leia também:
Liberdade de Expressão e sua proteção na Constituição Federal

O fato é que não existe cultura de estupro no Brasil!

Tudo bem, serei mais didático. Se vivêssemos sob uma cultura de estupro, "Zé" (como o caseiro era chamado) não estaria na cadeia para começo de conversa. Estaria sendo aclamado neste momento nas ruas. "Viva! Viva! Temos mais um herói!", diriam os mais entusiastas. Os meninos tirando selfie, os homens da vizinhança pagando-lhe uns drinks para celebrar a inclusão de mais um ao time. E a família de Rakelly? Estaria humilhada, tendo que, provavelmente, sair da cidade, quiçá, do País.

Parece ridícula a ilustração? Pode parecer, mas, em países onde realmente existem culturas de estupro, é assim que funciona. Um exemplo claro é a República Democrática do Congo, onde, segundo a própria ONU, estupros são instrumentos de guerra e demonstração de "supremacia" de tribos locais sobre outras. Lá, há farta impunidade aos estupradores das tribos "vitoriosas". Lá, sim, as mulheres não têm vez nem voz.

Porém, o problema maior com o editorial não é sequer o viés progressista embutido, mas o uso do nome de Rakelly para construir essa armação demagógica. Isso revela a tamanha baixeza e amoralidade presente em alguns veículos de mídia que não medem esforços ao utilizar-se do sofrimento de uma inocente para apregoar falsidades.

"Ahhh, mas o editorial menciona uma pesquisa". Realmente. Não ignoro os pontos de vista apresentados pelos dados estatísticos. Entretanto, reitero, eles não apontam que há uma cultura de estupro. O que apontam, isso sim, é que existem pessoas ignorantes e estúpidas ao ponto de atribuírem parte da culpa do crime à vítima. Infelizmente, nesse ponto o jornal acertou.

Agora, no que diz respeito à lógica torpe de "cultura de estupro", faço uma pergunta aos que creem nisso: se a sociedade brasileira realmente cultiva estupradores, então, como explicar a revolta popular contra "Zé", ao ponto de destruírem a casa dele? Ou ainda: como explicar o escândalo e o repúdio repercutido sobre isso nos jornais?

Não é a primeira vez que o Ceará encara um caso como esse. Em 2010, o caso da menina Alanis chocou todo o Estado. História similar: a menina foi raptada nas imediações de uma igreja, estuprada, deformada e teve seu corpo largado num matagal. Igualmente como no caso de Rakelly, a população ficou indignada e, inclusive, houve tentativa de linchamento do criminoso. Para se ter noção, nem presidiários são solidários aos estupradores que vão presos. Ao contrário, não raras são as situações de "vingança" feita pelos próprios detentos contra abusadores.

O que se há de atestar, enfim, é a completa falta de vergonha dos editores ao publicarem tamanha leviandade, usando-se de um ato de crueldade sem precedentes a fim de fazer propaganda da farsa feminista de que somos um País de estupradores.

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