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Os problemas do Brasil vão muito além de serem políticos e econômicos. São, também, culturais e sociais


Por Vinicius Campos

O ultimo artigo que escrevi para O Congressista dissertou acerca da estrutura de sociedade conservadora-liberal e de algumas diferenças para uma sociedade liberal de modo mais extremo. Então, alguns dias atrás, me veio à mente um tema delicado e que tem total ligação com este texto. Trata-se não apenas do déficit cultural que temos, mas também do foco errado no investimento cultural dado pelo nosso governo.

Faz-se necessário retrocedermos parte do que foi tratado naquele texto. Falávamos que, para o conservadorismo Burkeano ou, mais propriamente descrito por Roger Scruton, o que faz com que uma sociedade tenha um mercado livre e sólido são os valores sociais, como confiança, responsabilidade, hombridade, dentre outros, construídos de baixo para cima, em pequenos grupos sociais de forma livre, sem um objetivo maior ou mais abrangente que poderia ser ditatorialmente ditado de cima para baixo. Ao contrário do liberalismo pouco mais radical que acredita no oposto, ou seja, que o que forma valores morais é o livre mercado, e é daí que nascem utopias como, por exemplo, o anarco-capitalismo.

Ora, temos de convir que o Estado, pela abrangência que tem, é um dos maiores formadores culturais de uma sociedade. Ele pode tanto iniciar uma derrocada cultural e, assim, social, como oposto. Um governo autoritário que visa usar do poder em benefício próprio, e que, desta forma, dita os objetivos sociais de forma abrangente, de cima para baixo, sabe que tem de destruir pequenos núcleos culturais e sociais. Hitler sabia muito bem disso quando iniciou uma empreitada para acabar com registros históricos culturais da Alemanha, retratado no filme “Caçadores de Obras Primas”, além de restringir reuniões ocasionais entre pessoas sem autorização do governo, receoso que isso gerasse uma revolta de baixo para cima. É justamente por conta disso que, para que uma sociedade liberal-conservadora funcione, moldada de baixo pra cima, formando cultura através de pequenos grupos sociais, o Estado tem de ter postura passiva na maioria das vezes, se certificando apenas que nenhuma cultura destes pequenos grupos prevaleça sobre os demais à força.

Apesar de não citar diretamente o Brasil no texto postado por mim neste site, não é preciso muita análise para inferir que há uma ligação direta. Temos um déficit cultural grande que nos causa problemas culturais sérios. Não se trata aqui de uma condenação direta aos brasileiros de modo individual. Não quero ofender o leitor deste texto, pois cultura e costumes são muitas vezes arraigados em nós involuntariamente, e por se tratar de costume popular, fica difícil conseguir “libertar-se”. O que temos no Brasil é uma cultura de dependência do governo muito grande que, além de atrapalhar uma guinada para o liberalismo (e aqui evidencio a maestria do Conservadorismo em demonstrar que são os valores morais que formam um mercado livre, e não o oposto), também mina diretamente nossos valores morais como a caridade privada, por exemplo.

Somos um país que pratica pouquíssima caridade, somos poucos convalescidos com o próximo, mesmo o brasileiro sendo extremamente simpático, algo característico de uma grande hipocrisia (sou simpático, desde que isso não me incomode). Além disso, nos preocupamos pouquíssimo com o futuro. Basta ver que nosso país detém baixíssimas taxas de investimento e poupança. Assim, dependemos do Estado para praticar caridade, para cuidar de nosso futuro, e, aos poucos, perdemos contatos social e responsabilidade com outros e conosco mesmo.

Este conjunto de fatos gera problemas tanto de ordem social quanto de ordem pública. Como dependemos do paternalismo estatal, os políticos de mal grado aproveitam-se. Como bem dissertou Scruton em seu livro “O que é ser um conservador”, ao criar uma dependência do Estado e de políticos, damos legitimidade para regimes de poder que traçam ideais abrangentes, minando nossa liberdade, nossos grupos culturais, criando dependência e acabando com a proximidade e a caridade.

Admitindo que o governo é um dos principais formadores culturais de uma sociedade – mas, explicando que sua influência cultural é tão maior conforme a dependência social deste, uma vez que países que são mais independentes do governo, como o EUA, tendem a reduzi-lo e a mantê-lo pequeno de modo que sua influência cultural se torne risível – e que este pode iniciar uma guinada cultural -, precisamos cobrar que o governo inicie um processo de redução, ao mesmo passo que, através do investimento em cultura, influencie o processo de responsabilização das pessoas. Responsabilidade com seu futuro, responsabilidade com os grupos sociais que o cercam, respeito com a diversidade, responsabilidade pelas mazelas sociais, responsabilidade com sua pátria, entre outros.

O governo precisa, ao invés de alimentar o ódio entre grupos, caminhar no sentido oposto, incentivar a aceitação e a proliferação de amor e paz entre as pessoas, valores que só existem se casados com a responsabilidade. Temos de nos sentir responsáveis por existir tanta pobreza em nosso país, de modo que adentremos em algum grupo de caridade privada, ou ainda, fundemos um. Temos que ter consciência de que a previdência social (pública) não garantirá - como não garante - nosso futuro, entre outras preocupações.

Se intentando a isto, é indispensável que o governo participe deste processo, mas no sentido correto. Nosso governo investe em cultura, mas pouco se vê proliferar cultura que nos direcione a maximização destes valores. O fatídico caso da peça que retratava uma “exploração anal”, oriundo do SESC em Juazeiro do Norte, é um nítido caso de que algo está errado. Obviamente que o papel da peça era menos depreciativo do que retratado por 90% dos “analistas de facebook”. Talvez houvesse algum objetivo pouco mais nobre do que o retratado por esses. A peça se tratava de uma quebra de paradigma, como se tentasse quebrar o preconceito em relação ao órgão excretor. Mas é obvio que o déficit cultural da maioria da população brasileira não deixaria que isto ficasse evidente (e novamente isento a população brasileira de culpa).

Assim, seria muito mais proveitoso que se investisse em peças que elevassem os valores sociais que citamos até então. Poderíamos, por exemplo, aproveitar o gancho das Olimpíadas para citar algum atleta que, graças a algum tipo de caridade, chegou até os Jogos e hoje é campeão, exaltando a importância de ser caridoso. Ou então contar a história de quem quer que fosse, mas que o roteiro fosse propriamente dependente de evidenciar que, exercendo nossa responsabilidade com o próximo, podemos mudar vidas.

É por estas e outras que temos muito a caminhar. Embora percebamos que temos graves problemas políticos e econômicos, não podemos negligenciar os problemas sociais e culturais. Precisamos bater nesta tecla, pois a partir daí que pode-se encontrar a verdadeira evolução da sociedade brasileira.

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