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Índia: paradoxo liberal, paradigma conservador



Por Ricardo Vitorino 

Este artigo foge à regra dos textos que tentam mostrar um país como modelo de políticas liberais. Ninguém costuma usar a Índia como exemplo. Por parte dos conservadores, então, muito menos. Mas quero quebrar alguns paradigmas mesmo - e, na minha opinião, este é, talvez, o melhor país pra se compreender tanto o liberalismo quanto o conservadorismo, e mostrar como ambos podem ser compatíveis.


A Índia liberal

Todos sabem - ao menos deveriam - que a Índia foi uma colônia britânica desde o auge do Império Britânico até tempos relativamente recentes. A luta de Mahatma Gandhi em seu país, a princípio, foi pela independência. Por conta disso há um número enorme de indianos que falam inglês fluente e tem o idioma como língua oficial. Além disso, os britânicos legaram a Índia todo o seu aparato estatal, burocrático, instituições, tradição administrativa, etc. 

A Índia é uma república presidencialista, onde bem ou mal vigora o império da lei (rule of the law), e onde, também bem ou mal, há igualdade perante a lei. Talvez o melhor exemplo seja o de um dos presidentes, em tempos recentes, que era um dálit, um intocável, sem casta, considerado impuro pela tradição hindu, que ainda assim governou o país!

A Índia conservadora

Este é o ponto que eu queria chegar, embora toda a colonização britânica, todo o liberalismo inglês, toda a 'civilização ocidental', façam da Índia o que ela é hoje, a ponto de a igualdade perante a lei, pedra de toque do liberalismo, permitir que um dálit, um intocável, impuro, chegue ao posto mais alto de comando civil. A sociedade hindu guarda seus valores, suas tradições e seus princípios de uma maneira tão forte que nem mesmo o presidente do país pode alterá-la. 

Por exemplo, as outras castas como ksatryas (militares), vayshas (comerciantes) e brâmanes (sacerdotes) continuam mantendo suas tradições, não se misturando entre castas e considerando os dálits (sem castas, expulsos de suas castas) como inferiores e impuros, mesmo que seja o presidente! 

Detalhe, não está em questão se isto é bom ou ruim, certo ou errado, bonito ou feio, apenas estou relatando o fato de que o liberalismo não alterou o conservadorismo daquela sociedade! 

Sei que muitos, ao chegarem neste ponto do artigo, ficarão chocados e discordarão dizendo que é função do liberalismo libertar estas pessoas etc. Vamos por partes. No que toca à vida, à propriedade e à liberdade de cada indivíduo, independentemente da casta, sim! E o liberalismo fez isto na Índia. Uma das tradições era durante o funeral de um homem a esposa deste ser queimada viva! Isto foi abolido pela influência liberal dos britânicos. A vida de cada indivíduo é mais importante que qualquer tradição e cultura (isto também vale para o infanticídio de alguns indígenas!). 

Porém, há um outro lado da teoria liberal que muitos esquecem: desde que não haja ameaça à vida e à integridade física de nenhum indivíduo, nem a sua propriedade nem a sua liberdade, ninguém é obrigado a absolutamente nada! Ou seja, se para um brâmane um dálit é impuro, nenhuma lei pode obrigá-lo a pensar o contrário! Mesmo que o dálit seja o presidente! Se para um militar sua filha se casar com um comerciante é uma vergonha, vão obrigá-lo a aceitar isso? E se ele se recusar a concordar, vão fazer o que? Multar? Prender? E ainda vão fazer isso em nome do liberalismo?

É óbvio que em se tratando de uma sociedade ocidental, greco-romana, judaico-cristã, a cultura e a tradição são diferentes das da Índia. No entanto, o ponto que quero expor é que é totalmente possível conciliar liberalismo e conservadorismo em uma sociedade! Desde que os princípios básicos do liberalismo sejam observados, não há nada que impeça uma sociedade de ser liberal e conservadora. 

O que não se pode é, em nome do liberalismo, proibir as pessoas de viverem como desejarem de acordo com suas preferências, crenças ou tradições. E muito menos obrigá-las a aceitar algo que vá contra sua consciência, evidentemente, desde que respeitem a vida, propriedade e liberdade de outros.

Enfim, se a Índia prova que isto é possível e viável, fiz questão de usá-la como exemplo extremo. Poderia ter usado Japão, Coréia etc. Não há motivos para se opor, nem argumentos que sustentem o contrário. Já passou da hora de liberais e conservadores deixarem suas diferenças de lado. A convivência entre nós é possível e pacífica, pois o inimigo é outro!

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