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[OPINIÃO] Crítica ao hipotético voto de Pondé em Jean Wyllys


Por Wilson Oliveira

Numa entrevista concedida ao Roda Viva nesta semana (vídeo completo ao final do artigo), o filósofo, escritor e professor Luiz Felipe Pondé jogou como um tijolo o motivo de grandes confrontos teóricos que tem tomado cada vez mais espaço nas redes sociais, nas universidades, nos ambientes de trabalho e até nas reuniões familiares: a liberdade individual versus o comportamento mais conservador, tanto na vida das pessoas como na política. No entanto, por um profundo erro de cálculo no seu discurso nessa entrevista, Pondé tomou como referência dois políticos que não refletem essa dicotomia: Jean Wyllys e Jair Bolsonaro. Primeiro porque o os dois são produtos de um mesmo meio: crise de representatividade que assolou a política fisiológica brasileira. Segundo que, partindo do mesmo princípio, embora sejam antagônicas, essas duas figuras não possuem abrangência ao ponto de serem colocadas como representação dos lados nessa ampla discussão.

É interessante notar que para um defensor da sociedade de mercado (caso deste que vos escreve e do próprio Pondé), a política não deve entrar nesse hall mercadológico. Na política, é preciso ter a coerência produtiva que nem sempre surge como obrigação no mercado, onde o importante é lucrar atendendo bem, não importando se é para um público específico ou para vários públicos. Filosoficamente falando, a política não é uma mera atividade de compra e venda, pois um vendedor pode vender uma coisa hoje e outra completamente diferente amanhã, ao passo que um consumidor pode optar por comida japonesa no sábado e churrasco no domingo. Se os políticos e seus partidos não tiverem um linha muito clara de ideias e ações, fica difícil estabelecer qual setor da sociedade ele representa - assim como é uma tremenda maluquice achar que um político ou um partido pode atender a todos, apesar de muitos políticos brasileiros, por terem uma mentalidade estatista, acreditarem piamente nisso.

O Estado não tem nem nunca terá como perceber e atender diferentes vontades. Exatamente por isso que um liberal-conservador defende que o poder estatal seja limitado e que sua atuação não ultrapasse a barreira da gestão das regras de convívio, pois quando entra na economia passa a pisar num terreno que não lhe compete. E foi através dessa mentalidade estatista de achar que é possível atender a todos que veio a tal crise de representatividade que assolou e ainda assola a política brasileira. As pessoas não se viam refletidas nos políticos que apareciam na mídia por acharem todos muito parecidos e muito distantes da realidade.

É dessa crise que vimos surgir figuras como Jean Wyllys - um ex-BBB que utilizou sua sexualidade para se promover, desde o reality show até a vida pública - e Jair Bolsonaro - um militarista anti-esquerda que vem tentando capitalizar um extrato liberal-conservador que começa a surgir no Brasil. Porém, dada a origem nacional-desenvolvimentista do mesmo, esse esforço vem encontrando muita dificuldade sem a certeza de sucesso. Como um filósofo, Luiz Felipe Pondé perdeu uma enorme oportunidade de esclarecer essa questão. Obviamente, analisando seus vídeos, suas colunas, seus artigos e suas entrevistas, ele sabe bastante sobre o que levou Jean Wyllys e Jair Bolsonaro ao "estrelato", digamos assim.

Pondé sabe, aparentemente, que esse processo, embora inevitável, não indica a consolidação da representatividade, que o próprio afirmou, ao longo da entrevista mas com outras palavras, que nunca atingirá um grau definitivamente perfeito. Entretanto, Wyllys e Bolsonaro são os exemplos mais rasos do que é representar lados. Porque eles são claramente ícones de nichos bastantes específicos da sociedade brasileira que tentam, de forma até desaconselhável, ampliar seus horizontes programáticos, mas sem promover visões mais amplas daquilo que eles mesmo são originários.

Muitas pessoas que acompanham a política brasileira sem paixões, e sem aquela cegueira que só o fanatismo é capaz de produzir, costumam afirmar que no caso de Jean Wyllys e de Jair Bolsonaro o sucesso de um depende do sucesso de outro. De certa forma esse pensamento é verdadeiro, uma vez que os dois criaram uma rivalidade que se estende aos seus eleitores - que se encontram no Rio de Janeiro, o que serve para complementar ainda mais essa visão. Acontece que quando se fala na discussão "liberdade individual versus comportamento mais conservador" - seja na política, seja na vida pessoal - usar Jean Wyllys e Jair Bolsonaro como referência torna o todo muito superficial.

Jean Wyllys não tem condições de representar os gays como um todo, porque ele não tem suporte político para representar os gays que discordam do movimento LGBT, ou seja, os gays conservadores, simplesmente porque o PSOL, seu partido, assim como seus eleitores, são "LGTB's de carteirinha". Wyllys não fala para todo o público que defende as liberdades individuais. No máximo, ele fala para o público que defende uma liberdade individual aos olhos socialistas. Como parlamentar do PSOL, por exemplo, Jean Wyllys não pode defender que um empresário escolha um partido para apoiar, porque o PSOL é um dos maiores combatentes do financiamento privado de campanhas. Portanto, essa liberdade individual já é negada por parte de um suposto defensor da liberdade individual que, na verdade, é um defensor dos LGBT's - e ponto.

Jair Bolsonaro também não tem condições de representar o conservadorismo como um todo. Porque nem tudo que é defendido por um evangélico é defendido por um conservador político-filosófico. Na filosofia conservadora, a figura pública que se apresenta como salvadora da pátria é vista com total desconfiança e incredulidade. Os maiores teóricos do conservadorismo filosófico olhariam com muita desconfiança para Bolsonaros e Trumps, por exemplo, por entender que a postura deles requer o comportamento de quem briga para obter bastante poder, algo totalmente inaceitável para o conservadorismo político - porque alguém com muito poder pode fazer a mudança que bem entender na sociedade, até de forma coercitiva, inclusive traindo àqueles que o elegeram.

A expectativa deste autor que vos escreve era de que, na condição de filósofo liberal-conservador, Luiz Felipe Pondé explicasse essa questão quando lembrou desses dois deputados. A resposta de Pondé se deu em uma pergunta sobre uma suposta desatualização dos termos "direita" e "esquerda". Ele disse que hipoteticamente, numa disputa entre Jean Wyllys e Jair Bolsonaro, levando em considerações algumas teorias liberais, votaria em Wyllys mesmo detestando o PSOL e concordando com várias coisas ditas por Bolsonaro. Este autor, caso estivesse diante de uma disputa entre os dois, votaria em Bolsonaro por enxergar nele uma pessoa que tenta acertar, enquanto Jean Wyllys é alguém que erra e persiste no erro por se iludir acreditando que está certo. Abaixo a íntegra do Roda Viva com Pondé:


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