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Título português na Euro é oportunidade pra passarmos história brasileira a limpo


Por Wilson Oliveira

A Eurocopa de 2016, realizada na França, foi o primeiro grande título conquistado pela seleção portuguesa de futebol. O feito foi alcançado com uma campanha bastante inusitada: seis empates e apenas uma vitória no tempo normal - o triunfo na grande decisão, contra os donos de casa, aconteceu na prorrogação. Esse episódio significa que o país de Cristiano Ronaldo, um dos melhores jogadores da atualidade, ficará em destaque no cenário mundial de futebol por algum tempo. Portanto, é uma oportunidade para nós, brasileiros, aproveitarmos e repassarmos um pouco da história do nosso país, que é diretamente ligada a história de Portugal por motivos mais do que óbvios. 

Logo de cara, é importante citar: os portugueses não são vilões nem nada do tipo, apenas compuseram um enredo em que, assim como índios e escravos, houve os bons e os maus. Essa é a versão realmente válida, sem tentar empurrar nenhum lado para o precipício como tentam fazer os socialistas com a tal da "dívida histórica", que nada mais é do que um pano de fundo para que elas possam recrutar militantes ideológicos que por algum motivo se sintam injustiçados na vida.

É evidente que no Brasil, como em qualquer lugar do mundo, existem problemas sociais. Temos héteros que não gostam de gays. Temos "brancos" que não gostam de "negros". Temos homens que não gostam de mulheres e vice-versa (e não, não me refiro apenas ao sentido sexual). Temos patrões que não gostam de funcionários e vice-versa. Mas observe que juntar tudo isso e jogar num saco chamado "dívida histórica" é ignorar a própria história e fechar os olhos para uma teoria completamente falsa e oportunista. 

Primeiro que os portugueses foram os responsáveis por nos apresentar as noções de civilização. Segundo que os portugueses nos ensinaram também uma série de lições para a construção de uma sociedade e das cidades território adentro que jamais aprenderíamos com os índios. Mas isso também não quer dizer que os índios não tenham contribuído com nada, afinal, muito da cultura indígena ainda pode ser encontrada no Brasil atualmente.

Na parte que se refere aos escravos, absolutamente tudo de ruim que os portugueses faziam na época do Brasil colonial os escravos também praticavam - inclusive a escravidão. Era comum, na época, quando o escravo conseguia a alforria, comprar outros escravos para escravizá-los. Às vezes até de forma mais exploratória que os portugueses. No entanto, também não é por isso que vamos tentar transformar os povos dos países africanos em vilões e dizer que eles possuem uma "dívida histórica" conosco. 

Também não faria sentido afirmar que eles só fizeram "coisa ruim" para a nossa formação. No modo de se vestir, na música e, principalmente na comida, encontramos inúmeros traços africanos na nossa cultura. A feijoada é um dos exemplos mais importantes que herdamos dos negros na nossa culinária.

Os índios não foram "vítimas oprimidas", mas sim guerreiros ávidos por uma batalha

Quando um professor ou um historiador começar a falar dos nativos brasileiros rotulando-os como vítimas oprimidas pelos portugueses, desconfie. Mais importante ainda: questione. Não é possível, historicamente, enxergar os índios como "vítimas oprimidas", pois, definitivamente, não foi esse papel que os índios exerceram. Primeiro que quando os portugueses chegaram ao Brasil, em 1500, a estimativa da população brasileira era de um povoamento entre 1 milhão e 3,5 milhões de pessoas (obviamente que naquele tempo não havia um censo pra contabilizar com exatidão a quantidade de pessoas que moravam no nosso território). Portanto, havia muito, mas muito mais índio que a quantidade de portugueses que ancoraram no nosso litoral. 

Esses índios tupis estavam espalhadas de São Paulo ao Norte e ao Nordeste, divididas em mais de duzentas culturas. E para um índio de uma determinada tribo, uma pessoa que pertencesse a outra tribo era tão "estranha" quanto um português, pois as tribos não faziam contato entre si. Confira um trecho do livro "Guia Politicamente Incorreto da História do Brasil" (capítulo 1, página 37), de Leandro Narloch, onde essas questões são citadas:

"Em 1500, quando os portugueses apareceram na praia, a nação tupi se espalhava de São Paulo ao Nordeste e à Amazônia, dividida em diversas tribos, como os tupiniquins e os tupinambás, que disputavam espaço travando guerras constantes entre si e com índios de outras famílias linguísticas. Não se sabe exatamente quantas pessoas viviam no atual território brasileiro - as estimativas variam muito, de 1 milhão a 3,5 milhões de pessoas, divididas em mais de duzentas culturas. Ainda demoraria alguns séculos para essas tribos se reconhecerem na identidade única de índios, um conceito criado pelos europeus. Naquela época, um tupinambá achava um botocudo tão estrangeiro quanto um português. Guerreava contra um tupiniquim com o mesmo gosto com que devorava um jesuíta. Entre todos esses povos, a guerra não era só comum - também fazia parte do calendário das tribos, como um ritual que uma hora ou outra tinha de acontecer. Sobretudo os índios tupis eram obcecados pela guerra. Os homens só ganhavam permissão para casar ou ter mais esposas quando capturassem um inimigo dos grandes. Outros grupos acreditavam assumir os poderes e a perspectiva do morto, passando a controlar seu espírito, como uma espécie de bicho de estimação. Entre os canibais, como os tupinambás, prisioneiros eram devorados numa festa que reunia toda a tribo e convidados da vizinhança".
É um erro achar que todo negro era escravo e que apenas brancos possuíam escravos

Antes de citar mais profundamente a questão dos escravos, é preciso fazer um adendo. Quando se fala em liberalismo clássico devemos nos atentar para o episódio histórico mais marcante para o liberalismo, que é a revogação da escravatura. Não existe nada mais anti-liberal que a escravidão. Assim sendo, também é preciso pontuar que essa prática não fincou raízes apenas na Europa, mas também na África - e lá não apenas por parte dos colonizadores, mas também dos colonizados. 

Novamente recorrendo ao livro do jornalista Narloch (dessa vez capítulo 2, página 79), temos uma passagem com riqueza de informações e detalhes sobre "Zé Alfaiate", um negro que logo após obter sua carta de alforria iniciou sua prática representando o outro lado da moeda: a de um escravista:

"Por volta de 1830, o escravo José Francisco dos Santos conquistou a liberdade. Depois de anos trabalhando forçado na Bahia, viu-se livre da escravidão, provavelmente comprando sua própria carta de alforria ou ganhando-a de algum amigo rico. Estava enfim livre do sistema que o tirou da África quando jovem, jogou-o num navio imundo e o trouxe amarrado para uma terra estranha. José tinha uma profissão - havia trabalhado cortando e costurando tecidos, o que lhe rendeu o apelido de "Zé Alfaiate". No entanto, o ex-escravo decidiu dar outro rumo a sua vida: foi operar o mesmo comércio do qual fora vítima. Voltou à África e se tornou traficante de escravos. Casou-se com uma das filhas de Francisco Félix de Souza, o maior vendedor de gente da África atlântica, e passou a mandar ouro, negros, azeite e dendê para vários portos da América e da Europa. Foi o fotógrafo e etnólogo Pierre Verger que encontrou, com um neto de Zé Alfaiate, uma coleção de 112 cartas escritas pelo ex-escravo. As mensagens foram enviadas entre 1844 e 1871 e tratam de negócios com Salvador, Rio de Janeiro, Havana (Cuba), Bristol (Inglaterra) e Marselha (França). Em 22 de outubro de 1846, numa carta para um comerciante da Bahia, o traficante conta que teve problemas ao realizar um dos atos mais terríveis da escravidão - marcar os negros com ferro incandescente. Diz ele:

Por esta goleta [uma espécie de escuna] embarquei por minha conta em nome do Sr. Joaquim D'Almeida 20 balões [escravos] sendo 12 H. e 8 M. com a marca "5" no seio direito. Eu vos alerto que a marca que vai na listagem geral é "V seio" mas, como o ferro quebrou durante a marcação, não houve então outro remédio senão marcar com ferro "5".

Um comentário:

  1. Excelente artigo! Mostra o outro lado da história que não interessa apresentar aos brasileiros. Imparcialidade é fundamental no desenvolvimento social, econômico e político do Brasil. Parabéns!!!

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