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Exame antidoping no esporte: o reino da hipocrisia


Por Wilson Oliveira

Nem só de ameaças terroristas vive essa parte inicial das Olimpíadas do Rio de Janeiro. Um episódio de fundamental importância tem passado quase despercebido aos olhares mais amplos das pessoas. A possibilidade da delegação russa ser banida dos Jogos por conta de um amplo esquema de dopagem, que teria o envolvimento das mais altas autoridades daqueles país. No entanto, o objetivo neste artigo não é discutir esse caso especificamente, mas aproveitar o seu acontecimento para falar a respeito do conceito que o controle antidopagem traz para o esporte.

Para quase todas as modalidades utiliza-se o clichê de que, hoje, o esporte é uma atividade de alto rendimento. Tal expressão costuma ser cunhada para justificar os sacrifícios e as consequências a que os atletas são submetidos em busca do melhor resultado ou do mais novo recorde, que a cada momento fica mais apertado. Essa rotina desgastante é profundamente comum no atletismo, na natação, no salto com vara, no boxe, no ciclismo, nos saltos ornamentais e no levantamento de peso.

Por outro lado, costuma-se praticamente criminalizar todo aquele atleta que é pego no doping. Entre vários fatores completamente possíveis, existem dois em escala macro que podem dividir os subgrupos de motivações para o uso de uma substância: para melhorar a performance e para se recuperar mais rapidamente de algum problema clínico. Mas em todos eles o atleta o faz, intencionalmente ou não, para atingir o tal do "alto rendimento". É justamente por isso que acredito ser uma hipocrisia esse "controle" no mundo dos esportes.

Um corredor pode ser pego no antidoping por ter utilizado um medicamento para sinusite. Um ciclista pode ser pego no antidoping por ter utilizado um remédio para aliviar dores musculares. Um nadador pode ser pego no antidoping por ter tomado um xarope para se recuperar de uma gripe. E esses exemplos valem para qualquer modalidade, seja ela olímpica ou não. Acontece que esses casos são genuinamente inofensivos. Eles não visam a obtenção de vantagens sobre os adversários a partir do estágio considerado normal para ambos, pois estamos falando de desportistas que possuem algum problema que o impedem justamente de atingir o seu estado normal.

Agora, sobre a tentativa de se obter vantagem, será que isso realmente é um problema? Usain Bolt é idolatrado no mundo do atletismo por ter atravessado barreiras de tempo que imaginava-se impossível para o homem. Dessa mesma idolatria gozava o ex-ciclista Lance Armstrong, vencedor por sete vezes seguidas do Tour de France. No entanto, o ciclista norte-americano perdeu todos os seus títulos após descobrirem que ele disputava as provas dopado. E, hipoteticamente, se descobrirem que Bolt também utiliza alguma substância?

É uma verdadeira incoerência reconhecer que tais modalidades são de alto rendimento, que os atletas precisam desmentir o que parece ser um limite físico humano e, ao mesmo tempo, criminalizar aqueles que procuram superar sua própria força para agraciar todos aqueles que admiram o esporte e para encher de dinheiro os que trabalham em tais apresentações. Se fosse mesmo para achar negativo o uso de doping, precisaríamos reconhecer que o esporte não deve ser de 'alto' rendimento, mas de um rendimento humanamente possível, mesmo que não fosse tão alto assim.

No mundo da música, existem relatos que comprovam que vários músicos, do presente e do passado, subiam e sobem ao palco dopados. Ou apenas para se apresentarem "mais tranquilos" ou mesmo para atingir uma melhor performance, seja da própria voz, seja no uso do seu instrumento musical. E muitos fizeram shows históricos, para plateias memoráveis e marcaram seus nomes no universo artístico. E não, não estamos falando de artistas que são drogados, mas daqueles que são perfeccionistas a ponto de procurarem atingir o melhor resultado musical. São coisas bem diferentes.

Se não houvesse qualquer controle antidopagem no esporte, naturalmente teríamos muito mais Lances Armostrongs, muito mais recordes sendo batidos, muito mais disputas incríveis. E poderíamos, sem nenhum problema, dizer que o esporte é uma atividade de alto rendimento. Mas com a exigência de performances perfeitas ao mesmo tempo em que tenta-se proibir o uso de substâncias para melhorar o rendimento do próprio atleta, o que temos, na verdade, é um verdadeiro circo formado por mentiras, incoerências e hipocrisia.

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