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De que forma a saída do Reino Unido da UE pode ser benéfica para o Brasil


Por Carine Guerra

A turbulência vivida pelo mercado financeiro mundial nos últimos dias, com o anúncio da saída do Reino Unido da União Europeia, causando várias desvalorizações nas bolsas de valores pelo mundo, não passou de um movimento especulativo. Pesquisas de opinião apontavam que a Inglaterra permaneceria na União Europeia (UE), porém o resultado diferente obtido no Referendo causou espanto e pegou investidores de surpresa. A onda de incertezas gerada pelo Brexit, em tese, cria impactos financeiros não só na UE como também em países emergentes, como é o caso do Brasil. O aumento da aversão ao risco de investidores e a consequente retirada de dinheiro dos mercados emergentes traz impacto adverso na taxa de câmbio no curto prazo, pressionando a inflação e a taxa de juros. Porém, nada que possa ser sentido de forma direta pelo consumidor.

No longo prazo, as expectativas podem ser boas. Se por um lado o Brasil perde um dos seus maiores aliados nas negociações entre União Europeia e Mercosul, por outro, esta separação poderá trazer benefícios ao agronegócio brasileiro. Assim como em relação à UE, os principais itens da balança comercial brasileira com o Reino Unido são carnes, soja, café e frutas. A carne representa 40% das exportações, com a soja e derivados ficando com 15%. O Brasil é líder na exportação global de carne bovina, tendo a Europa com participação importante no consumo de carne industrializada. O Brexit não traria impactos diretos nesses números, pois os acordos comerciais são feitos sob as regras da OMC (Organização Mundial do Comércio) - e não houve rompimento com tal organização.

Com pouca produção no setor agrícola, os ingleses são mais liberais nas importações de alimentos do que os demais países do bloco. E ainda do ponto de vista comercial podem ser considerados um país mais harmônico, diferente de França e Irlanda, por exemplo, que contestam um acordo agrícola da UE com o Brasil, visto que são os países que mais investem na produção agrícola em toda a região dos países do bloco. A condição de não membro da União Europeia vai fazer o Reino Unido pagar taxas maiores nas importações, o que pode tornar o produto brasileiro mais competitivo.

Podemos citar o açúcar, que no Brasil é extraído da cana de açúcar, enquanto que na França é extraído da beterraba. O gosto do açúcar extraído da cana e o do retirado da beterraba é igual – já que ambos são à base de sacarose. O que diferencia os dois tipos do produto é o custo de produção. Para fazer uma tonelada de açúcar refinado da cana, o Brasil gasta aproximadamente metade do custo dos franceses na produção do açúcar de beterraba. Além de ser mais barato, o açúcar brasileiro é produzido em quantidades muito maiores.

Tendo em vista a superioridade tupiniquim, os europeus utilizam barreiras tarifárias para impedir uma invasão do produto brasileiro, gerando um imposto que encarece o açúcar do Brasil, inviabilizando a entrada do açúcar gerado da cana de açúcar na Europa. Outra diferença central vem de um subproduto da cana - o bagaço - usado para gerar eletricidade. Todas as usinas do Brasil têm termoelétricas próprias, são autossuficientes em energia e, muitas, vendem a eletricidade que sobra. Uma energia barata e renovável. Já as usinas de beterraba normalmente geram eletricidade queimando carvão mineral, gás ou óleo diesel, fontes mais sujas, não-renováveis, e que encarecem o custo do açúcar.

Outra lacuna que poderá ser preenchida pelo Brasil, nas importações do Reino Unido, é a de frutas. Em determinado período do ano, o abastecimento de frutas no bloco é feito pelos próprios países europeus - e sem a concorrência e as barreiras de importações que os britânicos tinham de seguir devido a países produtores de frutas, como a Espanha, o Brasil poderá se tornar seu maior fornecedor deste bem. O custo de importação também poderá ser menor, uma vez que os produtos irão diretamente para a Inglaterra, sem passar pelo porto de Roterdã, na Holanda.

Com a saída do bloco, o Reino Unido deverá criar regras fitossanitárias próprias, provavelmente menos restritivas, e seguramente deixará de sofrer com o protecionismo do bloco europeu - que cada vez mais se torna um exemplo de como nações se juntam para se proteger de outras -, o que também pode representar uma maior abertura de mercado em relação ao Brasil e também a outros países. Cabe ao nosso país buscar seu espaço no mercado britânico, sem abrir mão dos acordos já encaminhados com a União Europeia.

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