Expresso News

[expresso-news] [twocolumns]

Colunistas

[colunistas][bleft]

Entrevistas

[entrevistas] [twocolumns]

Economia

[economia] [bsummary]

A TV brasileira erra ao insistir em dar espaço apenas ao "progressismo"


Por Wilson Oliveira

O povo brasileiro não foi às ruas em 2013 'do nada'. Contrariando até então a linha editorial de quase toda a mídia tradicional brasileira, que preferia exaltar a aproximação da realização de mais uma Copa do Mundo no Brasil, os brasileiros foram expor a sua mensagem, que era de insatisfação com o dinheiro público (portanto aquele advindo da riqueza gerada pelos contribuintes) jorrado em obras públicas de estádios de futebol até em lugares que não havia, não há e continuará não havendo futebol, enquanto várias outras prioridades nacionais foram deixadas de lado. É claro que havia também espaço crítico para esse tema na nossa imprensa, mas até o momento das manifestações a fatia ocupada pelo tom mais questionador era mísero se comparada a fatia ocupada pelo tom mais ufanista, de expectativa positiva e de alegria ditado principalmente na crônica esportiva.

A Copa do Mundo e as Olimpíadas do Rio de Janeiro são apenas dois dos muitos exemplos de que a "versão única" apresentada pela grande mídia já não exerce mais influência determinante nos cidadãos, nem no Brasil e nem em lugar nenhum do mundo onde a internet esteja se expandindo. Hoje nem todas as donas de casa da classe C ficam "presas" no sofá durante as noites da semana assistindo a novela das 21h (há inúmeras matérias na própria imprensa tradicional tratando da queda de audiência do 'horário nobre'). Há várias outras opções bastante acessíveis. A própria TV a cabo deixou de ser coisa "pra rico", mesmo porque até essa opção já está ficando ultrapassada. O NetFlix, serviço por streaming onde é possível assistir filmes e séries na hora que a pessoa quiser, não é caro, portanto possui cada vez maior número de clientes no Brasil.

Além da questão da comodidade que as novas mídias oferecem, há outro item que infelizmente ainda é ignorado na mídia tradicional do nosso país: a falta de confrontos de ideias. Por exemplo, se alguém ousar criticar o movimento LGBT e as cotas raciais nas universidades públicas, defender o porte de arma, se colocar contrária ao aborto, defender a privatização e a construção de mais presídios no país, se colocar a favor da diminuição da maioridade penal ou, então, pra causar ainda mais impacto, se declarar eleitora do Bolsonaro e torcedora de Donald Trump nas eleições presidenciais dos Estados Unidos, muito provavelmente essa pessoa será ridicularizada, sua opinião será tratada como "algo pequeno que os progressistas nem devem perder seu tempo" e sua imagem será arranhada por vários movimentos sociais, ONGS e partidos políticos de esquerda numa ação que possivelmente será vista com naturalidade por todos os envolvidos nesse contexto midiático. Afinal de contas, onde já se viu querer expressar uma opinião realmente contrária àquelas que todo dia são expressas na televisão, principalmente nos canais abertos?

Você pode até ponderar: "Mas olha, o deputado Jair Bolsonaro já foi muitas vezes convidado por vários programas de auditório pra dizer o que pensa, inclusive no Jô Soares". É verdade. Mas além dele, mais quem é chamado para dizer "opiniões contrárias na televisão?". E agora faço a pergunta sobre o outro lado. Quantas vezes vemos pessoas que compartilham das "opiniões progressistas" tendo o direito de expressá-la para o grande público? Todavia, o pior é que se trata de uma via de mão única. Não é possível observar a menor preocupação que seja com o que realmente pensam a dona de casa e o trabalhador das classes C e D (público-alvo da grande maioria dos programas de TV aberta) sobre esses assuntos. Apenas essas opiniões "industrializadas" e rotuladas como progressistas são empurradas goela abaixo de todos.

Podemos fazer um breve passeio pela história do Brasil para entender esse fenômeno. O Regime Militar Brasileiro (1964 - 1985) ficou famoso no país inteiro como "ditadura de direita", mesmo que economicamente houvesse gritantes condições que diziam justamente o contrário. E dentro desse balaio, o Ato Institucional número 5, que dentre outros ficou conhecido principalmente pelos jornalistas como "Lei da Censura", serviu para colocar de vez a opinião pública contra os militares do governo, que por sua vez tinham claro interesse em averiguar boa parte do conteúdo que estava sendo veiculado Brasil afora. Por tabela, criou-se no País uma geração e uma cultura totalmente anti-direita, mesmo aqueles que também dizem não ser de esquerda. Mas parece que quase ninguém percebeu que isso só serviu para que os brasileiros se desinteressassem por política - e pelos problemas que o cercam.

A TV aberta está incapaz de atrair a atenção das
futuras gerações: as crianças passam longe
Mas hoje essa conta chegou. Com as redes sociais, o compartilhamento de informações ganhou volume e velocidade, além de independência. Uma pessoa não precisa ser entrevistada por um repórter da televisão para expressar a um maior número de pessoas sua indignação por ter sido assaltada enquanto voltava do trabalho, por exemplo. Ela pode postar isso no Facebook. O post pode viralizar, parar numa fanpage dedicada a notícias daquela região, e pronto! A notícia já terá se espalhado mesmo sem ter passado por uma mídia tradicional. Esse tipo de liberdade também vem acompanhado de outras - e uma das principais é exatamente o direito ao contraditório. A TV aberta pode até continuar fazendo todo o esforço do mundo pra tratar a "opinião progressista" como a versão exclusivamente correta, mas as pessoas que estão deixando de assistir esse tipo de programação também estão se desapegando dessa "cultura".

Em temas mais espinhosos, como a economia, infelizmente ainda existem muitos tabus a serem quebrados. Ainda tem muito brasileiro iludido, achando que é papel do Estado dar tudo - ou quase tudo - de graça e de qualidade para todos, principalmente os mais necessitados, sem a consciência que tudo, absolutamente tudo, que o Estado for nos dar custa um valor, que na maioria das vezes acaba sendo definido pelos próprios agentes do poder público, que podem superfaturá-lo, e que quem paga essa conta somos nós, ou seja, justamente aqueles que indiretamente pedem "mais e mais" ao Estado. O pior é que nem passa pela cabeça dessas pessoas quais seriam outros tipos de solução para esse problemas (e essas soluções existem!). Mas ninguém imagina justamente por conta dessa construção cultural de fingirmos que vivemos numa democracia, mas que na realidade estamos sob a ditadura de um discurso. Essa ditadura branca em forma de discurso progressista limita o debate, as discussões, as visões e o desenvolvimento do Brasil enquanto nação e enquanto sociedade.

Atualmente, todos nós nos perguntamos: "Como é que chegamos no estágio que chegamos?". É corrupção para todo lado, crise política que parece interminável, Lava Jato que a cada fase descobre mais e mais esquemas envolvendo o nosso suado dinheiro. Mas os brasileiros não sabem a resposta. Porque um dos roubos praticado contra os brasileiros foi justamente o do debate político. Se você pegar um desconhecido na rua, preferencialmente num transporte de massa às 18h, e perguntar se ele prefere parlamentarismo ou presidencialismo, gestão econômica liberal ou interventora, ou então pedir para ele traçar um paralelo da nossa história política com o que vivemos atualmente, muito provavelmente você escutará uma análise totalmente superficial, neutra, com algumas desinformações, com muitos clichês e bastante falácia. Mas será muito raro, num ato de total sorte, encontrar uma pessoa do povão que esteja realmente por dentro, não apenas do que está acontecendo, mas do porquê está acontecendo tudo o que está acontecendo. E, como dito, se ela ousar partir pra opiniões que fujam do mainstream progressista, será o tipo de pessoa ridicularizada ou até vista como de mau caráter por aquele "politizado", que nada mais é que mais um "militante das causas progressistas".

No NetFlix existe um documentário chamado Best of Enemies, onde um articulista liberal (palavra que nos Estados Unidos significa social-democrata) e outro conservador (que nos Estados Unidos significa a junção de liberalismo clássico com conservadorismo político) debatem no terceiro canal americano em audiência à época, a ABC. Politicamente, os trechos que são destacados na produção não são nada edificantes. No entanto, aquele tipo de ousadia para a televisão americana aconteceu nos anos 1960. Olha como estamos atrasados... Já imaginou um debate sério, com bons argumentos, entre uma pessoa que defende a privatização dos presídios e outra que defenda que eles continuem públicos? Pois é, para muitos do mainstream progressista brasileiro seria um absurdo ceder espaço ao contraditório. Acontece que para a história da humanidade isso seria apenas democracia, item que anda muito em falta na nossa mídia tradicional - que caminha para a total incapacidade de absorver os diferentes pontos de vista que caminham para lá e para cá todos os dias nas ruas do nosso país.

As redes sociais mudaram a perspectiva de comunicação: gostemos ou não, agora qualquer pessoa pode
produzir conteúdo para algum público - e também oferecer pontos de vista

Um comentário:

  1. Parabéns pelo excelente artigo Wilson Oliveira! Bastante claro, objetivo e muito fácil de entender! Vamos "viralizá-lo" na rede para que o máximo de pessoas tenham a oportunidade de lê-lo e refletir melhor sobre o status quo!

    ResponderExcluir

Os comentários ofensivos e anônimos serão apagados. Daremos espaço à livre manifestação para qualquer pessoa desde que não falte com o respeito aos que pensam diferente.