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11 ensaios de Hayek que resumem todo seu pensamento político e social

Por Guilherme Cintra

Hoje em dia está cada vez mais necessário poupar tempo; e há várias teorias políticas, sociais, filosóficas, de vários autores diferentes, para ler. Conhecer quase todo o pensamento de um autor importante sem precisar ler nenhum livro pode ajudar muito a economizar tempo.

Friedrich Hayek é um autor interessante. Conhecido por ser da Escola Austríaca, defensor do liberalismo, ter ganhado o Prêmio Nobel em economia e vários outros prêmios, publicado O Caminho da Servidão (best-seller na época) e ter feito contribuições em diversas áreas do conhecimento.

Trarei aqui 11 ensaios que são capazes de resumir praticamente todo seu pensamento, sem que se precise ler qualquer livro. Garanto que depois de ler todos, você vai ter uma percepção quase total de todas as características do pensamento de hayekiano.



Esses são ensaios que foram escritos na década de 1930, e formam o alicerce pelo qual Hayek constrói todo seu pensamento social. A maioria deles foram escritos para dar discursos em universidades, e depois foram publicados em livros; mas há alguns que foram escritos especificamente para revistas.

Não vou mentirar aqui: esses ensaios não são pequenos. Eu contei quantas páginas dariam todos que postei aqui, e deu em torno de 220 páginas. Ou seja, todos juntos é mais ou menos do tamanho do livro O Caminho da Servidão, por exemplo. Isso também é mais uma razão porque eles são capazes - quase por si só - de resumir todo o pensamento político e social de Hayek. E mesmo assim há alguns bastante resumidos, como o Ensaio 10, por exemplo, que te dá uma percepção quase total das principais ideias de seu livro Law, Legislation and Liberty (que possui três volumes e umas 150 páginas em cada). volume.

Claro que Hayek fez contribuições em economia, como na teoria dos ciclos econômicos, na teoria do capital, do preços, etc, principalmente no começo de sua carreira (pelas quais ele ganhou o Prêmio Nobel de 1974); e também é visível sua contribuição na psicologia, com seu livro The Sensory Order. Mas o foco aqui são as sobre as quais Hayek mais escreveu e pelas quais foi mais lido (e que eu pessoalmente acho que formam suas contribuições mais importantes e originais para o conhecimento em geral): teoria política, teoria do direito, epistemologia e filosofia social.  

Primeiramente, é importante entender e absorver suas ideias que o fizeram navegar pela filosofia política, social e pela metodologia - não mais apenas a economia. Estes ensaios abaixo fazem parte dos quatro primeiros capítulos do livro Individualism and Economic Order, mas foram usados primeiramente para discursos na London School of Economics, onde Hayek era professor de economia.

Obs.: alguns links estão ligados a livros, nos quais estão os artigos citados. Então não se assuntos se forem direcionados a um livro quando clicarem nos links dos artigos.

Tudo isso esclarecido, vamos aos ensaios.
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1 - Individualism: True and False, ou, como título de um artigo resumo no IMB, Dois Tipos de Individualismo. Discute sobre duas concepções de liberdade e individualismo, desenvolvidas na França e na Inglaterra. A concepção desenvolvida na Inglaterra é mais focada na liberdade negativa e na ordem espontânea; enquanto a concepção francesa tende a se tornar uma espécie de democratismo, e muitas vezes acaba destruindo todas as regras morais vigentes para erguer uma grande utopia a que Hayek chamou "construtivista". Achando que a razão é capaz de manejar a sociedade de cima para baixo, o individualismo francês se torna o oposto disso, enquanto o individualismo inglês reconhece nossas limitações para manejar a sociedade e que esta é resultado de uma ordem espontânea construída de baixo para cima pelos indivíduos.

2 - Economics and Knowledge, ou Economia e Conhecimento. Esse é um ensaio bem técnico e complexo, mas é essencial em Hayek. Foi este que o fez despertar para praticamente todos os outros. Nele, Hayek se propõe a investigar se apenas a lógica da escolha é necessária para se fazer economia, e ao mesmo tempo critica a hipótese de conhecimento perfeito neoclássica. Segundo ele, o escopo da economia teórica é também o conhecimento e como ele muda na sociedade: como ele é transmitido de indivíduo a indivíduo. "Equilíbrio", para ele, só faz sentido na análise de um indivíduo isolado. No contexto da sociedade, não há um "equilíbrio" (talvez algo próximo a isso). A função essencial das instituições, dos preços e do mercado é buscar fazer com que as ações dos indivíduos estejam ordenadas sem que eles deliberadamente procurem ordenar suas ações.

3 - The Facts of the Social Sciences, ou Os Fatos das Ciências Sociais. Nesse ensaio, Hayek nos mostra que o que diferencia as ciências sociais das ciências naturais é a presença, nas primeiras, de dados subjetivos, e não características físicas e objetivas. Os dados subjetivos são em grande parte postos em funcionamento pelas ações das pessoas - como Mises também pontuava. Apenas porque existe conhecimento e lógica é possível uma ciência chamada "social". Sejam os dados subjetivos certos ou errados, eles são a área de estudo dos cientistas sociais.

4 - The Use of Knowledge In Society, ou O Uso do Conhecimento na Sociedade. Hayek mostra que o mercado e o sistema de preços são sintetizadores de conhecimento. Eles tendem a transmitir, de forma simples, os dados concretos a que as pessoas precisam para, incentivadas pelo lucro, fazerem sua "contribuição" para a sociedade. E é melhor que esse "planejamento" de produção seja feito pelos milhões de indivíduos que compõem a sociedade, pois só assim é possível aproveitar ao máximo o conhecimento disponível pelas pessoas. Cada indivíduo tem um "bit" de conhecimento, e tem os incentivos para adquiri-los ainda mais numa ordem de mercado. O planejamento top-down se mostra incapaz de conseguir o conhecimento e administrá-lo como o faz uma ordem espontânea de mercado.

Agora, os ensaios incluem assuntos como filosofia política, social, bem como metodologia, e são baseados principalmente nas ideias desenvolvidas nos artigos anteriores.

5 - What Price a Planned Economy?. Um ensaio importantíssimo, que serviu de esboço e inspiração para O Caminho da Servidão. Ele explica corretamente como o planejamento econômico é, por necessidade, o controle arbitrário de uns indivíduos sobre toda a sociedade e que ele é incompatível com a democracia e o Estado de Direito.

6 - The Principles of a Liberal Social Order. Nesse ensaio, Hayek explica os princípios de uma ordem social liberal, em que o conhecimento e o planejamento é administrado por todas as pessoas, os preços transmitem informações, e o Estado de Direito não faz distinção entre indivíduos e aplica leis previamente e para todos. Justiça social não faz sentido algum, porque ela pressupõe algum fim na sociedade. A sociedade, entretanto, é "livre" de propostas e fins. Cada indivíduo tem seu fim e sua proposta. O liberalismo procura aumentar a liberdade de todos, e por liberdade entendemos a "capacidade de escolhermos nossos próprios fins de acordo com nossos próprios meios". Apenas o regime de propriedade privada e em que o poder do Estado não é discricionário e é previamente conhecido pode haver liberdade.

7 - Enginners and Planners. Falando sobre a diferença da tarefa de um engenheiro e a de um planejador numa economia socialista, Hayek explica perfeitamente a diferença entre as ciências naturais e as ciências sociais. E mostra que a tarefa do planejador não poderia ser confundida com a de um engenheiro, pois este lida com coisas fixas e previsíveis, e o outro com pessoas, que mudam de valores e objetivos a cada momento. A tarefa de um "planejador" de economia é algo inadequado para nossa capacidade como seres humanos.

8 - Competition as a Discovery Procedure. Aqui, Hayek aplica a ideia do conhecimento disperso à competição empresarial. Segundo ele, competição só faz sentido quando vista como um processo de busca de conhecimento, de busca na diferença de preços para ganhar lucros, de saber sobre as demandas ou necessidades das pessoas em diferentes áreas geográficas.

9 - The Pretence of Knowledge, ou A Pretensão do Conhecimento. Esse é seu discurso na cerimônia de gala no recebimento do Prêmio Nobel. Acaba sendo um artigo rico em informações sobre metodologia da economia e das ciências sociais, e sobre os perigos do desenvolvimento da economia puramente empírica e estatística (positiva) - que ignora variáveis da ação humana incapazes de serem medidas - e a que o Prêmio Nobel até estimula, pois pressupõe um progresso contínuo nas ciências sociais e um tratamento parecido com as ciências naturais.

10 - The Confusion of Language in Political Thought. Esse é um ensaio da fase mais madura de Hayek, depois de suas investigações sobre o direito e a lei. É um bom resumo do livro Law, Legislation and Liberty. Ele diferencia os conceitos de organizações (algo com proposta), a que ele chama de "taxis" - como empresas, exército, Estado - e "cosmos", que é a sociedade, a qual não possui nenhum fim a priori. Ele ainda discorre sobre as diferenças entre "nomos" - que é a lei de fato, um princípio geral - e "thesis" - que é a legislação para a construção de uma organização com fim específico. O que mais combina com uma sociedade livre - "cosmos" -, é a lei geral - "nomos". Além disso, ele diferencia a "democracia" e a "demarquia", sendo este último um regime baseado na opinião geral e na lei "nomos". Justiça social, por exemplo, só pode ser exercida através da "thesis", e só combina com organizações - "taxis" -, sendo incompatível com o "cosmos" - que é a sociedade. Ele ainda diferencia a "economia", que é a organização privada para fins privados, e a "cataláxia", que são as trocas que ocorrem na sociedade, sem fins dados a priori (mas que comumente chamamos de "economia").

11 - Betwen Instinct and Reason, ou Entre o Instinto e a Razão. Esse é o único ensaio que na verdade foi feito apenas para ser um capítulo de um livro. Ele faz parte dos últimos trabalhos de Hayek, e está no primeiro capítulo do livro The Fatal Conceit. O livro não foi editado por Hayek, dado a sua idade e incapacidade para isso na época - em que ele tinha quase 90 anos! Tal capítulo fala sobre a evolução cultural, que segundo Hayek seria uma evolução não-darwiniana e que ocorre na sociedade por meio da imitação e do sucesso das sociedades em que tais práticas culturais e morais são aplicadas. A moral que nasce no seio da sociedade, segundo ele, não é produto nem da razão e nem do instinto, mas é o produto dessa evolução cultural que seleciona as melhores sociedades como aquelas que aumentam mais rapidamente o número de seus indivíduos. O cultivo da tradição da propriedade privada é um exemplo desse tipo de tradição moral.

Artigo bônus: The Case for Freedom, ou, em título do IMB, O Argumento Completo em Defesa da Liberdade. Esse ensaio é uma compilação dos principais argumentos a favor da liberdade em seu livro The Constitution of Liberty (Os Fundamentos da Liberdade, disponível em português e pdf). É basicamente o uso das investigações sobre a tradição e o uso do conhecimento aplicados na defesa da liberdade.

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