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Tchau, querida. E agora, acabou?



Por Vinicius Campos

Dilma foi afastada. Ficará cerca de 180 dias longe do poder. Voltará a comandar o Brasil? Acho que há pouquíssima chance disso acontecer, uma vez que na primeira seção de votação no senado a presidente não alcançou os necessários um terço dos votos para não sofrer o impeachment. Some a isso ainda o fato de que, agora, não dispõe da mesma força que detinha para barganhar, e, mesmo quando a tinha, não conseguiu o resultado almejado. A menos que haja um grande golpe de Estado à força, já podemos dizer, com segurança e ecoando do fundo da alma um aliviado: Tchau Querida.

Mas e ai, acabou? Notei um grande entusiasmo acerca do discurso do vice-presidente, Michel Temer. Realmente, o sujeito tem muita habilidade política/discursiva, chega a dar gosto. Um discurso de conciliação, tranquilizador. Muitos respiraram aliviados. E não é pra menos, nos livramos de um governo pretensioso, arrogante, que acreditava poder ditar o rumo da economia, as escolhas individuais e que acreditava poder controlar o mercado e, assim, as pessoas. Mas, quem é Michel Temer e, em especial e ainda mais importante, o que esperar do PMDB?

No cenário político brasileiro, o PMDB tem atuado de forma sempre muito forte, mas discreta. Note que, durante a história política moderna, eles têm mantido sempre o controle das casas legislativas, mas sem lançar candidatos a presidência. Por que será? Se o partido possui tanta força política e habilidade, por que se omitem ao invés de tentar tomar à frente?

Ora, que governo governa sem apoio da casa legislativa? Pois bem, não há nada melhor para parasitar no Estado do que criar dependência de seu aval para governar. A casa legislativa vende condições ao governo, como cargos, esquemas de superfaturamento, entre outros, em troca de apoio. Parasitam e ainda possuem o bônus de não ver vossos nomes ventilados nos escândalos com tanta força. Basta ver que Renan Calheiros, depois de tantas sujeiras e falcatruas, ainda conta com ampla força para controlar o Senado. São profissionais.

Se apelarmos novamente à história política recente do Brasil, notaremos que essa não é a primeira vez que o PMDB assume o poder em meio a um governo em andamento. Por quê?

Para que permaneçam parasitando no Estado sem que percam força, se faz necessário que o partido que está à frente do Estado seja popular, tenha força. Desta forma, o PMDB se mantém por debaixo das cortinas parasitando. Quando o Governo perde força e ameaça a estrutura de Estado, o PMDB entra em ação, toma às rédeas, corta a mão para manter o braço, ou, corta o governo para manter o Estado (o que não significa, de forma alguma, que o impeachment não tenha sido bom ou tenha sido golpe).

Entretanto, gostaria de fazer um alento. A intenção deste autor que vos escreve não é desanimar, entristecer ou desesperar. Pelo contrário, é atentar. Recebemos uma dose de morfina, justamente pelo fato de que o PMDB quer continuar parasitando e talvez estes sejam nosso maior adversário. Contudo, apesar de a morfina não curar a doença, reduz a dor momentânea. Estávamos no leito, com uma dor insuportável que estava nos levando rumo à morte. Nossa dor está sendo aliviada, mas é importante lembrar que ainda temos de curar a doença.

Tudo bem, vamos aproveitar o respiro sem dor depois de tanto tempo agonizando, já que para o momento, e dado às circunstâncias recentes, já é um gigantesco alívio. Michel, profissional tal como a cartilha interna do partido demanda, sabe que, para manter a estrutura que usam para parasitar, precisa animar as pessoas. E para animar as pessoas, precisa animar o mercado. Assim, seu projeto de ação está voltado para aquilo que o mercado quer ouvir. Alívio fiscal através de enxugamento do Estado na carne, liberdade empresarial, diálogo com todas as partes, aumento da amplitude das investigações, reforma na previdência, ministros pró-mercado, e tudo isso sem mexer nos direitos adquiridos. Temer sabe que um mercado tenso tem um poder avassalador, e que bater de frente com este é suicídio.

Se intentando a isso, poderemos ver uma recuperação econômica pela única via possível, a recuperação da confiança. Nem mesmo à luz do keynesianismo, uma solução imediatista, seria possível almejar uma recuperação, já que a situação fiscal e monetária é deplorável. Somente enxugando gastos públicos e confiando nos gastos privados será possível se recuperar - é nisso que aposta o atual governo (ainda interino).

Poderemos observar um aumento de investimentos, que possivelmente marcará uma reversão grande do emprego menos produtivo para o mais produtivo – embora eu acredite que o desemprego demorará um tempo para reduzir, uma vez que Temer prometeu um enxugamento do Estado e isso implica em demissões; a mão de obra migrará ao setor privado. Se, desta forma, aumentar ou manter-se os níveis de gastos ao mesmo passo que a produtividade ascender, observar-se-á uma queda grande na inflação.

Soma-se ainda que há uma tendência à valorização do Real que, embora enfraqueça o setor exportador, pressiona boa parte dos preços domésticos para baixo e estimula a demanda interna e, desta maneira, o mercado interno. Se estivermos certos, com esse resquício de responsabilidade fiscal e arrefecimento da inflação, haverá, sem dúvidas, espaço para redução da taxa SELIC que reduzirá o custo do endividamento da família e dará condições de aumento de demanda. Não há maior projeto social que a retomada de confiança, emprego, redução da taxa SELIC, redução de inflação etc.

Os fluxos de investimentos que se direcionam aos títulos públicos subsidiando um setor improdutivo voltarão a ser alocado no mercado, aumentando a capacidade produtiva. O setor imobiliário voltará a respirar e se valorizar. (aqui faço uma observação técnica: não sou do tipo de economista que gosta de prever cenários, uma vez que são imprevisíveis, estou aqui apenas me limitando ao óbvio sem mensurar amplitudes destes acontecimentos, nem mesmo cronologia).

Por fim, as expectativas são positivas. Mas, retomando o início do artigo, estamos recebendo uma dose de morfina. Aproveitemos esse período sem dor, claro (eu mesmo me extasiei com o discurso de Michel Temer), mas sem nos esquecer de que a dor passou, porém se não curarmos a doença, em algum momento, sentiremos a dor novamente, tal como a história tem nos mostrado e como temos teimado em não aprender.

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