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Quer melhorar a educação? Retire o Estado dela, oras!

Cartaz com a inscrição "#OCUPA#Resistir", em uma escola estadual de Ensino Médio, em Fortaleza (CE).

Por Luis Cláudio

INTRODUTÓRIO... 

Neste artigo, pretendo provar duas coisas:

1.) A dependência dos brasileiros ao Estado é algo mais crônico do que muitos imaginam/percebem;

2.) A educação está numa situação mais crônica do que muitos imaginam/percebem.

E o melhor, prová-las-ei analisando um único fato cotidiano ocorrido comigo no último fim de semana, “matando dois coelhos com uma cajadada só”. O que relatarei evidencia o quanto podemos extrair da realidade a partir de pequenos extratos da vida.

VAMOS À HISTÓRIA... 

Há pouco tempo, muitos professores da rede estadual de educação do Ceará declararam greve. Seguido a isso, ocorreram ocupações de várias escolas, realizadas por vários estudantes que, dizem, solidarizam-se com a causa dos docentes. As ocupações seriam, dessa forma, a maneira ideal de protestar de modo a alarmar as autoridades e a população para o problema.

Bem, a estratégia, a princípio, parece não ter funcionado. Não houve/há grande comoção popular às requisições dos professores. Nem mesmo as faixas de “Ocupa” parecem ter surtido o efeito desejado. Ansiosos por obter, imediatamente, a adesão do populacho às suas queixas, resolveram ser um pouco mais didáticos.

Esse fim de semana, numa parada de ônibus, enquanto eu aguardava o transporte juntamente com um jovem casal, um rapaz meio franzino, de mochila nas costas, tinha em mãos muitas folhas de papel. Depois de esperar uns dois ou três minutos, o rapaz “quebrou o gelo”:

– Boa tarde.
– Boa tarde - dissemos.
– Me chamo “fulano” (não recordo o nome) e faço parte de um movimento dos estudantes. Nós tamo (sic) distribuindo esse folheto que explica pra (sic) comunidade as razões da ocupação das escolas. Nós queremos melhorias pra educação, exigimos nossos direitos...

O dito estudante falou muitas outras coisas, calmamente, explicando da forma bem tangencial o conteúdo do folheto. Recebi um também. Como sabia que a van que aguardava não chegaria tão cedo, resolvi ler o papel que me fora entregue. Eis a íntegra do “manifesto” dos estudantes cearenses responsáveis pelas ocupações:


Sempre que me deparo com algum documento, gosto de analisá-lo a moda “Jack o estripador”. Assim sendo, vamos por partes.

A ABERTURA

Sem levar em conta os vários erros gramaticais e de semântica, muito mais me assustam os erros lógicos, que são fruto, infelizmente, do sistema educacional defendido pelos manifestantes.

“Vivemos em uma sociedade na qual os órgãos públicos, não valorizam os direitos sociais dos estudantes e trabalhadores como deveriam. Nós, estudantes e a comunidade, pagamos altos impostos nesses país. E é mais do que justo reivindicarmos o retorno desses impostos, revertidos em melhorias na educação e em outros serviços públicos, respeitando também o reajuste salarial dos professores e a real valorização da educação.”

Tudo bem. Creio que uma leve análise gramatical do parágrafo não faz mal, pelo menos com o propósito de mostrar o tamanho da calamidade formada pelas atuais escolas públicas:

(1) NÃO SE SEPARA O SUJEITO DO VERBO POR VÍRGULA, EXCETO EM CASO DE TERMOS INTERPOLADOS.

“Vivemos em uma sociedade na qual os órgãos públicos, não valorizam os direitos...”. O sujeito da oração subordinada, “os órgãos públicos”, foi separado do verbo “valorizam” por vírgula. Erro fatal para estudante de ensino médio. Mesmo sob aquela “regra” (muito idiota, a meu ver) de que se coloca a vírgula quando se tem uma “pausa” na fala, a colocação ainda estaria, esteticamente, incorreta.

(2) CONCORDÂNCIA NOMINAL.

“... pagamos altos impostos nesses país.” Ora, se “país” é singular, óbvio que o termo adjunto a este deve também estar no singular. Chega! É melhor parar por aqui. Bem que os professores de português poderiam burlar a greve...

VOLTANDO AO TEMA...

Disse anteriormente que os erros lógicos são piores que os gramaticais. Não menti. Perceba a exigência dos manifestantes: querem que os recursos advindos de impostos sejam revertidos em investimentos nas escolas. Nada mais justo, concordam? Se pago por um determinado serviço, é porque quero que seja bem feito, certo? Bom, nesse caso, ERRADO. Vamos a algumas perguntas norteadoras para explicar o porquê do erro:

(1) Quem recebe/cobra impostos?
(2) Quem determina a aplicação dos recursos para Educação?
(3) Quem paga esses impostos?
(4) Quem é prejudicado com a má qualidade da Educação?
(5) Quem é beneficiado com a má qualidade da Educação?

Respostas:
(1) O Estado (políticos).
(2) Os parlamentares (Congresso Nacional, Assembleias Legislativas e Câmaras Municipais).
(3) A população que trabalha e produz.
(4) A população mais pobre que não pode pagar por escolas particulares.
(5) Os políticos, que obtém votos de pessoas menos instruídas em sua maioria.

Acho que as respostas a essas perguntas já fornecem grande ajuda para compreender a falha lógica da luta estudantil. Exigem que os políticos, que são beneficiados com a baixa qualidade educacional, invistam em melhoria na Educação! Ora, p....! Se os políticos saem ganhando com a situação desastrosa das escolas, por que iriam acabar com essa vantagem? Ademais, tem-se aí mais um emblemático problema: os políticos sempre propõem as mesmas coisas, “melhoria da Educação, saúde, segurança...”, todas as eleições. Se qualquer um desses problemas fossa simplesmente resolvido, haveria um motivo a menos para a candidatura da maioria deles, não é mesmo? Daí, pergunto novamente: POR QUE CARGAS D’ÁGUA ELES ACABARIAM COM ESSA VANTAGEM?

Dos parágrafos 2º ao 6º, as queixas são todas direcionadas a esse conflito de interesses; conflito esse perpetuado pelas próprias propostas estudantis. Na prática, os estudantes reclamam da ineficiência do Estado. E o que pedem? Mais gastos em escolas, merenda escolar, aumento de salários para professores, mudanças na infraestrutura das escolas etc. Exigem muitas mudanças em tudo, exceto no poder estatal. Eis a ironia de movimentos como esse.

IDEIAS RADICAIS

Não, não me refiro ao canal do YouTube, e sim às palavras de ordem que finalizam o documento. Imaginando-as como as propostas orientadoras de todo o manifesto, vamos verificar as implicações de cada uma.

"LUTAR NÃO É CRIME!"

Lutar não é crime mesmo. A Constituição Federal assegura o direito de livre manifestação do pensamento (artigo 5º, inciso IV). Assim sendo, não há como tomar por “bandidos” os jovens responsáveis pelas ocupações, posto que ajam por razões infantis.

"VIVA A LUTA TRANSFORMADORA, ENTRE ESTUDANTES E PROFESSORES! SÓ A LUTA MUDA A VIDA!"

Lutar por seus direitos não é crime, porém, não significa que os motivos da luta estejam sempre certos. Na verdade, os estudantes podem ocupar quantas escolas quiserem, pelo tempo que quiserem, contudo, não obterão êxito enquanto mantiverem um ideal de dependência da vontade política.

"EM DEFESA DO PASSE LIVRE ESTUDANTIL!"

O passe livre é uma estupidez sem tamanho. Quem quiser utilizar o serviço, que pague por ele, oras! Não há qualquer impedimento a que um trabalhador ou um estudante pague a tarifa de ônibus, o ingresso para um filme ou para assistir a uma partida de futebol. Ao invés disso, os ditos manifestantes preferem bancar, com mais impostos, o peso de uma burocracia especial voltada para aquilo que os próprios indivíduos podem pagar diretamente.

"ACESSO LIVRE A UNIVERSIDADE PARA TODOS! COM O FIM DO ENEM E DO VESTIBULAR!"

Acabar com os processos seletivos para adentrar nas universidades, sejam públicas ou privadas, seria uma medida insana. Não haveria como o Estado arcar com custos progressivos a cada ano, para constante ampliação de laboratórios, salas de aula, campos de pesquisa e treinamento etc. A menos, é claro, que houvesse, a cada ano, um aumento brutal da carga tributária (sim, mais impostos!).

Mas, isso por si só não seria suficiente. Seria necessário ampliar também o corpo docente de todas as universidades, e, provavelmente, cortar gastos públicos com outros setores e realocar os recursos para a Educação. Em suma, o que os “admiráveis revolucionários” propõem é que os brasileiros paguem uma conta altíssima! Além disso, o critério maior para estudar numa universidade é justamente o mérito demonstrado pelo candidato à vaga. Como se mensurará o mérito dos futuros acadêmicos sem um exame de avaliação?

"EM DEFESA DA PERMANÊNCIA DAS OCUPAÇÕES NAS ESCOLAS, ATÉ O ATENDIMENTO REIVINDICATÓRIO DOS ESTUDANTES!"

Sugiro que esperem deitados. Em meio a um ajuste fiscal, dificilmente o Congresso Nacional aprovaria essas medidas. Aliás: não se aplica essas medidas em época alguma! São propostas tão absurdas que nem mesmo as figuras mais satíricas de nosso Congresso ousaram colocá-las em pauta. Pelo menos não ainda...

"PELO FIM DO MODELO ULTRAPASSADO DA ESCOLA ATUAL! EM DEFESA DE UMA ESCOLA REALMENTE DEMOCRÁTICA E COMUNITÁRIA! ATÉ A VITÓRIA CAMARADAS!"

Um momento. Modelo ultrapassado? Estariam se referindo à pedagogia? Ou quem sabe à administração das escolas? Dificilmente. O que defendem é “uma escola realmente democrática e comunitária.” Seria um modelo de administração comunitária das escolas públicas, feito pelos próprios indivíduos? Bom, isso não se vê muito claro. Talvez, seja a única boa proposta do manifesto.

No entanto, nota-se uma palavra de ordem muito conhecida nos meios partidários: “Até a vitória camaradas!”. Muitos políticos de esquerda, de partidos como PDT, PSOL, PCdoB, até mesmo o ex-presidente Lula, chegaram a utilizar a frase em uma campanha eleitoral ocorrida em Fortaleza, em defesa do candidato petista à prefeitura. A conotação político-partidária do movimento, embora não comprovada, deixa aí um leve sinal suspeito aos desavisados.

Ou, são apenas comunas sendo comunas...rs.

APRENDIZADO

O que os cearenses aprenderam/aprendem com esse movimento? Nada. Daqui a poucos meses, nem mais se lembrarão dessas ocupações. O que não deixa de ser lamentável, visto que reside aí uma oportunidade de esclarecer ao povo o inevitável: enquanto a educação estiver sob o controle do Estado, as melhorias não ocorrerão tão cedo; enquanto houver escolas públicas, haverá semianalfabetos, como os redatores da tal carta aberta.

Logo, o que seria ideal? Tirar o controle do Estado sobre escolas, certo? Tudo bem, mas, como fazê-lo? Privatização, modelos de partilha, concessões, vouchers... E a lista continua. Creio que isso será, muito possivelmente, tema de outro artigo. ¡Hasta luego!

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