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Matrix Brasileira - Se você acha que está protestando pelos motivos certos, deveria ler esse texto



Por Vinicius Campos

O Brasil está em um momento efervescente. Governo corrupto! Crise econômica e crise política graças a desconcertos macroeconômicos. Crise de confiança graças ao descontrole político, imposto, corte de direitos, falta de verba, insustentabilidade fiscal!!! Ufa, quantos motivos para protestos!

Mas, apesar de serem problemas bastante graves e dignos de atenção, não basta resolve-los sem que se ataquem as suas raízes. Grande parte da população quer tirar o PT do poder (inclusive eu!), mas acreditar que esta é a fonte de todo o problema é ilusório. Discute-se como tirar os políticos corruptos do poder, mas pouco se fala de como foram parar ali. São os mesmos de sempre, os que sempre estão envolvidos, mas que sempre estão no poder. Atribuímos isso ao fato de que nossa justiça sempre foi frouxa quanto a políticos corruptos e isto talvez esteja mudando. Concordo e acho muito bom, mas a pergunta permanece sem resposta: como foram parar ali, de novo?

Pois bem, se realmente queremos mudar algo, temos que protestar pelos motivos corretos. Não é suficiente acreditar que tirar o PT e todos os demais corruptos do poder, além de elevar o poder da justiça contra a corrupção, fará de nós uma Dinamarca. O problema é mais profundo e crônico.

Não basta que imputemos culpa no governo e esqueçamos o Estado. Desde sempre, o Estado corta a mão para preservar o braço. Sempre que nossa estrutura estatal chega a um esgotamento, a “matrix Brasileira” acha uma forma de reiniciar o sistema. Quando o faz, exclui o governo em vigência, como solução para todos os problemas, e mantém o Estado sanguessuga em outras mãos.

É verdade, mudanças foram feitas, por vezes alguns avanços econômicos ou sociais. Mas o Estado permanece em sua essência. Passamos por privatizações, pelo “Neoliberalismo Tucano”, otimizamos a economia e “elevamos a renda”. Porém, o Brasil, em uma análise mais aprofundada, caminhou muito menos do que poderia. A situação da saúde é péssima, educação nem se fala, preços altos, infraestrutura horrível para escoar produção, nordeste sucateado, e os mesmos mandatários de sempre no poder.

Toda a estrutura do Estado brasileiro está formulada para nos manter na matrix. Durante toda a história, nos moldaram a pensar que o Estado deve prover desenvolvimento social e nos proteger do “Capitalismo Selvagem” de países que se desenvolveram bem mais do que nós em bem menos tempo. Agências de regulamentação precisam nos proteger, salário mínimo é necessário para manter uma renda digna, Banco Central é refém das políticas de Estado, governo com política ativa sob o mercado, impostos de importação são necessários para fortalecer nossa indústria, o Estado deve cuidar da infraestrutura e por ai vai. Todos esses assuntos se tornaram tabus no Brasil e são bem menos discutidos que o fato de sermos governados por corruptos, excesso de impostos ou má qualidade dos serviços prestados (consequências). Pois vos digo, nossa atenção deve se voltar a esses aspectos, fontes do verdadeiro problema. Já é hora de escolher a pílula azul.

É muito difícil questionar coisas do tipo: “a Anatel é necessária?” ou “salário mínimo e CLT pesada são pré-requisitos de uma sociedade que eleva o bem estar do trabalhador?”.

Para responder essas perguntas, há uma demanda de conhecimento técnico muito elevado. Acentuar o peso dos custos trabalhistas, excesso de impostos, política fiscal agressiva, excesso de regulamentações que limitam a oferta, geram apenas um resultado: alto preço e baixa produtividade. Enquanto o mercado externo sustentar essa pesada estrutura, como foi o governo Lula através dos boons de China e EUA, e altos preços das commodities, tal como a desvalorização do dólar frente ao real, a renda per capita pode até se elevar um pouco, mantendo o preço estável devido a ofertas de importados.

Entretanto, se trata de uma situação limitada, uma bomba relógio que está estourando e nos deixando engessados. Basta ver a queda da renda per capita nos últimos anos, nos deixando atrás de alguns países emergentes – o FMI estima que ficaremos estagnados em cerca de 27% da renda per capta dos EUA. Não há como contar para sempre com o mercado externo. Otimizar o mercado interno incentivando a oferta é primordial, e isso se faz retirando os empecilhos ao empreendedorismo. Já é hora de deixar de tratar o empreendedor como vilão, expurgar a categoria de empreendedores acomodados, ineficientes, corruptos protegidos e construir um mercado competitivo de verdade.

Por que o nordeste está sucateado? A qualidade de vida é tão baixa para grande parte da população onde há grande fluxo de pagamentos de programas sociais, justamente onde se elegem indivíduos como Renan Calheiros, Sarnei, Collor, e o PT. Não é por acaso. O descuido com a infraestrutura como estradas de péssima qualidade, por exemplo, tal como salário mínimo (onde a produtividade do nordestino é menor que a dos trabalhadores do sudeste) escolas de péssima qualidade (que não elevam a produtividade do nordestino), péssima saúde de péssima qualidade (elevando os custos das empresas). São todos aspectos que afastam a industrialização da região. As empresas não são atraídas devido ao alto custo de se produzir por lá.

Apesar da região ser muito bem posicionada para o comércio externo, é bem menos produtiva que as regiões sul e sudeste. Desta forma, os programas sociais se fazem fundamentais para a região e mantém os votos daqueles que os provém, independente das atrocidades que venham a cometer no poder (e, convenhamos, em situação de pobreza, tal ação é perfeitamente compreensível, levando em conta nossa falta de cultura política). 

Parte da solução: renovação do Pacto Federativo.  

Outro grande tabu brasileiro não discutido e que poderia dar vazão a boa parte dos problemas é a renovação do pacto federativo ou a autodeterminação dos povos, discutido com maestria pela autora Ana Zanatta neste artigo.

A constituição garante a autodeterminação, embora este não seja um fato conhecido do povo brasileiro, devido à lógica de nascimento do Estado. O Estado nasceu para garantir direitos e sobrepor o Estado bárbaro de natureza, possibilitando que a sociedade coopere. A partir de seu nascimento, muitos deles tomaram proporções e passaram a debater sobre diversos temas que, em sua maioria, não deveria caber a esse. Há, então, o direito de não se sentir representado, e usar de seu direito a autodeterminação ou exigir maior autonomia dos territórios.

Um país grande e sem autonomia distrital facilita a política intencionalmente (e por motivos políticos) regionalizada, ou seja, a manipulação política a favor do Estado central. Desta forma, a política se torna uma barganha de votos, tanto comprando votos da população como negociando financiamento de campanhas políticas com empresas. E não se iludam com a questão da proibição ao financiamento público de campanha, pois o verdadeiro financiamento acontece por debaixo dos panos.

Além do mais, a centralização pertencente a um Estado-Nação, estruturalmente organizado de cima para baixo como é o Brasil, onde a União toma grande parte das decisões. Certamente os direitos de propriedade não serão respeitados como deveriam. Isto porque há uma transformação muito grande de visão mundana (de pessoas) para números estatísticos, quanto maior for o poder central de um território.

A maneira como as pessoas lidam com assuntos locais é extremamente diferente de como lidam com agregados de gastos públicos. Uma administração que lida com números está isenta de seu julgamento moral, ou, não apenas por questão moral propriamente dita, mas até mesmo por uma questão biológica. Imagine que, o contato visual com uma pessoa na qual se sabe que está se fazendo algum mal, levando vantagem em cima dessas, é muito mais vergonhoso que notar tal fato apenas por números.

Um burocrata, atrás de uma mesa, pouco se importa se seu esquema na Petrobras está matando milhares de fome. Certamente, se tivesse contato visual com o produto consequência de seus atos, talvez tivesse uma reação diferente. Quanto maior a centralização do poder, maior tende a serem as arbitrariedades, visto a falta de contato social. Mais fácil lidar com planilhas do que com sentimentos.

Há ainda de se considerar que – e aqui uso um conteúdo extraído do livro “O Antifrágil”, de Talleb – exista uma questão psicológica. Somos mais facilmente influenciados por um bebê chorando do que com pessoas que morrem diariamente em vários lugares que não aparecem na TV. Um dos casos é uma tragédia, o outro, apenas uma estatística, embora o segundo fato seja, sem dúvidas, mais trágico. Quando se administra usando apenas números, há um grande risco moral, dado a ausência de sentimentos, e até mesmo falta de certa racionalidade. Os números nem sempre expressam, de maneira satisfatória, a realidade.

Em suma, um Estado projetado para o poder de cima para baixo não se importa se sua estratégia de manipular o mercado via agência de regulamento, enganando o povo quanto à sua necessidade apenas para exacerbar o valor do produto/serviço. O Estado aumenta o preço a níveis para endividar o brasileiro e elevar o problema da desigualdade, mesmo que tal fato envolva saúde de sua população (vide o filme Clube de Compras Dallas, onde desenvolvi este artigo).

O Estado não dá a mínima se sua política de isenção fiscal garante vantagem àqueles que apoiam o governo (Luiza Trajano que o diga), elevando o preço de todo o setor. Não liga se sua política protecionista acarreta na obrigação do brasileiro consumir um produto caro, de má qualidade e ainda enriquecer o empresário protegido. O burocrata pouco se importa se o esquema de contrato superfaturado com a Petrobrás – cujo monopólio ele mesmo fornece para garantir o sucesso do esquema - eleva o preço da gasolina e deixa o produto automóvel acessível apenas à classe média para cima.

Importa-se ainda menos se sua política de salário mínimo leva a dependência de programas sociais que amarra grande parte do povo à pobreza, além de impossibilitar o aumento da própria produtividade, comprometendo o desenvolvimento de uma região inteira. Chegam ainda a proeza de congelar preços para garantir eleições, mesmo que tal fato gere escassez ou que os preços elevados futuramente quebre muitas famílias, levando-as ao empobrecimento. É muito fácil se desligar das consequências quando elas não acontecem no quintal de sua casa.

Você ainda achará que o problema de toda a corrupção e do parasitismo será de governo, e não da estrutura de Estado que permite a esses governos parasitar. E assim a Matrix reiniciará o sistema.

No final das contas, ainda ouviremos que a culpa de tudo isso é do capitalismo, e não da organização social orquestrada pelo Estado entrelaçada com empresários em busca de lucros.

Quando é que protestaremos pelo motivo certo?

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