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A terceira e quarta doutrina. O que Vladimir Putin e Getúlio Vargas têm em comum?


Por Ricardo Vitorino do Nascimento

Analisar a história é uma forma sábia de evitar cometer os mesmo erros. A história se repete em ciclos e se nos dispormos a analisá-la, podemos ganhar muito. Quem tem a capacidade de abstrair e olhar para trás, de se distanciar e analisar os fatos de fora, pode perceber algumas coisas que as pessoas que não conseguem não percebem. Assim podem ter uma visão mais acurada e por isto mesmo diferente da maioria que apenas vê o mundo como quem assiste a um noticiário jornalístico, não fazendo nenhuma análise e conexão entre os fatos sejam do presente ou do passado. Por isso quero compartilhar algo que tenho percebido, e que até o presente momento não vi nenhum analista comentar. Nem brasileiros, nem americanos ou europeus, se chegaram as mesmas conclusões, ou não publicaram ou eu não tive acesso.

Em 1930, o Brasil vivia a seguinte situação política: o governo era revezado entre os políticos ligados aos produtores cafeeiros do estado de São Paulo e os de Minas Gerais, ligados aos produtores de leite. Esse período ficou conhecido como “República do café com leite”. Como consequência dessa situação insustentável, políticos de outros Estados se organizaram e ajudaram Getúlio Vargas a tomar o poder com a promessa de convocar eleições livres assim que fosse possível. Na década de 1930, o mundo inteiro passava por um forte período de totalitarismo: Franco na Espanha; Salazar em Portugal; Mussolini na Itália; Hitler na Alemanha. O comunismo havia tomado o poder na Rússia e a ameaça comunista era real. De uma certa maneira, esses regimes autoritários tentavam frear o comunismo aplicando os mesmos princípios, mudando apenas seu público alvo. Ou seja, de classe para raça e de burgueses para judeus no nazismo, por exemplo.

No Brasil não foi diferente. Surgiu aqui o integralismo de Plínio Salgado. Na impossibilidade de escolher uma raça para se contrapor à classe em uma sociedade já a aquela altura bastante miscigenada, optou-se justamente por enfatizar essa característica. O brasileiro era um mestiço.

Da mesma forma que uma heresia contém uma verdade ou uma meia verdade e essa verdade é deturpada para justificar sua doutrina, os fatos relativos a constituição e a formação do povo brasileiro parte das três matrizes (indígena, europeia e africana). A inquestionável miscigenação comprovada através do número dos que se declaram pardos, ou ainda o número de escravos chamados de negros da terra (índios) e a difusão do idioma nhengatu derivado do tupi-guarani e falado por negros e brancos até que fosse proibido pelo Marques de Pombal. Enfim, todos esses fatos foram usados para determinar que sendo todos nós índios, brancos e negros, a matriz do povo brasileiro somos todos brasileiros. A saudação integralista Anauê, segundo seus proponentes proveniente do tupi, significaria literalmente "você é meu irmão", sendo usada no sentido de que somos todos irmãos, todos brasileiros, apelando assim a uma unidade nacional.

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Essa busca de uma identidade nacional que já havia sido feita pelo romantismo, se reflete agora num movimento de inspiração fascista, anti-anarquista (o anarquismo era tão ou mais forte que o comunismo naqueles anos) e anti-comunista (na forma, mas não na essência, a ponto de serem chamados de melancias: verdes por fora e vermelhos por dentro). Algumas outras características desse movimento eram o viés anti-esquerda (anarquismo, comunismo) e por isto considerado de direita. O anti-capitalismo, liberalismo e sionismo (Gustavo Barroso foi o principal anti-sionista, chegando a provocar a saída de Roberto Simonsen, banqueiro judeu do Rio de Janeiro, do integralismo) o que os colocava ao lado do fascismo e nazismo. Um dos lemas do movimento era Deus, Pátria e Família caracterizando uma posição anti-ateísta. Um dos motivos de ser anti-comunista, pró-católico-romano (por muitas vezes anti-protestante), nacionalista e pró-família (semelhante a posição da TFP, Tradição, Família e Propriedade).

Havia de um certo modo uma visão holística e idealizada do Brasil como um povo de família católica, tradicional, conservadora e que o que fosse diferente disso não poderia ser algo bom, logo era algo ruim e deveria ser mudado ou eliminado.

O anti-capitalismo liberal também conferia uma visão econômica patrimonialista, protecionista, nacional-desenvolvimentista etc, de privilégios a indústria nacional por exemplo. A exemplo de seus primos na Europa, o movimento aqui tinha seus símbolos, o Sigma, suas bandeiras e cores, azul com circulo branco, suas saudações, “Anauê”, “Deus, Patria e Familia”, seus uniformes militares verdes e por isto eram chamados de galinhas verdes.

Tal movimento foi o primeiro genuinamente brasileiro a arrebanhar um milhão de adeptos. Dentre eles, além do próprio Plínio Salgado, grandes intelectuais inclusive alguns recém saídos da Faculdade de direito do largo São Francisco, como Gustavo Barroso, e o jurista Miguel Reale (que anos mais tarde se tornaria liberal), Roberto Simonsen entre outros.

Em 1930 Getúlio deu o golpe de Estado que instalou o Estado Novo. Em 1932, os políticos paulistas ligados aos produtores cafeeiros começaram a revolução constitucionalista, exigindo eleições livres. O Estado de São Paulo entrou em guerra contra a Federação e foi derrotado. Nos anos 1940 com a intensificação do nazismo na Europa, Getúlio Vargas adotou uma postura que muitos analistas consideram titubeante, indecisa, chegando a apontá-lo como um fraco. Ora apoiava o USA e os aliados, ora apoiava Hitler e Mussolini, chegando a copiar a Carta del Lavoro para sua CLT e a entregar a militante comunista judia-alemã Olga Benário Prestes, grávida de alemães para ser enviada aos campos de concentração (apesar de que Olga não hesitaria em executar uma burguesa capitalista liberal grávida).

Nesse ínterim, Plinio Salgado, que considerava Getúlio como um Mussolini brasileiro e o apoiava, pleiteava uma posição de influência junto ao governo, foi acenado com a promessa de um cargo como ministro da educação, fazia campanhas pró-Getúlio, passeatas etc. Getúlio ainda se equilibrava nas suas posições pró-aliados ou pró-eixo, foi solicitado pelos dois lados, não dava respostas definitivas a nenhum deles, ora demonstrava apoio a um, ora a outro, mas procurava mostrar uma postura de neutralidade no conflito, afinal esse era um conflito europeu e americano que em nada afetava diretamente ao Brasil.

Mas dois fatos importantes fizeram ele ter que decidir, primeiro uma oferta americana de ajuda financeira e desenvolvimento, caso o Brasil entrasse na guerra, e segundo um navio mercante brasileiro foi alvejado por submarinos alemães. Então o Brasil se juntou aos aliados contra o nazi-fascismo na Europa, dentro de casa. Porém, as coisas permaneciam como antes. Em 1945, os aliados vencem a guerra.

O Brasil seria agora recompensado com um parque industrial, se aproximou ainda mais dos USA. Mas e como ficaria a situação interna? Como lutar contra o nazi-fascismo lá fora e justificar um estado fascista aqui dentro? E os integralistas? E Plinio Salgado? E seu cargo como ministro da educação? Getúlio então baixou um decreto com leis que proibíam terminantemente qualquer associação de cunho fascista. De forma clara e inequívoca proibiu hinos, saudações, roupas, insígnias, bandeiras e gritos de guerra que sequer lembrassem algo parecido com o fascismo. Foi um duro golpe para o integralismo e uma traição para Plínio Salgado.

Getúlio, ao contrario do que muitos analistas dizem, não foi um líder fraco e hesitante que não sabia bem a que lado se aliar. Pelo contrário. Tal qual Napoleão, o lado dele sempre foi o do poder, tinha plena consciência disso e foi muito hábil em usar a tudo e a todos em seu favor para manter e aumentar seu poder, inclusive o ingênuo Plínio Salgado e seu movimento integralista para servir ao seu propósito.

Fiz uso de um exemplo histórico de uma realidade próxima a nós enquanto brasileiros para refletir acerca de algo que ocorre em pleno século XXI. A história se repete do outro lado do mundo. Um intelectual filho de militar de alta patente da antiga KGB russa, Alexandr Duguin, tem misturado conceitos bastante confusos e por vezes contraditórios (porém, com argumentações baseadas em lógica) e criou um movimento russo chamado eurasianismo ou neoeurasianismo. Tomando emprestadas ideias dos antigos movimentos russos do fim do século 19 eurasianismo e pan-eslavismo, a ideia de que todas a etnias no antigo território da ex-URSS fazem parte de um supra etnos, uma supra etnia russa. Em parte, geneticamente falando, ele tem certa razão. Porém, como já vimos, uma heresia é uma meia verdade.

Duguin, ao fazer uso dessas ideias, apela para uma unidade desse povo em torno desse supra etnos, tal movimento atual guarda algumas semelhanças com o fascismo, nazismo e o antigo movimento integralista brasileiro. A busca de uma identidade nacional e ao mesmo tempo supra nacional, étnica (como ele disse, onde estiver um russo, aí está a Rússia), o fortalecimento do tradicionalismo, conservadorismo (não no sentido britânico) do que é antigo independentemente de sua validade, o anti-ateísmo encarnado no apoio da e para a igreja católica ortodoxa, da família tradicional russa, o anti-capitalismo liberal etc. Além de fazer uso da mesma estética nazi-facista com símbolos, bandeiras etc (curiosamente o capitalismo liberal nunca usou isso como bem lembrou Ludwig Von Mises: "não temos flores, nem cores, hinos nem símbolos").

Duguin, obviamente conta com o apoio da cúpula máxima do poder em Moscou na pessoa de Vladimir Putin, que é a encarnação da própria KGB (não existe isso de ex-KGB, disse ele), Duguin se julga, e muitos analistas concordam. O mentor intelectual de Putin e de toda política russa - mais uma vez discordo e afirmo que tal qual Napoleão e Getúlio, Putin é mais esperto e ambicioso que isto -, Duguin pode de fato levar a sério sua doutrina eurasiana, Putin não! Ele não pensaria duas vezes em afirmar que os mongóis fazem parte do supra etnos russo como pretexto se tivesse uma única oportunidade de invadir a Mongólia! Ele não está preocupado com coerência filosófica. Ele está interessado na manutenção e na expansão do poder.

Todos que porventura consideram a quarta doutrina como algo relevante do ponto de vista político-filosófico, ainda que para criticar, discordar e demonstrar suas contradições, não estão atentando para a verdadeira questão. Putin já fazia parte da KGB na Rússia comunista. Ele apoiaria o comunismo, eurasianismo, nazismo ou qualquer doutrina (liberalismo?) que pudesse legitimar seu poder. Assim como ele agiu antes com Alexandr Medved (o Robin), Duguin sem perceber, apesar de toda a bagagem intelectual, é que está sendo usado por Putin e continuará sendo enquanto for útil. Não tenho sombra de dúvidas de que caso o cenário geopolítico se mostre desfavorável a essa posição, Putin mude de lado e condene o próprio Duguin e proíba seu eurasianismo como Getúlio fez com o integralismo. Por enquanto a roda da história está girando a favor de Duguin, ao menos do lado de dentro. Mas como a história demonstra, nada disso é garantido.

Enquanto observadores, nós, ocidentais, atlantistas, devemos ficar atentos e não cair no jogo de aparências, nas cortinas de fumaça. Deveríamos assim como no jogo de xadrez, no qual os russos são mestres, antecipar os movimentos do adversário e nos precaver, sobretudo permanecer vigilantes. Duguin esteve no Brasil recentemente e foi recebido quase como um deus em algumas universidades como a USP. Fez declarações elogiosas ao país dignas de um ídolo do rock que toca no Rock in Rio, dizendo até que nossa musica pop (MPB?) é superior a música russa! E que é fã de bossa nova (sério? Atenção!) elogiando o fato de que aqui várias etnias convivem em harmonia! 

Não se iludam! Não seja ingênuos! É óbvio que ele não falaria mal do Brasil! É óbvio que ele iria elogiar e ao mesmo tempo dizer que o Brasil procura sua identidade longe da influência americana, atlantista, querendo com isso dizer que o Brasil deve ser anti-USA e pró-Russia, tendo citado por exemplo que o Brasil já é um parceiro da Rússia através do grupo dos Brics!

Devemos deixar de lado nosso romantismo. Esse deixemos para os momentos apropriados. Tem um ditado da diplomacia que resume bem o que penso:
“Países não tem amigos, tem interesses”.

PS: ao buscar imagens para ilustrar o texto que ligassem Getulio a Plino e Putin a Duguin, simplesmente não encontrei, o que reforça minha teoria.

Publicado originalmente em Opinião Pessoal  https://opiniaopessoal2.wordpress.com/2014/05/13/a-terceira-e-quarta-doutrina-o-que-vladimir-putin-e-getulio-vargas-tem-em-comum/

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