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O brasileiro e a mentalidade da cultura de curto prazo


Por Ana Zanatta

Hoje li que o tempo de payback de um projeto de painéis de energia fotovoltaica costuma ser de cerca de três anos. Três anos nem parecem tanto tempo assim em uma primeira análise, mas como estará a economia brasileira em 2019? Estará pior que agora ou voltará a respirar?

Como prever o futuro não é possível, é mais fácil escolher o caminho mais simples e que traga vantagens imediatas. Isto é, continuaremos utilizando a rede elétrica convencional, sem alternativas. Mas, por mais que a curto prazo o custo da energia fotovoltaica seja maior, a longo prazo é evidente que esta seria uma opção melhor.


O exemplo de painéis solares é um investimento mais complexo, mas por que não vemos tantos brasileiros planejando a aposentadoria, guardando dinheiro para a faculdade dos filhos, fazendo uma poupança para imprevistos? Porque essa visão a longo prazo não faz parte dos hábitos tipicamente brasileiros.

Os mais jovens não lembram, mas os pais e avós deles certamente conheceram períodos de inflação alta, taxa de juros alta e grande instabilidade econômica no século passado. Esses períodos que se repetiram algumas vezes criaram uma cultura de medo que permeia nossas ações atualmente. E o medo não é sem razão, pois uma grande quantia de dinheiro hoje poderia se desvalorizar muito em um curto período de tempo em alguns pares de anos.


Confisco de poupança, muitas mudanças de moeda e inúmeras confusões políticas contribuíram para que esse clima de incerteza com o amanhã fosse maior. E enquanto tudo isso acontecia, os governos malucos tinham sempre a mesma brilhante ideia de interferir mais e mais na economia, gerando dessa maneira mais e mais crises.

A sociedade brasileira cresceu impaciente e ansiosa, saindo de casa para o trabalho sem saber se poderia chegar em casa e jantar com a família antes de dormir, seja por motivo de doença, violência ou dificuldade financeira. Com isso, ninguém quer perder a oportunidade de aproveitar uma promoção imperdível, de comer a última fatia de bolo, pois pode ser que quando a fome chegue, o bolo já esteja terminado.


Brasileiro também tem fetiche por compras a prazo, afinal pode-se ter o produto agora e pagar a primeira parcela apenas em 30 ou 60 dias e continuar pagando por 12, 24 ou 36 meses, por exemplo. Quando tem dinheiro, gasta, pois não sabe se terá amanhã. Quando não tem dinheiro, gasta também, pois prefere se preocupar com a fatura do cartão de crédito quando ela chegar mês que vem.

O resultado disso: transferimos os custos de nossas más ações para as gerações futuras. Não sabemos controlar o orçamento doméstico e brigamos com nossos filhos que fazem gastos supérfluos. Ou nos culpamos por não poder comprar o mais recente lançamento de videogame para eles. Confuso? Claro. Familiar? Muito.

Tantos problemas econômicos em tão pouco tempo provocam uma procura muito grande por concursos públicos, afinal de contas, é um bom salário, muitas vezes com pouco trabalho, com aposentadoria garantida e estabilidade. Estabilidade. Essa palavra causa fortes emoções nos brasileiros. Faculdades se tornam fábricas de "concurseiros". E ter um emprego público é o maior sonho que um brasileiro consegue ter.


Não fomos criados para ter autonomia. Não tivemos educação financeira. Achamos que contabilidade é um monstro que apenas grandes empresas devem aprender. Sabemos tudo sobre novela e futebol, mas não sabemos nada sobre o sistema tributário, sobre o mercado de ações ou a cotação de commodities.

Na escola, aprendemos tudo sobre justiça social, inclusão social, direitos das minorias, “cidadania”, “democracia”, mas não sabemos planejar os gastos do mês, quanto menos um investimento a longo prazo. Queremos salvar o planeta, acabar com a poluição, proteger os animais em extinção, reciclar todo o lixo do mundo, mas não conseguimos economizar 10% ou 20% do nosso salário.

Essa mentalidade de pensar apenas a curto prazo trouxe o país até aqui e a perspectiva é que continue o afundando mais ainda. A geladeira está vazia, mas só vou comprar comida no horário do almoço. E se a fila do supermercado estiver grande, o estacionamento lotado e o almoço atrasar? A palavra "planejamento" parece ter sido riscada do dicionário brasileiro.
Essa cultura míope é crônica e vai muito além da economia pessoal. Tirar a Dilma e todo o PT do poder fazem parte da solução do problema, mas é só uma pequena parcela. A mudança que realmente precisamos é muito mais profunda. Como será o Brasil daqui 10, 20, 50 anos? Você está preocupado apenas com a sua vida durante esta semana ou também com a vida dos seus netos?

"Para cada mil homens dedicados a cortar as folhas do mal,
há apenas um atacando as raízes." Henry David Thoreau

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