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Crise Mundial - Como os governos estão fragilizando o mundo



Por Vinicius Campos

O governo, quando elabora formas de intervir na economia visando conter a volatilidade natural de mercado, está tornando esta economia mais frágil ou menos frágil? Se você tem dúvidas ao tentar responder essa pergunta, lhe faço uma segunda: do que é composta uma vacina de prevenção à gripe? Ainda não entendeu? Pois bem, não se preocupe. Eu explico.

A vacina que visa fortalecer nosso organismo contra gripe é composta com o próprio vírus. O autor Nassim Nicholas Taleb, profissional do mercado financeiro e filósofo, escreveu um ensaio chamado “Antifrágil” – leitura interessantíssima a qualquer liberal – onde explica o conceito de antifragilidade. Neste ensaio, ele explica o por que de “inventar” tal palavra, pois o conceito que estava tentando descrever ainda não existia interpretado por um termo específico.

O oposto de frágil é o robusto? Não para o autor, pois frágil é algo que se prejudica quando exposto a agentes estressores. Já robusto se trata de algo que se mantém resiliente. Mas se frágil se prejudica ante as tais agentes, o oposto deveria se beneficiar, não? É daí que parte a definição de antifrágil, algo que se beneficia quando exposto. O corpo tem, em muitos aspectos, características antifrágeis, e é exatamente por isso que a vacina contra gripe está munida com o próprio vírus, pois quando exposto ao vírus (agente estressor), nosso corpo se torna mais forte ante a ele (em pequenas doses, claro). O mesmo exemplo pode ser usado a atividades de hipertrofia. Os músculos se tornam mais fortes quando tem suas fibras rompidas através de exercícios de levantamento de pesos. Muitas estruturas do corpo não são robustas, são antifrágeis.

E os sistemas econômicos? Também é tratado como um sistema antifrágil pelo autor. Isto porque se trata de uma atividade humana, e possui diversas características antifrágeis. O que não ocorre com frequência com corpos “não-naturais”, como por exemplo um carro que, se você batê-lo, ele não irá se refazer mais forte. Além disso, o autor expõe que a antifragilidade depende, inerentemente, de sub-organismos frágeis. A morte destes garante a vida dos demais. Quando você rompe as fibras do músculo ao fazer exercícios, novas fibras serão construídas mais fortes, formadas por células novas à custa das células que foram destruídas.

O governo frequentemente intervém na economia como se crises fossem previsíveis e, tentando evitá-las, acaba por agravá-las. Para que uma economia seja antifrágil, se faz necessário que seus agentes tenham certo nível de fragilidade. Ou seja, estejam expostos ao risco. Quando a economia sofre uma eventual queda de atividade, alguns dos banqueiros, tal como algumas empresas, irão falir. Ao falir, evidenciarão quais são os cuidados que deveriam ter sido tomados por elas, mas que não foram, e outras empresas emergirão no setor com tal ciência.

Ou, em um segundo exemplo, quando serviços por uma empresa não são prestados a gosto do consumidor, essa poderá ser levada a falência, assim evidenciando a forma com que os consumidores querem ser atendidos. A fragilidade dessas empresas contribui fundamentalmente para a antifragilidade de todo o setor, pois com sua falência o setor passa a tomar medidas ainda não tomadas. Isto é, o setor como um todo se fortalecerá com o estresse gerado pela queda econômica, fortalecendo-se, mesmo que à custa de algumas empresas.

Quando o governo intervém garantindo alguma empresa, tira o elemento fragilidade que, em si, garante a antifragilidade de toda economia. Passando a termos práticos, a ação governamental que garante que uma empresa ou banco não quebre ante a uma crise ou volatilidade esconde a informação presente no agente estressor, que é “não mais cometa o erro x”. Logo, se aquela empresa não quebrar por ter sido incapaz de se precaver de volatilidades, não despertará a antifragilidade de toda economia. Ou seja, não passará a lição aos demais agentes de que aquele erro não deve mais ser cometido. Muito pelo contrário, passa-se a informação de que não há problema algum em errar, pois a figura do Estado estará ali para efetuar o resgate. Logo, ao invés de aquela economia se tornar antifrágil, absorvendo as lições de erros a não se cometer, caminha no sentido inverso, cometendo cada vez mais erros por estar garantidos, e tornando a economia cada vez mais frágil.

Se o governo fosse capaz de prever toda e qualquer volatilidade de uma economia, não haveria problema algum em intervir, uma vez que saberia como se precaver de forma exata a cada solavanco futuro. Contudo, não há como se ter certeza alguma de como a economia se portará à frente. Há, neste mesmo livro, um teorema interessante chamado “problema de Lucrécio” em homenagem a um filósofo e poeta latino que escreveu que um tolo é aquele que acredita que a montanha mais alta do mundo será igual a montanha mais alta já vista por ele. É exatamente o que faz um governo quando intervém em um mercado tentando se precaver de crises.

Usando, por exemplo, a Crise de 1929 como referência de crise, me pergunto: qual era a referência do governo antes da crise de 1929? Certamente uma crise de menor proporção, e foi justamente por isso que a crise de 1929 foi tão devastadora. O governo, tentando se munir para combater crises de menor proporção, tornou o mercado fragilíssimo após a criação do FED (federal reserve), que tem fragilizado cada vez mais o sistema financeiro dos EUA.

A crescente compressão da volatilidade pelos governos do mundo todo está tornando os mercados cada vez mais frágeis. As economias, como a dos EUA, por exemplo, está cada vez mais rica por ser extremamente livre, mas cada vez mais endividada porque confia que seu governo, sendo capaz de conter a volatilidade deste mercado, será capaz de conter qualquer crise. O alto endividamento do FED somado a bolha especulativa que está se formando por conta do dinheiro barato injetado já preconiza uma crise ainda pior à frente.

Os EUA não conseguem anunciar alta acentuada das taxas de juros porque já sabe que a taxa de juros é uma agulha afiada encostada em parte desta bolha. Parecido com esta situação está a China, inflada por um governo que acha que pode manipular a economia, assim deixando-a fragilíssima. Essas duas economias são os atuais motores do crescimento global. Com o sistema cada vez mais frágil, não há precedentes do que passaremos em um futuro próximo.

Pós-Escrito:

Por que não identificamos a antifragilidade? O autor chama essa dificuldade de dependência do domínio. Ex: um atleta sabe que para tornar seu corpo mais forte, tem que se expor a esforços, como o exemplo de alguém que pratica hipertrofia. Um médico sabe que para se precaver da gripe, precisa se expor ao próprio vírus. Mas ambos os profissionais encontram dificuldades para entender que o mercado se beneficia com a volatilidade, mesmo se tratando, todos os casos, de antifragilidades. É preciso ter domínio do objeto de análise para identificar a antifragilidade. Me parece que, em economia, há pouquíssimos dominadores.

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