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O que o filme "Clube de Compras Dallas" tem a nos ensinar



Por Vinicius Campos

O filme “Clube de Compras Dallas” é realmente um filme interessantíssimo. Arriscaria-me a dizer que foi um dos melhores filmes que assisti nestes últimos anos. O filme rendeu o prêmio inédito de melhor ator a Matthew McConaughey, após ter emagrecido cerca de 15 quilos para se enquadrar no papel. Eu aconselharia ao leitor que o assistisse assim que possível, pois o mesmo tem algumas lições importantes a nos repassar.

ATENÇÃO: CONTÉM SPOILER

A história se baseia em Ron Woodroof, um caipira homofóbico de Dallas que acidentalmente descobre ter AIDS após um exame de sangue que visava descobrir o motivo de um desmaio. Logo de cara, o médico, após lhe diagnosticar, se diz espantado pelo fato de Ron ainda estar vivo, tendo em vista sua situação vulnerável, e lhe dá cerca de 30 dias de vida. O personagem reluta em acreditar, pois naquela época a incidência de AIDS era muito frequente em homossexuais. E o mesmo, guiado pelo seu machismo exacerbado, não consegue crer em sua situação. No entanto, os sintomas começam a aparecer rapidamente e leva Ron a preocupação, que, a partir daí, resolve pesquisar um tratamento para si.

Ao iniciar as pesquisas, Ron percebe que as informações sobre a doença ou são de difícil acesso ou são bastante confusas. Contudo, descobre um remédio que estava sendo colocado em teste nos EUA pela indústria farmacêutica em parceria com a FDA (Food and Drug Administration), órgão governamental que controla e aprova todo e qualquer medicamento comercializado no país, o AZT, que, segundo os mesmos, garantiria resultados já de imediato. A dosagem para teste era limitada e os beneficiários seriam escolhidos pela agência. Ron, em conversa com Rayon (Jared Leto), um travesti que viria a ser seu sócio posteriormente, descobre que o mesmo, juntamente com um amigo, pagavam para serem beneficiários do teste, e resolve entrar no jogo, subornando um funcionário do hospital para lhe fornecer o remédio as escondidas.

No entanto, Ron percebe que, após a ingestão do remédio, começa a sofrer reações inesperadas e que o tratamento, ao invés de lhe causar melhoras, piora sua situação, e assim sendo, resolve iniciar novas pesquisas. Com isso, descobre locais independentes fora dos EUA onde a expectativa de vida dos doentes estava sendo melhorada, tal como alguns sintomas erradicados, mesmo que temporariamente. Ele se desloca para um desses “centros de tratamento” no México e, após uma consulta com um médico que havia tido seu registro cassado, tem acesso a um coquetel que estava sendo usado nos doentes que o tal médico tratava, os ajudando efetivamente.

O médico clandestino alerta Ron que o AZT era altamente prejudicial à saúde dos dependentes, pois tentava, de forma equivocada, eliminar a doença a qualquer preço, mas não combatia o sintoma, como a baixa imunidade, além de ser altamente tóxico, despencando ainda mais a resistência dos pacientes. No final das contas, o remédio, ao invés de causar qualquer indício de cura, matava os tratados.

Após notar a eficiência do coquetel Mexicano, Ron, movido pela possibilidade de lucro, resolve importar o coquetel e vender nos EUA, já que sua eficiência era comprovada. Daí já podemos extrair uma lição importante: o personagem capta uma informação de mercado – tal coquetel era efetivo e não estava sendo comercializado nos EUA – e, motivado pelo lucro, resolve comercializar o tal em um mercado com alta demanda, ou seja, levaria ao mercado uma solução mais eficiente em troca de lucros. Porém, estava prestes a descobrir algo que poderia dificultar seu projeto: protecionismo estatal em parceria com o lobby farmacêutico em busca de lucros através da concessão de um monopólio.

Ron acha brechas na lei e começa a comercializar seu coquetel. Após a experiência comprovar que seu coquetel era mais efetivo que o AZT, quase todos os usuários dependentes do mesmo nos hospitais da cidade começam a se inscrever em seu clube de compras que, com o passar do tempo, consegue reduzir bruscamente o índice de mortalidade entre os tratados. Entretanto, a indústria farmacêutica, juntamente com a FDA, começa a perseguir Ron e a lhe gerar prejuízos contínuos visando quebrar seu negócio. Após altos e baixos no decorrer da trama, o monopólio governamental consegue finalmente quebrar Ron após um julgamento judicial, mesmo após o juiz ter apontado as ações inescrupulosas da agência.

O filme nos demonstra claramente os efeitos maléficos do protecionismo estatal. Sob o discurso de estar protegendo a integridade de sua população, o governo, através da FDA, manipulava o mercado farmacêutico restringindo a competitividade através do bloqueio a entrada de concorrentes externos mais eficientes. Sem competitividade, o remédio garantia altos lucros ao lobby e ao governo, enquanto sua eficácia ficava em segundo plano. Tudo isso acontecia em detrimento ao consumidor, e, ainda pior, a vida dos mesmos, pois, além de forçar a população a pagar caro pelo AZT, remédio altamente ineficaz, restringia a oferta de remédios que poderiam ter salvo a vida de muitas pessoas.



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